O massacre de Gaza, um alerta contra a hipocrisia (ou cegueira) israelense
A Elefante está lançando O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe, de Gideon Levy e com tradução de Rafael Domingos Oliveira. Reproduzimos abaixo uma crítica de Benoit Challand, professor e chefe do Departamento de Sociologia da New School for Social Research, em Nova Iorque, Estados Unidos. O texto foi publicado em 2024, na época do lançamento da edição original do livro. A nossa edição em português avança ainda mais no tempo — nos quase 100 textos de Levy, chegamos a publicações de 2025, além de uma introdução inédita escrita já no início desde 2026. Seguem os apontamentos do professor estadunidense, que atravessam vários dos principais aspectos do livro.
Por Benoit Challand
Publicado no Public Seminar
*setembro de 2024
Gideon Levy, premiado jornalista do diário israelense em inglês Haaretz, cobre os territórios palestinos ocupados desde o final da década de 1980. Sua coluna, “Twilight Zone”, publicada durante o processo de Oslo, ficou famosa por perturbar muitos israelenses, pois demonstrava, semana após semana, que o tão aclamado processo de paz não era um exercício diplomático para solucionar problemas e estabelecer uma paz duradoura, mas sim um esforço profundamente cínico para permitir que os militares israelenses consolidassem e controlassem a expansão dos assentamentos judaicos na Palestina ocupada.
Levy escreve para o Haaretz há 42 anos. Grande parte desse tempo foi dedicada à cobertura da ocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, um processo que começou há 30 anos, quando Yasser Arafat retornou a Gaza para estabelecer a Autoridade Nacional Palestina. Embora reporte de Tel Aviv, Levy cultivou uma importante rede de interlocutores palestinos em Gaza, frequentemente por meio de intermediários e tradutores, e dá amplo espaço para que os palestinos falem por si mesmos. Seu novo livro é uma coletânea de artigos escritos desde 2014 e se concentra principalmente em Gaza, a fim de melhor compreender o dia 7 de outubro de 2023 e suas consequências.
A força da obra de Levy reside na estrutura dupla de suas análises, uma estrutura gerada por sua localização em Tel Aviv e por seu profundo conhecimento da vida palestina sob a ocupação militar israelense. Consequentemente, a leitura de seu novo livro, O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe, implica um constante diálogo entre a situação em Gaza e o significado que ela tem tanto para os palestinos quanto para os cidadãos de Israel.
Ele tem três públicos: israelenses comuns que fingem não ver a ocupação; jornalistas e líderes da sociedade civil, que precisam ouvir relatos em primeira mão de palestinos sob ocupação israelense; e a elite israelense, a quem ele critica duramente por sua hipocrisia em relação a Gaza. Seus artigos alternam entre reportagens da linha de frente em Gaza e críticas veementes a outros israelenses.
O livro começa relatando os eventos de 7 de outubro. Naquela manhã, Levy estava correndo, como de costume, no Parque Hayarkon, um bairro aconchegante de Tel Aviv, quando sua rotina foi interrompida por sirenes. Ao voltar para casa, soube pela mídia israelense que centenas de civis israelenses haviam sido massacrados no sul de Israel, ao longo da fronteira com Gaza. A princípio, Levy ficou incrédulo: como o muro de segurança ao redor de Gaza, avaliado em bilhões de shekels israelenses, poderia ter falhado em impedir uma incursão armada vinda da Faixa de Gaza?
Levy logo percebe que o massacre de 7 de outubro abriu um capítulo inteiramente novo na história da região. Contudo, ele também sabe que esse ataque não foi repentino e que havia razões profundas e subjacentes para o Hamas e a Jihad Islâmica terem atacado Israel. Ele se lembra de se sentir dividido: recorda o pecado original de Israel em 1948, a Nakba palestina; recorda a brutalidade da ocupação militar israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza após a Guerra dos Seis Dias de 1967 e o cerco contínuo à Faixa de Gaza desde 2007. E sabe que a maioria de seus compatriotas judeus israelenses não terá interesse nesses fatos.
E, de fato, nas semanas seguintes, a mídia israelense se encheria de opiniões que Levy jamais compartilharia. “Depois do que fizeram conosco”, argumentariam esses comentaristas, “nada nos é proibido”, “Não há inocentes em Gaza”, “Todos são do Hamas”, “Se não há oposição ao Hamas em Gaza, é prova de que todos apoiam a organização” e “Israel está na linha de frente da civilização mundial contra o fundamentalismo islâmico”.
O livro serve como uma refutação dessas afirmações, e Levy retrocede no tempo, a seus escritos anteriores, para demonstrar por que e como os governos israelenses criaram, de fato, as condições que levaram aos horrores de 7 de outubro. A primeira parte do livro republica artigos de Levy publicados no Haaretz entre 2014 e setembro de 2023, detalhando os efeitos do longo cerco de Israel a Gaza. Uma segunda parte reúne textos mais recentes, escritos entre 7 de outubro de 2023 e 12 de junho de 2024.
Esses artigos descrevem como o Hamas conseguiu se reagrupar em Gaza e continuar sua resistência, por vezes violenta, a Israel. Eles demonstram a duplicidade dos diversos governos israelenses que mantiveram esse precário modus vivendi em Gaza para justificar o adiamento indefinido de um acordo de paz. Outros artigos criticam duramente o silêncio de jornalistas israelenses e líderes da sociedade civil em relação à situação dos palestinos em Gaza.
Quando o mundo zomba da mídia russa de Putin pela cobertura da guerra na Ucrânia, o faz com razão. Os consumidores de mídia na Rússia nunca receberam um retrato completo da realidade, já que a mídia serve ao Estado. Mas existe um tipo de mídia ainda mais patético e perigoso: aquela que voluntariamente renuncia à sua objetividade. Ela faz isso sem pressão ou ameaças do sistema judiciário, do exército, do governo ou dos serviços secretos. A mídia israelense, em sua maioria, se dispôs a servir à causa da propaganda nacional.
Ainda assim, alguns israelenses, nesses anos, escreviam petições ou cartas abertas a jornais denunciando o tratamento dado aos moradores de Gaza e os assassinatos seletivos de líderes de facções palestinas. Até mesmo militares, por vezes, protestavam contra as ações em Gaza.
De fato, nos meses que antecederam o dia 7 de outubro, as ruas israelenses se encheram de ativistas que protestavam contra o ataque de Netanyahu à independência do sistema judiciário. Em determinado momento, 180 pilotos ameaçaram não comparecer aos exercícios de treinamento, em um ato de desobediência civil.
Tudo isso mudou depois de 7 de outubro.
Em um artigo de 3 de janeiro de 2024 intitulado “Nenhum soldado israelense se levantou e se recusou a participar desta guerra maligna”, Levy pergunta:
Onde estão os 180 pilotos? Estão ocupados bombardeando Gaza, arrasando-a, destruindo-a e matando seus moradores indiscriminadamente, incluindo milhares de crianças. Como foi possível que o bombardeio da casa de Salah Shehadeh [em 2002], que matou 14 moradores, 11 deles crianças, tenha levado à “carta dos pilotos”, na qual 27 pilotos declararam que se recusariam a servir em missões de ataque — e agora, nem sequer um cartão postal de um único piloto? O que aconteceu com nossos pilotos desde 2003, e o que aconteceu com os soldados?
Desde outubro de 2023, Gideon Levy tem sido repetidamente difamado na mídia israelense por se apresentar como defensor do Hamas, por insistir em relembrar as políticas desumanas de Israel em Gaza que antecedem o ataque do Hamas.
Ele destaca o desrespeito de Israel pelo direito internacional humanitário na Faixa de Gaza. Documenta como a economia de Gaza foi estrangulada pelos israelenses. Sete anos após o Hamas tomar o poder em 2007, a maioria dos pontos de passagem usados para exportar produtos agrícolas de Gaza foram fechados pelos israelenses; em 2011, apenas Kerem Shalom permanecia em funcionamento. Obviamente, a atual crise humanitária em Gaza tem suas origens em anos de políticas hostis de Israel.
Mas o objetivo de Levy não é justificar o Hamas. Em vez disso, ele espera mostrar que Israel não pode se declarar uma democracia enquanto mantém uma força de ocupação militar que nega liberdades básicas a quase seis milhões de palestinos que vivem nos territórios ocupados. Quanta hipocrisia há em um Estado que se orgulha de defender sua soberania a qualquer custo e nega a soberania a outro povo?
As imagens que muitos jornalistas e observadores de direitos humanos usam para descrever a situação em Gaza contam a história: Gaza é uma “gaiola”, uma “prisão sem teto cercada por grades”, o “maior curral do mundo”, um lugar para ser “inundado até ficar completamente submerso”. Em O massacre de Gaza: relatos de uma catástrofe, Levy mostra como a humilhação rotineira dos habitantes de Gaza por Israel, agora intensificada pela guerra contra o Hamas, tornou-se uma das principais causas de violência na região.
Felizmente, alguns jornalistas do Haaretz ainda conseguem oferecer aos leitores israelenses uma crítica contundente à propaganda do regime — uma crítica baseada em depoimentos diretos de palestinos. Mas resta saber qual será o efeito disso.
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Foto: Gideon Levy durante entrevista ao jornal holandês de Volkskrant









