Alcançar a consciência de classe (com bell hooks)

A Elefante está lançando Questões de classe: o lugar que ocupamos, 15º livro de bell hooks em nosso catálogo, em constante construção desde 2019. Depois de discutir raça e gênero em inúmeros livros, a autora aqui se dedica, como diz o título, às questões de classe, concluindo assim sua extensa análise sobre os sistemas integrados de opressão. Segue o início do segundo capítulo do livro, intitulado ‘Alcançar a consciência de classe’: 

Quando criança, eu queria coisas que meus pais não podiam comprar porque não tinham dinheiro. Em vez de nos dizer que não teríamos algum bem material por falta de dinheiro, muitas vezes nossa mãe nos manipulava em um esforço de fazer o desejo ir embora. De vez em quando ela nos diminuía e nos humilhava por causa do nosso objeto de desejo. É disso que mais me lembro. Em sua boca cheia de histórias, aquele lindo vestido amarelo que eu queria virava uma coisa muito feia, com cara de “feita pela mamãe”, que nenhuma garota que se importasse com a própria aparência desejaria. Meus desejos eram tratados como se fossem tolos e sem importância. Aprendia desconfiar deles e a silenciá-los. Aprendi que, quanto mais explicitamente eu nomeasse meus desejos, mais improvável seria que eles fossem realizados.

Aprendi que teria mais paz interior se não pensasse em dinheiro nem me permitisse satisfazer qualquer fantasia do desejo. Aprendi a arte da sublimação e da repressão. Aprendi que era melhor me contentar com desejos materiais aceitáveis do que expor os inalcançáveis. Antes de saber que o dinheiro fazia diferença, muitas vezes eu escolhia objetos de desejo caros, coisas incomuns para uma garota da minha classe. Mas na época eu ainda não tinha consciência de classe, não achava que meus próprios desejos eram tolos e errados. E, quando descobri que eram, eu os abandonei. Concentrei-me em sobreviver; em me virar.

Quando eu estava escolhendo uma faculdade, a questão do dinheiro veio à tona e teve de ser abordada. Embora eu proc-rasse empréstimos e bolsas de estudos, e mesmo que tudo relacionado à faculdade estivesse coberto, ainda restariam o transporte, os livros e uma porção de outros gastos ocultos. Ao me avisar que eu não poderia contar com dinheiro extra da família, minha mãe me incentivou a frequentar qualquer faculdade próxima que oferecesse auxílio financeiro. No meu primeiro ano de graduação, frequentei uma instituição perto de casa. Uma recrutadora branca de aparência simples se sentou na nossa sala e explicou aos meus pais que estava tudo resolvido, que eu receberia uma bolsa de estudos integral, que eles não teriam de pagar nada. Eles sabiam que não era bem assim. Sabiam que ainda restavam transporte, roupas e todos os outros custos. Ainda assim, acharam essa faculdade aceitável. Poderiam me levar e me buscar, eu não precisaria gastar dinheiro com viagens para casa nos feriados. Eu poderia me virar.

Depois que meus pais me deixaram nessa faculdade feminina predominantemente branca, vi o terror na cara da minha colega de quarto por ter sido alojada com uma pessoa negra — e solicitei uma mudança. Com certeza ela também havia expressado sua preocupação. Deram-me um quarto individual minúsculo perto das escadas que em geral era recusado por estudantes de primeiro ano, mas eu era uma estudante negra de primeiro ano, uma bolsista que nem em um milhão de anos teria condições de pagar as próprias despesas nem arcar com os custos de um quarto individual. Meus colegas mantinham distância de mim.

Eu comia na cantina e não tinha de me preocupar com quem iria pagar a pizza e as bebidas no mundo lá fora. Guardei para mim meus desejos, minhas carências e minha solidão; eu me virava.

Eu quase nunca fazia compras. Recebia caixas vindas de casa com roupas novas adquiridas pela minha mãe. Apesar de nunca termos falado sobre isso, ela não queria que eu me sentisse envergonhada entre as garotas brancas privilegiadas. Eu era a única negra no meu dormitório. Não havia espaço para vergonha em mim. Eu sentia desdém e desinteresse. Com suas risadinhas e sua obsessão por casamento, as garotas brancas na faculdade eram alienígenas. Nós não residíamos no mesmo planeta. Eu vivia no mundo dos livros. A única mulher branca que se tornou minha amiga se aproximou de mim por causa da leitura. Eu estava escondida debaixo das sombras de uma árvore com galhos enormes, o tipo de árvore que só parece crescer sem dificuldade em campi universitários abastados. Eu me sentava na grama “perfeita” para ler poesia, perguntando a mim mesma como aquela grama ao meu redor podia ser tão bonita, se quando meu pai tentava plantar grama no quintal da frente da casa do sr. Porter ela sempre ficava amarela ou marrom e depois morria. Meu pai foi continuamente derrotado pelo jardim, até que desistiu. O lado externo da casa tinha boa aparência, mas o quintal sempre sugeria abandono constante. O jardim parecia pobre.

A folhagem e as árvores da faculdade cresciam. O verde era exuberante e intenso. Do meu lugar debaixo das sombras, vi uma colega sentada sozinha, chorando. Sua tristeza tinha a ver com todas as trivialidades que rotineiramente assombravam as salas de aula: o medo de não ser inteligente o bastante, de perder o auxílio financeiro (assim como eu, ela tinha empréstimos e bolsas, apesar de a família pagar uma parte), e garotos. Vinda de uma família de imigrantes tchecoslovacos de Illinois, ela sabia o que era classe.

Quando falava sobre as outras garotas, que se gabavam de sua riqueza e de sua origem, sua voz adquiria um forte tom de desprezo, raiva e inveja. Inveja sempre foi algo que eu afastei da minha psique. Se mantida perto demais, a inveja pode levar à obsessão e, depois, ao desejo. Eu não desejava nada do que aquelas garotas tinham. Ela desejava tudo, falava de seus desejos sem nenhum constrangimento. Por ter crescido no tipo de comunidade onde havia competição constante para ver quem podia comprar o maior e melhor sei-lá-o-quê, em um mundo de trabalho organizado, de sindicatos e greves, ela compreendia o mundo dividido entre quem manda e quem obedece, quem tem e quem não tem.

Minhas amizades brancas dos tempos de ensino médio usavam seu privilégio de classe com moderação. Assim como eu, tinham sido criadas nas tradições da igreja, que ensinava a identificação com a pobreza; sabíamos que o mal residia no excesso. Sabíamos que as pessoas ricas dificilmente iriam para o céu, pois Deus lhes entregara um paraíso de abundâncias na terra, e elas não o haviam compartilhado. As raras pessoas ricas que o compartilhavam eram as únicas que poderiam conhecer o divino no paraíso — isso se realmente conseguissem entrar. De acordo com o pessoal do ensino médio, ostentar a riqueza era malvisto no nosso mundo, por Deus e pela comunidade.

As poucas mulheres com quem fiz amizade no primeiro ano de faculdade não eram ricas. Eram as únicas que compartilhavam comigo as histórias das outras garotas, as quais se gabavam por poderem comprar qualquer coisa cara — roupas, comida, férias. Nós que vínhamos da classe trabalhadora não éramos muitas; nós nos reconhecíamos. A maioria das garotas de origem pobre tentava se encaixar ou enfrentava a situação driblando a riqueza com beleza ou estilo, ou uma combinação de ambos. Ser negra já me tornava automaticamente uma estranha. O desprezo pelo mundo delas me puxou ainda mais para a margem. Uma das diversões das garotas “descoladas” era escolher o quarto de alguém para bagunçar. Eu tinha pavor de que fizessem isso comigo, assim como de tantas outras atitudes consideradas fofas por quem era do grupo delas. Eu tinha pavor de pensar em gente estranha entrando no meu espaço e mexendo nas minhas coisas. Por não fazer parte da patota, eu era um alvo improvável. Mas meu desdém acabou me levando ao primeiro lugar da lista. Eu não entendia. Quando bagunçaram meu quarto, isso despertou em mim uma raiva e uma tristeza profundas por não conseguir proteger meu espaço da violação e da invasão. Eu detestava como aquelas garotas que tinham de tudo não valorizavam nada nem pensavam que nós, que não tínhamos dinheiro sobrando, não poderíamos repor as coisas quebradas, o perfume derramado, o talco espalhado por toda parte — que não sabíamos que tudo poderia ser resolvido na lavanderia porque nunca lavávamos nossas roupas lá. Minha raiva alimentada pelo desprezo era forte e duradoura e, dia após dia, vista como um desafio para a diversão e para os hábitos delas.

Nada do que elas faziam para me ganhar funcionava. Isso, para elas, foi uma grande surpresa, pois sempre acreditaram que garotas negras desejavam ser brancas e possuir o universo da branquitude. Meu olhar indiferente, meu silêncio e minha recusa absoluta a cruzar o umbral do seu mundo eram um completo mistério e uma violação que devia ser vingada. Depois de bagunçarem meu quarto, tentaram me conquistar com pedidos de desculpas e insistiram para conversar e entender. Eu não queria que elas entendessem nada sobre mim. Tudo no mundo delas era exposto demais, superficial. (…)

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