O limite ecológico-do-mundo capitalista? O próprio capital

Estamos lançando Capitalismo na teia da vida: ecologia e acumulação de capital, de Jason W. Moore, livro que elabora o capitalismo não como mais um mero sistema econômico, mas sim a própria forma de organizar a natureza. Reproduzimos abaixo uma das partes da conclusão do livro. O autor dividiu esse momento numa introdução e mais três pontos, e aqui vai o número 1, chamado “Ascensão e atual queda do valor”:

O capitalismo esgotou a relação histórica que permitiu que ele se apropriasse do trabalho da natureza com uma força tão extraordinária e sem precedentes. Os limites do crescimento enfrentados atualmente pelo capital são reais o bastante: são “limites” coproduzidos através do capitalismo. O limite ecológico-do-mundo capitalista é o próprio capital.

O que estamos testemunhando hoje é o “fim” da Natureza Barata como estratégia civilizacional. Essa estratégia nasceu, como vimos, durante o longo século XVI. Em seu âmago estava um projeto civilizacional engenhoso voltado à construção da natureza como externa à atividade humana e, daí, à mobilização do trabalho não mercantilizado das naturezas humanas e extra-humanas a serviço do aumento da produtividade do trabalho na produção de mercadorias. A mudança revolucionária em escala, escopo e velocidade das transformações biológicas e de paisagens nos três séculos que se seguiram a 1450 — e que se estenderam da Polônia ao Brasil, da pesca de bacalhau no Atlântico Norte às ilhas produtoras de especiarias no Sudeste Asiático — pode ser compreendida sob essa luz. Essas transformações foram expressões epocais de uma nova lei do valor que reconfigurou as naturezas humanas e extra-humanas não mercantilizadas (escravizados, florestas, solos) a serviço da mercadoria e da produtividade do trabalho.

Essa nova lei do valor era bastante peculiar. Até então, nenhuma civilização havia negociado a transição da produtividade do solo para a produtividade do trabalho como métrica para a riqueza. Essa estranh amétrica — o valor — orientou a totalidade da Europa centro-ocidental rumo a uma igualmente estranha conquista do espaço. Marx chamou essa conquista insólita de “anulação do espaço pelo tempo” e, durante o século XVI, pudemos ver uma nova forma de tempo — tempo abstrato — tomar corpo. Ainda que em algum sentido todas as civilizações sejam construídas para se expandir ao longo de variadas topografias — elas “pulsam” (Chase-Dunn & Hall, 1997) —, nenhuma representou essas topografias como externas e cada vez mais abstratas com relação às formas que dominaram suas vidas. A Natureza externa — com “N” maiúsculo — estava no âmago da práxis geográfica da fase inicial do capitalismo. E assim permaneceu desde então.

A transição da modernidade inicial da produtividade do solo, em múltiplas relações “tributárias”, para a produtividade do trabalho, em múltiplas relações de “mercadoria”, veio à tona graças a um poderoso agrupamento de processos coproduzidos por naturezas humanas e extra-humanas. A história desses processos é objeto de volumosas historiografias: do meio ambiente, da economia, dos Estados e dos impérios territoriais, da ciência e das ideias da natureza, da cultura e muitas, muitas mais. Aproveitei dessas historiografias — e também de muitas outras literaturas — o melhor que pude, com um olho voltado a mostrar como é possível começar a conectar as relações de poder e de (re)produção em um “campo unificado”: o tipo de campo que é descartado pelos hábitos dualistas de pensamento e pelas estruturas institucionais a eles alinhadas. Não pretendo afirmar que os modelos e narrativas aqui oferecidos esgotam as possibilidades para a elaboração de uma teoria unificada — e uma narrativa holística —do desenvolvimento do capitalismo. Mas a abordagem centrada no oikeios nos proporciona um ponto de apoio relacional, e não substancialista: uma alternativa clara para os dualismos convencionais e para o ecletismo de rede.

Como projeto e processo, o capitalismo se desenvolve dentro e através do oikeios: a relação criativa, gerativa e multifacetada entre espécies e meio ambiente. Aí, envolvida em padrões de criação de ambientes, a organização humana se torna não apenas produtora, mas também produto das mudanças ambientais. Essa é a dupla internalidade da mudança histórica.

Sem dúvida, os humanos são diferentes quanto à formação de noções historicamente específicas sobre nosso lugar na teia da vida. Essa é a história das ideias de “natureza”, que na verdade são ideias sobretudo aquilo que os humanos fazem (Glacken, 1967). Estamos entre os “engenheiros de ecossistemas” mais eficientes do planeta; e, ainda assim, nossas civilizações são erguidas e demolidas pelas atividades construtoras de ambientes da vida. (Será que hoje alguém duvida que as doenças e o clima escrevam a história exatamente do mesmo modo como qualquer império, classe ou mercado?) Aceitar essa posição significa o abandono imediato da noção de civilização (ou capitalismo) e meio ambiente, e, em seu lugar, o direcionamento de nossa atenção para a ideia de civilizações-na-natureza, para o  capitalismo como processo de criação de ambientes. Esses processos incluem, em igual medida, fábricas e florestas, casas e minas, centros financeiros e fazendas, cidades e campo.

Ainda que a criação de ambientes seja sempre coproduzida e revele a adaptabilidade da organização humana em seu duplo papel como produtora e produto, a questão da natureza permanece complicada. Tentei quebrar o gelo da história enregelada da natureza “em geral”. A natureza em geral — como númeno — está sempre lá. Mas, para aqueles comprometidos com as histórias da humanidade-na-natureza, ela não é o bastante. Não será mais capaz de nos ajudar do que a “produção em geral” pode nos auxiliar a entender a reestruturação neoliberal, a acumulação flexível e a globalização da produção. Somente uma concepção da natureza histórica será suficiente. Nesse sentido, a natureza histórica opera em um duplo registro, como campo sobre o qual o capitalismo se desenvolve — um campo cujos limites estão sujeitos a revisão — e como objeto. Este último é a natureza histórica como Natureza: como zona de recursos e lata de lixo, como zona de produção e de reprodução. Abordar o problema das naturezas históricas— em suas múltiplas camadas de tempo e espaço — significa abandonar a filosofização saudosista que afirma que os humanos são parte da natureza e começar a desenvolver uma análise prática. Será essa análise que nos permitirá interpretar a mudança histórica como ativamente coproduzida por humanos e pelo resto da natureza. Essa transição da filosofia holística para a história relacional é o cerne do argumento da ecologia-mundo. De maneira crucial, essa linha de raciocínio toma a natureza histórica — como matriz (processo) e como objeto (projeto) — como algo que deve ser explicado através da práxis-do-mundo do capitalismo. Pois, para que a natureza pudesse ser “barateada”, precisou primeiro ser externalizada. Sim, a distinção entre naturezas humana e extra-humana tem uma longa história que remonta à antiguidade greco-romana (Glacken,1967). Mas nunca antes a Natureza como objeto externo havia sido o princípio organizacional de alguma civilização.

O problema básico do capitalismo é que a demanda do capital por Naturezas Baratas tende a subir mais rápido do que sua capacidade de capturá-las. Os custos de produção aumentam, e a acumulação começa a oscilar. Esse processo foi há muito reconhecido por Marx, não só em sua “lei geral” da “superprodução” do maquinário e da “subprodução” das matérias-primas, mas também em suas observações perspicazes de que a burguesia tende a acumular capital por meio do esgotamento da “força de trabalho, como um agricultor ganancioso que obtém uma maior produtividade da terra roubando dela sua fertilidade” (Marx,1977, p. 376 [2017, p. 338]). A solução? Deslocar a fronteira, e tanto melhor se essas fronteiras estiverem nas colônias: daí a saliência, na época de Marx, dos trabalhadores irlandeses, do açúcar caribenho e do algodão do Mississippi. Por esse motivo, o capital se vê continuamente dependente do poder capitalista e do conhecimento burguês para poder localizar Naturezas cuja riqueza possa ser mapeada, remodelada e apropriada de forma barata.

Seria o esgotamento dessas naturezas históricas produzido pelo capitalismo neoliberal um fenômeno cíclico — como os que vimos no final do século XVIII ou durante a longa década de 1970 — ou seria este o fim da Natureza Barata? Estaríamos agora vivendo em meio a uma crise de desenvolvimento cujas contradições podem ser corrigidas via capitalização, racionalização e espoliação renovadas? Ou seria esta, pelo contrário, uma crise epocal que forçará o surgimento de relações fundamentalmente novas de riqueza, poder e natureza no século vindouro?

Essa linha de questionamento tem sido marginal na literatura que hoje se prolifera sobre a crise econômica e ecológica. Isso pode, em alguma medida, explicar a profunda subteorização a respeito da “crise ecológica” e a relutância dos teóricos críticos em explicar a natureza como constitutiva da acumulação de capital.

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Foto: Colheita de milho nos Estados Unidos. | Crédito: Tom Fisk / Pexels

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