Monitorando a tempestade: como os humanos desenvolveram as relações capitalistas?
Segue um trecho do quinto capítulo de O progresso dessa tempestade, novo livro de Andreas Malm aqui na Elefante. Depois de Capital fóssil — leitura incontornável sobre as origens do aquecimento global —, o autor agora depura as teorias que nos últimos anos se propuseram a versar sobre a ecologia.
Como os humanos incubaram o capital
Por mais que seja inexato culpar a humanidade, e não o capital, pela condição de aquecimento, seria fantasioso pensar em outra espécie além do Homo sapiens sapiens que pudesse ter incubado um modo capitalista de produção. Os babuínos não conseguiriam, tampouco os texugos e os morcegos. Então o que exatamente nos separa dos animais não humanos? Os pós-humanistas se agarram à refutação de algumas antigas respostas — mais notadamente a ideia de que, diferentemente de outros animais, nós usamos ferramentas —, mas isso é prematuro. Consideradas as ramificações ecológicas do capitalismo, em geral, e da queima em larga escala de combustíveis fósseis, em particular, presumivelmente haveria algum interesse em entender como nossa espécie, e nenhuma outra, foi capaz de fazer isso com a Terra (uma questão que, obviamente, não deve ser confundida com a ideia de que os humanos são muito melhores do que os outros animais). Ora, este não é o lugar mais adequado para uma investigação exaustiva para esse antigo quebra-cabeça, mas podemos ao menos presumir que a resposta tenha relação com nossa capacidade de abstração.
Os animais são dotados de intencionalidade no sentido rudimentar de que possuem pensamentos a respeito de coisas — Jacquette se refere aos peixes de seu aquário, que esperam ser alimentados pela manhã; Marx observa que “um cavalo tem sua própria cabeça” — e, por isso, deve ser considerado dotado demente e, por consequência, também de uma forma elementar de agência (talvez algo parecido com o primeiro nível de Anderson). Mas os humanos parecem ter uma capacidade especial para refletir sobre seus próprios pensamentos, e, o que é fundamental, sobre os pensamentos dos outros. Eles são capazes de distinguir entre as proposições “Acho que está chovendo”, “Está chovendo” e os pensamentos equivalentes de outros integrantes da espécie, além de adotar crenças coletivas que podem ou não ser verdadeiras, compartilhar símbolos para enquadrar perspectivas sobre coisas, tomar parte em “metarrepresentações” e formas complexas de intenção coletiva e chegar a ordens de abstração que raramente, se é que em algum momento, são alcançadas por cães ou golfinhos (não há pós-golfinhistas entre os golfinhos, e assim por diante). Ao menos nos segundo e terceiro níveis de Anderson, a agência é exclusiva aos humanos.
Alguns animais utilizam ferramentas. Não é o caso da maioria das espécies, mas o fenômeno é razoavelmente bem distribuído ao longo dos táxons, dos insetos aos primatas. Em setembro de2016, os cientistas acrescentaram a essa lista o corvo havaiano, versado na utilização de gravetos para extrair alimento de frestas em troncos. Há ainda menos animais capazes de produzir ferramentas, embora haja alguns. E nenhum deles cria ferramentas a partir de um conjunto amplo de materiais diferentes, enquanto os humanos escolhem entre madeira, pedra, pelos, ossos, metal e outros substratos. Nenhum deles constrói ferramentas compostas, contendo vários elementos funcionalmente integrados — uma faca com um cabo, uma lâmina e um material de ligação — e, talvez mais importante, nenhum produz ferramentas para a produção de outras ferramentas, como os humanos quando moldam uma lasca para esculpir uma funda a partir de um pedaço de pele. Essas distinções se baseiam em pesquisas mais recentes e, assim, continuam refutáveis, como seria de esperar de uma teoria científica.
Os animais, ao que parece, também não transportam suas criações por longas distâncias e as armazenam para mais tarde, ou manufaturam ferramentas a partir de pedras. A escolha de investir contra um material tão sólido e recalcitrante como uma pedra manifesta a capacidade de projetar na matéria uma série de imagens abstratas — intenção característica de um arquiteto. De fato, especialistas na área lançaram a hipótese de que os primatas e os humanos se relacionam com as ferramentas de modos bem diferentes: os primeiros tendem a enfocar seus usos físicos perceptivelmente mais óbvios — esta vareta pode ser usada para pescar aqueles cupins —, enquanto os últimos seguem as pistas dos objetivos para os quais as ferramentas foram projetadas tal como demonstra o uso feito por outros humanos. Nossa espécie tem uma “tendência a mapear naturalmente informações sociais com base em informações físicas” quando observa a produção ou o uso de ferramentas, perguntando para que elas servem e aprendendo a imitar o processo, “o que leva ao alcance de um objetivo comportamental específico e movido por uma conformidade social”. Ou “as relações sociais que promovem uma intensa cooperação podem ser o aspecto fundamental” da construção de ferramentas por humanos, algo que não obriga, mas que permite que os membros da espécie visualizem novas soluções, deixem a imaginação correr solta por toda a Terra, invistam contra os materiais mais resistentes e transmitam inovações geração após geração. Se essa hipótese for confirmada, a primatologia — área em que outrora Latour buscou ancorar a teoria ator-rede — serviria de apoio a um realismo socialista bastante fundamental.
Por fim, alguns animais se aproximam de certos atributos da linguagem. Mas apenas os humanos utilizam cotidianamente códigos linguísticos complexos; a despeito das muitas tentativas, estudiosos das ciências “duras” nunca conseguiram induzir primatas a aprender as estruturas gramaticais abstratas e as dezenas de milhares de palavras que vamos dominando naturalmente ao longo da vida. Além disso,
diferentemente dos melhores exemplos de sinais putativamente referenciais no mundo animal, a maioria das palavras da linguagem humana não está associada a funções específicas (por exemplo, gritos de alerta, anúncios de comida), mas pode ser vinculada a praticamente todos os conceitos que os humanos venham a cogitar,
daí o caráter aberto da linguagem humana, graças ao qual unidades significativas podem ser agrupadas em uma infinidade de expressões diferentes.
Se combinarmos esses níveis de abstração, podemos começar a visualizar como os humanos foram capazes de desenvolver os dois pré-requisitos para as relações capitalistas de propriedade: meios de produção monopolizáveis por alguns; e um equivalente universal que possa ser trocado por qualquer coisa. De um lado, ferramentas montadas a partir de partes diferentes, distribuídas e estocadas, fabricadas para a produção de outras ferramentas, propensas a um rápido desenvolvimento; de outro, um símbolo vazio — o dinheiro — que pode substituir qualquer objeto material e não se opõe a nenhum deles: são esses os dois ingredientes básicos no caldeirão de bruxa que conhecemos como “capital”. Sem a capacidade aparentemente única dos humanos para a abstração material e simbólica, essa poção mágica não poderia ter sido preparada.
Desnecessário dizer que nem por isso o capital se torna o destino biologicamente inevitável do Homo sapiens sapiens. Na verdade, ele deve ser visto como um processo historicamente promovido, em última instância, por um grupo de agentes que exploraram certas potencialidades inerentes à espécie, a fim de atender a seus próprios objetivos contingentes (pensemos nos proprietários de terra que forçaram a mercadorização do solo). O que esboçamos grosseiramente aqui são apenas alguns indícios para uma resposta à questão de como foi possível que os humanos gerassem algo tão formidável como o capital, o que (felizmente) nenhum outro animal conseguiu (como esse capital seria?). Abençoados com uma “plasticidade tecnolinguística” sem paralelos, radicalmente “subdeterminados por natureza”, os humanos adaptam seus metabolismos ao resto da natureza de quase todos os modos desejados, ou ao menos com tal riqueza histórica e variedade que nenhuma outra espécie chegou perto de conseguir — e é esse tipo único de relação que, sozinho, vem dominando todos os outros com bastante firmeza (e talvez os humanos, em algum nível metafísico, devam assumir a responsabilidade por isso). Mas as mesmíssimas potencialidades que viabilizaram o capital são também os únicos recursos concebíveis para sua transcendência. Considerado o caráter abstrato de sua mente, os humanos são capazes, é claro, de passar a acreditar que essa não é a maneira adequada de conduzir as coisas.
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Foto: Soner Arkan/Pexels












