Saudades do que nunca fomos: ‘o futebol se brutalizou, como a própria vida’
A Elefante está lançando Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, livro de Fabio Luis Barbosa dos Santos. Trata-se de um ensaio que vai pensar sobre como o futebol dialoga com os imaginários da nação brasileira e as discussões da vida social contemporânea. E que, sim, o jogo e a política se misturam, o tempo todo. Fabio tem vasta produção aqui na casa, principalmente de olho na política latino-americana (conheça aqui). Ele concedeu uma entrevista ao SBT News:
O futebol pode ser considerado um indicador das próprias condições de vida civilizada. Levando em conta o futebol hoje, quais condições ele expressa?
O futebol se brutalizou, como a própria vida. As deficiências técnicas do futebol jogado no Brasil comprometem o prazer de assistir ao esporte, mas o aproximam da realidade da vida. Cada vez mais, o futebol brasileiro se caracteriza pela correria, em que todos estão em constante disputa.
Como na vida, o jogo é cada vez mais brigado e menos lúdico. Esse é um sintoma de um mundo com menos espaço para o humor. Um drible aleatório passa a ser visto como provocação, que exige resposta imediata. Só se pode driblar em direção ao gol, como se apenas fosse permitido o sexo para procriar. Em que momento o drible, que concentra a beleza do jogo, virou pecado?
O futebol jogado no Brasil apresenta cada vez menos tempo de bola rolando e menos gols. Como consequência, a atenção se desloca para disputas violentas, confusões, arbitragem e bolas paradas. Ou seja, para tudo o que acontece quando a bola não está em jogo ou para os motivos que a fizeram parar. É como se a paixão pelo jogo estivesse mais nos conflitos e menos na beleza.
O livro faz menção à relação entre o futebol e o capitalismo. No mundo atual, o neoliberalismo pode explicar o futebol (ou vice-versa)?
Enquanto a austeridade neoliberal impedia gastos, a racionalização nos gramados reduziu os espaços para dribles, tabelas e finalizações. À medida que a chamada gestão eficiente enxugava o Estado, o jogo também se tornava mais compacto, exigindo movimentação constante dos jogadores e inibindo jogadas sem utilidade imediata, como o drible.
Dentro da lógica da responsabilidade fiscal, o jogador deve ser responsável com a bola e evitar excessos de habilidade. Essas mudanças impactaram também a forma como os torcedores enxergam o jogo, passando a valorizar eficiência — o chamado “futebol de resultados”, expressão que revela a influência do vocabulário corporativo no esporte.
Essa lógica busca eliminar tudo o que foge ao objetivo principal, que deixa de ser jogar bem para ser apenas vencer. Como no futebol, assim como na vida, destruir é mais fácil do que construir, muitas equipes jogam apenas para não sofrer gols.
A dificuldade de criação foi agravada pelo uso das faltas como estratégia, deixando de ser algo ocasional para se tornar um recurso tático. Como o futebol é o único esporte coletivo que não exige o ataque constante, o jogo defensivo se consolidou. O resultado é um futebol menos atrativo e com menos gols. Como dizia Eduardo Galeano, o gol é o orgasmo do futebol. Nesse sentido, o neoliberalismo teria “deserotizado” o esporte.
A população brasileira está menos animada para a Copa do Mundo? Se sim, por quê?
A população brasileira está mais cautelosa. Ainda assim, como o futebol é imprevisível, a decepção em Copas nunca pode ser totalmente antecipada.
Nessa incerteza está a esperança de que, desta vez, seja diferente — mesmo que isso pareça cada vez menos provável. Entre o que é provável e o que se deseja, o futebol ainda produz encantamento, especialmente na Copa do Mundo, embora em menor intensidade do que no passado.
As derrotas recentes e a lembrança do 7 a 1 fizeram com que os brasileiros criassem mecanismos de defesa contra a frustração.
O marketing corporativo também percebeu esse recuo. A grande mobilização publicitária em torno da Copa, antes associada à celebração da identidade nacional, perdeu força. A menos de dois meses do torneio, em pontos de ônibus de São Paulo, há mais campanhas associadas à Champions League ou à cantora Ivete Sangalo do que à Copa e à Seleção.
A qualidade do futebol da seleção brasileira caiu?
Mais do que uma queda de qualidade, o futebol brasileiro como estilo próprio está deixando de existir. O impacto da globalização ficou evidente no fim do século XX, com a flexibilização das regras para contratação de jogadores na Europa, o aumento das cifras e a concentração de recursos em poucos clubes europeus.
No Brasil, os clubes passaram a funcionar como vitrines para o mercado internacional. Em vez de negociar jogadores para formar equipes, passaram a formar equipes para negociar jogadores. Os times se tornaram mais instáveis. Quando uma equipe se destaca, seus principais jogadores são vendidos e o elenco é desfeito. Isso gera dois efeitos: a saída precoce dos melhores atletas e a dificuldade de formar times entrosados, com vínculos construídos ao longo do tempo, como ocorreu com o Flamengo de Júnior, Andrade e Zico nos anos 1980.
A saída constante de talentos e a impossibilidade de manter equipes estruturadas colocaram em crise o futebol brasileiro como identidade própria. A lógica imediatista dificulta a construção de um estilo, enquanto a exportação precoce faz com que os jogadores sejam formados segundo padrões europeus. Em outras palavras, não é apenas o futebol europeu que se globalizou, mas o futebol mundial que se europeizou.
Como você enxerga o uso da camisa da seleção brasileira em relação à apropriação pelo bolsonarismo? Isso ainda tem o mesmo peso das eleições de 2018 e 2022?
Além disso, o torneio foi disputado no fim do ano, logo após uma eleição acirrada, e o principal jogador da Seleção, Neymar, havia declarado apoio ao candidato derrotado. Isso não significa que a política ficará fora do futebol.
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Foto: CBF












