bell hooks: ‘Não se pode ser feminista e conservadora ao mesmo tempo’
Questões de classe: o lugar que ocupamos é o 15º livro de bell hooks em nosso catálogo. Depois de discutir raça e gênero, aqui a autora se dedica mais diretamente à análise dos sistemas de opressão, com o texto claro e acessível de sempre. Segue a parte final do capítulo 9, chamado ‘Feminismo e poder de classe’.
(…) Quando as mulheres alcançaram maior status e poder de classe comportando-se de maneira semelhante aos homens, a política feminista enfraqueceu. Muitas militantes se sentiram traídas. Mulheres de classe média e média-baixa repentinamente compelidas pelo éthos do feminismo a entrar no mercado de trabalho não se sentiram “libertas” ao se depararem com a dura realidade de que trabalhar fora de casa não significava que o trabalho doméstico seria dividido. O divórcio facilitado acabou sendo economicamente mais benéfico para os homens do que para as mulheres. À medida que o divórcio se tornava mais comum, esposas em casamentos longos — que haviam sido sustentadas por maridos privilegiados ou de classe trabalhadora enquanto trabalhavam sem remuneração dentro de casa — sofreram consequências econômicas. Elas se sentiram traídas tanto pelo sexismo convencional, que havia sancionado seu papel de dona de casa em tempo integral, quanto pelo feminismo, que insistia que o trabalho era libertador, sem deixar claro que haveria poucas oportunidades de emprego para mulheres mais velhas de qualquer classe que tivessem passado a maior parte da vida adulta fora do mercado de trabalho.
À medida que muitas mulheres negras e de cor viam as brancas das classes privilegiadas se beneficiarem economicamentemais do que qualquer outro grupo com os avanços reformistas do feminismo no mercado de trabalho, isso apenas reafirmava a ideia de que o feminismo era coisa de mulher branca — e respaldava a insistência dos homens desses grupos de que a libertação feminina tinha sido, desde o início, uma forma de manter o homem negro/de cor em seu devido lugar. Esses homens sexistas não estavam interessados em se aliar a pensadoras feministas radicais e/ou revolucionárias para derrubar o controle feminista reformista do movimento e colocar em prática estratégias mais progressistas.
O feminismo radical e/ou revolucionário continuou representando uma visão do movimento feminista que criticae confronta o classismo. Ao contrário da visão superficial do feminismo reformista, que insiste que o trabalho é libertado o paradigma visionário de mudança social afirma que a educação para a consciência crítica é o primeiro passo no processo de transformação feminista. Assim, mulheres, homens e crianças podem defender a política feminista independentemente de estarem no mercado de trabalho. O passo seguinte é a intervenção em todas as esferas da estrutura existente. Essa intervenção pode assumir o aspecto de uma reforma ou de uma mudança radical. Por exemplo: feministas radicais e/ou revolucionárias que criaram teoria feminista, mas não tinham doutorado, reconheceram que nosso trabalho seria completamente ignorado se não adentrássemos mais profundamente o sistema acadêmico patriarcal existente. Para algumas de nós, isso significou buscar um doutorado mesmo sem ter grande interesse pela carreira acadêmica. Para sermos bem-sucedidas dentro desse sistema, tivemos de desenvolver estratégias que nos permitissem fazer nosso trabalho sem comprometer nossas políticas e nossos valores feministas. Não foi fácil, mas conseguimos. Algumas de nós, oriundas da classe trabalhadora, mudamos de status e passamos a integrar as esferas da classe privilegiada. Compreendíamos a autossuficiência econômica como um objetivo crucial do movimento feminista. No entanto, também acreditávamos — crença agora confirmada pela experiência — que era possível conquistar poder de classe sem trair nossa solidariedade com quem não possuía privilégios. Viver de maneira simples, compartilhar nossos recursos e recusar o consumismo hedonista e a política da ganância eram algumas formas de colocar em prática essa crença. Nosso objetivo não era enriquecer, mas alcançara autossuficiência econômica. Nossas experiências contradizem a suposição de que mulheres só poderiam conquistar avanços econômicos ao colaborar com o patriarcado capitalista existente.Infelizmente, o trabalho de mulheres e homens que pensam o feminismo radical e/ou revolucionário raramente recebe ampla atenção. Quando recebe, muitas vezes é desmerecido por facções conservadoras que se apresentam como feministas. Uma definição básica de feminismo é que se trata de um movimento para acabar com o sexismo, a exploração e a opressão sexistas. Não se pode ser feminista e conservadora ao mesmo tempo; isso é uma contradição fundamental. É claro que mulheres conservadoras e liberais pró-patriarcado, que defendem seus interesses de classe, utilizaram a mídia de massa com eficácia para distorcer os debates e fazer parecer que o feminismo pode se rtudo para todos. Como as pensadoras feministas reformistas que ganham destaque nas correntes convencionais têm interesse em obscurecer as teorias e práticas radicais, elas colaboram com as forças do patriarcado conservador para criara impressão de que o movimento feminista não importa mais, de que estamos em uma era “pós-feminista” e de que a liberdade é impossível. Essa perspectiva transforma a conquista de benefícios dentro da estrutura social existente na única esperança. Ironicamente, políticas públicas antifeministas vêm minando constantemente os direitos conquistados pela luta feminista, de modo que as mulheres que obtiveram privilégios ao colaborar com o patriarcado capitalista supremacista branco acabem perdendo no longo prazo.
A única esperança genuína de libertação feminista reside numa transformação social que leve em consideração os modos como sistemas interligados de opressão de classe, raça e gênero atuam para manter as mulheres exploradas e oprimidas. As mulheres ocidentais conquistaram poder de classe e maior igualdade de gênero porque um patriarcado global supremacista branco escraviza e/ou subordina massas de mulheres do Terceiro Mundo. Nos Estados Unidos, a combinação de uma indústria carcerária em expansão, de políticas assistencialistas orientadas ao trabalho social e de uma política migratória conservadora cria condições para que a escravidão por contrato seja tolerada. O fim dos programas de assistência social criará uma nova subclasse de mulheres e crianças sujeitas ao abuso e à exploração pelas estruturas de dominação existentes, evidenciando ainda mais que a “liberdade” das mulheres com privilégios de classe depende da escravização de grupos subordinados.
Dadas as realidades mutantes da questão de classe no nosso país — como o aumento da distância entre as camadas ricas e pobres e a contínua feminização da pobreza —, precisamos desesperadamente de um movimento feminista radical de base popular que se apoie nas forças do passado, incluindo os ganhos positivos promovidos pela reforma, mas que também aponte novos caminhos e ofereça uma crítica significativa a ideias e ações feministas que se mostraram equivocadas. Acima de tudo, um movimento visionário basearia seu trabalho nas condições concretas das mulheres da classe trabalhadora e pobre. Isso significa criar um movimento no qual a educação para a consciência crítica comece a partir da realidade das pessoas. Ainda há tempo para implementarmos moradias populares que as mulheres possam adquirir. Se mulheres da classe trabalhadora e pobre tivessem a oportunidade de ser proprietárias de sua casa por meio de políticas progressistas de assistência e trabalho sociais, isso representaria um passo rumo à liberdade. A criação de cooperativas habitacionais com princípios feministas é outro passo que poderia tornar a luta feminista relevante para as massas. Esses são apenas alguns exemplos do trabalho que precisa ser feito.
Apesar de as pensadoras reformistas terem manipulado as questões de classe para minar a política feminista, o feminismo continua sendo o único movimento por justiça social na nossa sociedade que foca, de maneira central, as preocupações de mulheres e crianças. Se as mulheres quiserem desempenhar um papel significativo nas lutas contra o racismo e o classismo, precisam começar com uma consciência feminista. Abandonar o movimento feminista é outro gesto de conivência com o sistema. A política feminista radical/revolucionária traz uma mensagem de esperança, bem como estratégias para empoderar mulheres e homens de todas as classes. O feminismo é para todo mundo.












