Questões de classe: bell hooks diante do assunto que ‘nos provoca tensão, dúvida’

Questões de classe: o lugar que ocupamos é o novo livro de bell hooks aqui no catálogo da Elefanteoutros 14 foram publicados desde 2019. Está em pré-venda com desconto em nosso site. A tradução é de Larissa Bontempi, o prefácio de Cida Bento, e a publicação é feita em parceria com a Oficina Palimpsestus. Segue um trecho do prefácio original da autora, em livro que foi publicado pela primeira vez em 2000.

Hoje em dia está na moda falar sobre raça ou gênero. Classe é o assunto que ficou de fora da conversa; é o assunto que nos provoca tensão, nervosismo e dúvida em relação ao lugar que ocupamos. Em menos de vinte anos, nosso país se tornou um lugar onde as pessoas ricas de fato governam. Houve uma época em que a riqueza proporcionava prestígio e poder, mas não determinava sozinha os valores da nossa nação. Apesar de a ganância sempre ter feito parte do capitalismo estadunidense, foi só recentemente que ela estabeleceu o padrão de como vivemos e interagimos no dia a dia.

Muita gente que mora neste país, eu inclusa, sentiu e sente medo de pensar sobre classe. Pessoas liberais abastadas que se preocupam com a vida precária de quem nada possui são diariamente zombadas e ridicularizadas. Elas são culpabilizadas por todos os problemas do Estado de bem-estar social. O cuidado e o compartilhamento passaram a ser vistos como traços de fraqueza idealista. Nossa nação está se tornando uma sociedade cada vez mais segregada por classes, em que a precariedade de quem não tem dinheiro é esquecida e a ganância de quem acumula grandes fortunas é moralmente tolerada e aprovada.

Como sociedade, temos medo de dialogar sobre classe, muito embora a desigualdade cada vez maior entre a riqueza e a pobreza já tenha estabelecido o cenário para a constante e prolongada luta de classes. Como uma cidadã que mudou da classe trabalhadora para o mundo da abundância, eu sofri por muito tempo para compreender a classe em minha vida, para aceitar o que significa ter tanto enquanto muitas pessoas têm tão pouco. No meu caso, minha família e minhas amizades estão entre essas pessoas. Assim como a vasta maioria das mulheres neste país, eu acredito no cuidado e no compartilhamento. Quero viver em um mundo onde haja o suficiente do básico e do necessário para todo mundo. A aplicação dessas crenças na experiência cotidiana não é um tópico fácil nem simples.

Estes ensaios sobre classe abordam questões de responsabilidade nacional e pessoal. Eu escrevo sobre os problemas de classe que mais afetam intimamente a minha vida e a de muita gente que está tentando encontrar maneiras de ser responsável, que acredita na justiça, que deseja se posicionar. Escrevo pessoalmente sobre a minha trajetória do mundo da classe trabalhadora para a consciência de classe, sobre como o classismo solapou o feminismo, sobre solidariedade com as pessoas pobres e sobre como enxergamos as ricas. É claro que estes ensaios abordam consumismo e as formas com que o desejo por abundância cria uma política da ganância. (…)

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