A fome não é nossa
Por Rute Costa*
Publicado na Revista Gama
*coautora de Ajeum Mi’u: confluência negras e indígenas em torno da alimentação no Brasil
Certa feita, um grupo de pesquisadores, de passagem por uma Comunidade Quilombola que habita a caatinga, fotografou uma senhora, mestra da agricultura tradicional, que estava a observar a vida passar pela janela de casa. Poderia ser um registro despretensioso, porém, decorrido o tempo, foi publicada reportagem no jornal cujo título anunciava “A fome no Brasil tem o rosto de mulher negra!”.
E lá estava o rosto da dona Maria (nome fictício) na primeira página.
A comunidade, ao tomar conhecimento do fato, ficou indignada e se perguntava: “Como poderia a nossa mais velha, mulher cuja história é marcada pela abundância e a partilha dos alimentos de sua roça ser o rosto da fome?” De uma coisa estavam convictos e insistiam em declarar: A fome não é nossa!
Esta breve narrativa poderia nos conduzir a reflexões sobre aspectos como princípios éticos ou os direitos de imagem, por exemplo. Porém, nesse momento, estou interessada em dedicar atenção às camadas mais profundas da afirmação feita pela comunidade. Não ouso contestar a relação das iniquidades alimentares com o racismo e o sexismo, pelo contrário. A análise interseccional de dados+ a respeito da segurança alimentar coletados em 2023, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) não deixa dúvidas de que os lares chefiados por mulheres negras apresentaram os piores cenários de insegurança alimentar em todas as regiões do país.
Mas, a aderência do rosto da mulher negra à persona faminta não é intrigante? Seria esta mulher o rosto simbólico ou o alvo da fome?
Não por acaso evoco a memória de Anastácia+ com sua boca interditada pela máscara de flandres, um objeto de controle, cuja parte interna, ao penetrar o interior da boca, preenchia o vão entre a língua e o maxilar, anunciando a todos(as) a máxima do projeto colonial, sua política de implementação do senso de mudez e tortura. A interdição da boca, portal da palavra, da comida, do sagrado e do prazer, por onde a voz projeta a nossa existência no mundo, foi e é uma forma sádica de controlar o ato de falar, comer, de restringir o prazer da língua e a conexão com o sagrado.
Dito isso, retorno que a afirmação proferida pela comunidade quilombola — “A fome não é nossa” — como um convite para pensar que: se a insegurança alimentar insiste em ferir as experiências de vida de mulheres negras e de suas famílias, existe um projeto de sociedade em curso, que naturaliza a violação desse direito humano fundamental.
A fome enquanto expressão biológica de problemas sociológicos que não se origina, produz ou pertence às comunidades negras, mas aponta para o fenômeno histórico que mantém as estruturas de poder e saber baseadas em maneiras singulares, violentas e destruidoras de habitar a Terra e de se relacionar com o outro por meio da desumanização.
A colonialidade, fenômeno a que me refiro é o carrego da colonização que produz desigualdades alimentares, uma vez que se sustenta em processos políticos e ecológicos de expropriação da natureza, se baseia na propriedade privada e a exploração massiva de seres humanos. Tudo o que existe é percebido e se transforma em recurso. Fala-se de recurso natural, ambiental, humano e financeiro. Mas em resumo tudo é financeiro e só financeiro.
Não à toa, no habitar colonial prevalece a decisão pela produção agrícola em grandes latifúndios de monocultura, cultivos dependentes de agrotóxicos ao invés de culturas agroecológicas; concentração de terras e rendas nas mãos da elite branca; transformação da comida em mercadoria; fortalecimento das indústrias de produtos alimentícios ultraprocessados; financeirização e destruição das florestas e águas.
Estas e outras escolhas promovem a perda da sociobiodiversidade, o desequilíbrio do ambiente natural, resultando em crises ambientais, climáticas e o adoecimento sistemático dos seres vivos. Vê-se o crescimento das tensões e violências no campo contra povos e comunidades tradicionais, a pauperização expressiva e as violações dos direitos fundamentais.












