Conheça alguns ‘podres’ da Uber

Machismo, abuso sexual, fraudes concorrenciais e roubo de informações estratégicas: a história da Uber está longe de ser bonita. Mas isso não impede a empresa de apontar o dedo contra os governos das cidades onde opera, tachando-os de ineficientes e burocráticos.

“É também a empresa que ensina os motoristas de Miami a como driblar as leis”, escreve o pensador britânico-canadense Tom Slee em Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, que a Editora Elefante lança em 24 de outubro. “Que pediu e cancelou mais de cinco mil corridas de seu principal competidor para prejudicá-lo. É a companhia que se propõe a enganar jornais com um falso comunicado de relações públicas.”

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Podemos continuar nessa pegada: é a empresa que até há pouco era comandada por um CEO conhecido por piadas machistas e por atos explosivos contra funcionários e motoristas (recentemente, e após muita pressão externa, alguns funcionários foram demitidos sob acusação de assédio). É a empresa que tem uma das maiores redes de lobby dos Estados Unidos. Que se valeu de tragédias e nevascas para aumentar as tarifas em sete ou oito vezes. Que é acusada pela Google de roubar dados do programa de carros sem motorista humano. E pela Apple de praticar espionagem ilegal dos dados dos usuários. E pelo governo norte-americano por criar um programa que visa a evitar a regulação, “escondendo” os motoristas.

“Com o tempo, a Uber foi coletando mais e mais dados sobre todos os aspectos das corridas. Esses dados dão à corporação novas oportunidades de controlar o comportamento dos motoristas e de formatar a experiência dos consumidores”, conta Slee em Uberização: a nova onda do trabalho precarizado.

A Uber se anuncia como o trabalho dos sonhos: trabalhe quanto, quando e onde quiser. Mas as histórias reveladas recentemente nos dão outra versão. A empresa usa esses dados para direcionar os motoristas para onde bem deseja e para forçá-los a trabalhar mais e mais (rejeitar uma corrida faz rebaixar a nota e colocar em risco a própria sobrevivência na plataforma).

Recentemente, diante de mais e mais denúncias sobre violência envolvendo motoristas e passageiros, a empresa lançou em seu site no Brasil um texto chamado “Fatos e Dados”, no qual adota muito do discurso descolado e comunitário que permeia o modo de atuação da corporação em nível global. A Uber alega não ser uma companhia de transporte, mas uma mera mediadora entre pessoas que querem se deslocar e pessoas que oferecem o deslocamento. Assim, tenta se proteger do pagamento de direitos trabalhistas, que certamente dificultaria a rápida expansão ao redor do globo.

A Uber diz seguir padrões de regulação até mais rígidos que os exigidos pelas cidades. Quando, no entanto, busca-se impor qualquer tipo de regra à empresa, ela reage como fez recentemente em Maceió: “Seu direito de escolha está em jogo.” A ação consiste em tentar transformar cidadãos comuns em lobistas gratuitos. E em tachar normas básicas, como o registro de carros e motoristas na prefeitura, como “burocracia” que atrapalha motoristas e passageiros.

Para Tom Slee, a breve história da empresa, fundada na virada da década de 2010, é um renovado engodo. “A Economia do Compartilhamento está invocando esses ideais para construir gigantescas fortunas privadas, erodir comunidades reais, encorajar mais formas de consumismo e criar um futuro mais precário e desigual do que nunca.”

Imprensa estrangeira celebra
livro sobre uberização lançado no Brasil

Uberização: a nova onda do trabalho precarizado é um livro altamente respeitado por acadêmicos e jornalistas internacionais. Nem mesmo os alvos preferenciais da crítica bem embasada de Tom Slee — Uber e Airbnb — se posicionaram contra a obra, que a Editora Elefante tem o prazer de lançar em português no próximo dia 24 de outubro.

O livro, que chega ao leitor brasileiro em edição revista e atualizada pelo próprio autor, é uma das críticas mais contundentes à chamada Economia do Compartilhamento, responsável pela promessa — não cumprida — de que os aplicativos de serviços nos levarão a um mundo mais justo, igualitário e solidário.

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O jornal The New York Times repercutiu o relatório de Slee que mostra que o Airbnb mentiu para a procuradoria-geral e para os cidadãos de Nova York, ocultando anúncios na tentativa de manter o discurso de que se trata de um negócio de baixo impacto, sem necessidade de regulação. O relatório “lança uma sombra nesse cenário colorido, afirmando que a corporação ‘enganou a imprensa e o público’ ao apagar mais de mil anúncios de seu site em novembro, antes de tornar disponíveis os dados”.

Confira mais algumas opiniões sobre Uberização: a nova onda do trabalho precarizado.

O livro de Tom Slee tem o mérito de desmistificar a aura de esperança com que a Economia do Compartilhamento foi encarada em seus primórdios. É uma importante denúncia contra o cinismo dos que se apresentam ao grande público como promotores da cooperação social e do uso parcimonioso dos recursos, mas que na verdade estão entre os mais importantes vetores da concentração de renda, da desregulamentação generalizada e da perda de autonomia dos indivíduos e das comunidades no mundo atual.
— Ricardo Abramovay, autor do prefácio à edição brasileira

Quando alguma coisa vai terrivelmente mal com uma transação de Uber ou Airbnb, as empresas simplesmente dizem: “Não fui eu.” Tom Slee tem um capítulo brilhante sobre como os sistemas de reputação baseados em estrelas simplesmente não funcionam.
The Guardian

O trabalho de Slee não engana o leitor ou promove uma análise superficial. Slee é um cético extremamente bem informado que apresenta uma crítica forte contra os dissimulados da alta tecnologia que igualam compartilhamento com lucro (…) Slee faz um excelente trabalho de fornecer argumentos sobre a necessidade de manter a pressão em crescimento, e seu livro deveria estar à mão de ativistas lutando contra a ganância cega dos especuladores do Vale do Silício.
— CounterPunch

O excelente Uberização: a nova onda do trabalho precarizado mostra em detalhes como essas plataformas usaram uma combinação de relações públicas, lobby e táticas agressivas de negócios para abrir seu caminho para o trabalho organizado parecer como o próximo passo na evolução dos negócios.
— Frank Pasquale, professor de Direito da Universidade de Maryland

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Tom Slee oferece uma crítica inteligente e intensa sobre o qual as pessoas estão apenas começando a pensar de maneira séria. Enquanto alguns blogueiros ainda tratam a economia do compartilhamento como uma espécie de causa, Slee corretamente a analisa como um modelo de negócios mascarado como movimento.
— The Spectator

Leitores progressistas podem compartilhar do justo senso de indignação de Tom Slee, mas a mensagem dele é realmente direcionada ao resto do mundo — pessoas usando aplicativos para pedir compras ou fazer um deslocamento ao aeroporto, sem pensar muito em ideologia. Ele enumera vários efeitos que são, no mínimo, indesejáveis.
— Medium

A Economia do Compartilhamento tacha os críticos como ludistas, burocratas e caça-níqueis, mas Tom Slee não é nada disso. Um pensador da tecnologia, Slee pinta um cenário bem fundamentado de companhias que construíram valores de mercado de massa externalizando os custos e ignorando regulações.
— Sue Gardner, ex-diretora-executiva da Fundação Wikimedia

Livro desmente governo Temer
sobre desregulação de táxis

Por João Peres

O livro Uberização: a nova onda do trabalho precarizado desmente a tese recém-divulgada pelo Ministério da Fazenda de que a desregulação do serviço de táxis é a melhor solução para lidar com o rápido crescimento do serviço de aplicativos. Enquanto o governo golpista de Michel Temer advoga por deixar à mão invisível e espertinha mais um pedacinho de nossas vidas, o trabalho do pesquisador britânico-canadense Tom Slee mostra que a retirada de regras resulta em uma terra-de-ninguém onde se salva quem pode, ou seja, quem tem mais dinheiro.

O livro, que será lançado pela Editora Elefante na próxima terça-feira, dia 24 de outubro, resume o cenário pretendido pelo governo Temer em três consequências: um grande número de carros vazios nas ruas, longas filas nos pontos e uma competição agressiva por passageiros. Os estudos elencados por Slee vão na contramão dos apresentados pelo ministério do golpista Henrique Meirelles.

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No final de setembro, o jornal O Globo publicou reportagem sobre a posição defendida pelo governo em parecer enviado ao Supremo Tribunal Federal. O relatório, que encampa de cabo a rabo os argumentos da megacorporação Uber, foi apresentado em ação movida pelo partido PSL em benefício dos aplicativos de transporte.

“A tecnologia pode viabilizar a substituição do controle concentrado de qualidade realizado pelo Estado. Mecanismos difusos de análise de precedentes, de atualização da frota, de atendimento eficiente, de previsão do valor final da corrida, de controle da rota, de compartilhamento da rota com terceiros, de conferência e compartilhamento com terceiros dos dados do carro e do motorista — todos benefícios trazidos pelos aplicativos de carona — permitem monitorar, instantaneamente, muito mais itens do que o Estado consegue fiscalizar”, resume o parecer, que defende que os táxis passem pelo mesmo processo de desregulação.

A Uber se apresenta como aquela que vai quebrar o Big Taxi, apresentado como uma megacorporação com interesses atrasados e arraigados na malha burocrática. E, como diz Tom Slee, apresenta-se às cidades como fato consumado: “Eu sou o futuro. Lidem com isso.” Mas a situação é bastante mais complexa.

Quando se fala em regulação, não se está defendendo o status quo nem bloqueando os benefícios trazidos pela tecnologia. O que se quer é a definição de regras que permitam que essa tecnologia seja utilizada em proveito da sociedade, e não de bilionários do Vale do Silício. A começar pelos motoristas, que hoje se veem em situação de extrema vulnerabilidade. Podem ser “desativados” a um simples comentário crítico de um passageiro. São alvo frequente de violência. E não têm a quem apelar quando algo dá errado.

Quando nós falamos de motoristas e Uber, estamos em verdade falando de uma enorme gama de serviços que ainda pode ser alvo das plataformas digitais. Estamos, portanto, discutindo uma série de normas que dizem respeito a uma possibilidade de precarização ainda maior do trabalho.

Como incansavelmente demonstra Tom Slee, os aplicativos não dão conta de uma série de questões muito complexas. O passageiro não tem como saber se o carro passou ou não por inspeção recente. E nem o aplicativo. Do mesmo modo, a tecnologia não responde se o veículo utilizado é regular e se recolheu impostos.

A Uber argumenta que seu sistema de rastreamento é 100% eficaz, garantindo que os motoristas passem por um rigoroso processo de seleção. “O jornal The Guardian colocou um infiltrado para se inscrever como motorista da Uber no Reino Unido. Parte do processo é enviar documentos de seguro do carro; o infiltrado enviou uma apólice falsa de uma companhia inventada, a Freecover, mas a Uber ainda assim o aprovou”, conta Tom Slee, entre um de muitos casos.

Além disso, a companhia simplesmente tira o corpo fora quando algo dá muito errado. O pessoal do Ministério da Fazenda talvez não tenha lido nenhuma das dezenas de notícias sobre casos de violência, inclusive com homicídios e estupros, envolvendo motoristas e passageiros da Uber.

 

Em outro ponto, o Ministério da Fazenda conta que os alvarás de táxis se tornaram um problema, com algumas pessoas que controlam várias licenças e apenas lucram com isso. É verdade. E é o idêntico argumento da Uber de que está se opondo à máfia dos táxis. Mas nenhuma empresa de táxi no mundo vale US$ 70 bilhões e tem condições de montar uma das maiores redes de lobby dos Estados Unidos. Em vez de resolver a questão, como deveria fazer o Estado, o que o parecer sugere é simplesmente acabar com qualquer controle.

Como mostra Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, os táxis são submetidos a regulação por um motivo simples: eles fazem parte do sistema de tráfego de uma cidade. O excesso pode provocar trânsito e uma guerra de preços. A falta, por outro lado, provoca longas filas e preços elevados.

“A combinação de maior oferta e maiores preços é contraditória. Em um mercado competitivo, uma oferta maior deveria diminuir o preço. Mas, claro, os passageiros não saem pechinchando entre os táxis antes de pegar uma corrida e, portanto, estão vulneráveis a sofrer cobranças excessivas, particularmente em pontos movimentados, como aeroportos e estações de trem. Conceitos gerais de economia são uma coisa, mas o diabo mora nos detalhes”, contesta Slee.

No Brasil, em muitas cidades os taxistas estão obrigados a aceitar uma corrida, independente de qual o deslocamento. Isso serve para garantir que pessoas idosas, por exemplo, possam fazer trajetos curtos. E também para que as cidades forneçam carros acessíveis a deficientes físicos. A Uber se recusa a colaborar nesse sentido, alegando que os motoristas fazem uso de veículos particulares, sem adaptação. A experiência prática mostra que certos segmentos da sociedade ficaram de fora do fantástico mundo dos aplicativos.

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O parecer do Ministério da Fazenda peca ainda em outro ponto. “A pressão competitiva existente entre as plataformas, como Uber, Lyft, Cabify, Televo – que são utilizadas de forma concorrente pelos mesmos prestadores de serviços e pelos mesmos consumidores -, cria uma perene pressão pela inovação e pela criação de mecanismos que tornem o controle de qualidade mais eficiente, compensando os melhores motoristas e os melhores clientes.”

Bem, a turma de Meirelles precisa mesmo ler urgentemente o livro de Tom Slee. O autor mostra que a Economia do Compartilhamento é dominada por mercados do tipo “vencedor leva tudo”, ou seja, quem chega primeiro ou oferece a melhor tecnologia arremata uma fatia gigante do mercado, e consegue usar esse poder para crescer mais e mais e mais. As empresas que o documento cita como concorrentes não são nem sombra para a Uber, que hoje tem um valor de mercado maior que o de Ford e General Motors e é mais que a soma das três maiores locadoras de veículos.

 

— João Peres é jornalista, integrante do conselho editorial da Editora Elefante e tradutor de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado.

Jornal inglês elogia livro sobre
‘uberização’ publicado no Brasil

Por Steven Poole
The Guardian

Tradução
João Peres

“Compartilhamento” é um dos valores retóricos mais abusados em nossos tempos. Primeiro tivemos o eufemismo do “compartilhamento de arquivos” para reproduzir e oferecer cópias de álbuns ou filmes na internet. Bem, você não pode compartilhar o que não é seu, para início de conversa. (Se eu pego dinheiro de um banco e dou a meus amigos, eu posso alegar que era apenas “compartilhamento de dinheiro”, mas é mais provável que eu seja condenado por roubo.)

Agora nós supostamente temos uma “economia do compartilhamento”, cujos exemplos mais mencionados são duas empresas — Uber e Airbnb — que são corporações gigantes buscando o poder do monopólio e brigando com governos ao redor do mundo. O que exatamente está sendo compartilhado aqui, e em benefício de quem?

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As primeiras organizações da “economia do compartilhamento” permitiam aos integrantes dividir coisas como carros e ferramentas, em lugar de apenas ter a propriedade sobre um objeto que fica ocioso a maior parte do tempo. Em essência, esses grupos eram de “iguais-para-iguais”: auto-organizados, sem uma autoridade central. Uma vez que uma companhia lucrativa é estabelecida para lidar com a logística, no entanto, a noção de “compartilhar” já foi jogada pela janela.

Apesar disso, remanesce aquele núcleo de uma ideia comunitária da origem do Airbnb, fundado por dois trabalhadores da tecnologia que alugaram colchões de ar na sala para uma conferência, e pensaram que isso poderia se transformar em um negócio. O marketing do Airbnb ainda joga sobre os sentimentos de sociabilidade aventureira e virtuosa erguida sobre a ideia de um “visitante” ficando em um espaço vazio da casa do “anfitrião”.

Porém, como indica o livro fantasticamente bem argumentado de Tom Slee, o grande negócio do Airbnb agora são aluguéis de imóveis inteiros: flats ou casas autônomas. Inquilinos em cidades como San Francisco estão sendo expulsos por proprietários que enxergam mais lucro nas estadias de curto prazo do Airbnb. Tom Slee realiza uma pesquisa de dados muito inteligente e descobre que o apartamento mais caro do Airbnb em Roma é um de muitos imóveis de luxo alugados por um empreendedor de tecnologia dos Estados Unidos, que os comprou com os lucros da venda de sua última empresa de software.

A ideia de “compartilhamento” é tão sem sentido aqui quanto no conceito da Uber de “viagens compartilhadas”, que soa tão ecologicamente preocupado quanto “compartilhamento de carros”, mas que em verdade descreve um serviço de táxi. Nem qualquer “compartilhamento” vai ocorrer com companhias como TaskRabbit, na qual pessoas se oferecem para cumprir as tarefas bizarras de outras pessoas.

O que explicitamente não é compartilhado por qualquer dos garotos-propaganda da “economia do compartilhamento” é a responsabilidade. Quando alguma coisa sai terrivelmente errada com uma transação no Airbnb ou na Uber, as empresas simplesmente dizem: “Não fui eu.” (A megacorporação supostamente não é compradora nem vendedora, mas uma inocente mediadora.)

Tom Slee tem um capítulo brilhante sobre como os “sistemas de reputação” baseados em classificações por estrelas simplesmente não funcionam porque as pessoas se sentem mal em dar notas baixas mesmo quando merecido, de modo que tudo fica entre quatro e cinco estrelas. Em vez disso, a confiança tem de ser imposta por uma vigilância autoritária e uma disciplina imposta pela própria companhia.

Ainda assim, as empresas insistem que não estão provendo um serviço; as páginas e os aplicativos são uma simples “plataforma de comunicação” para conectar fornecedores e consumidores. (Mesmo que elas explorem os fornecedores, como a Uber tomando parcelas crescentes das remunerações, que chegam a 30% da tarifa). Nem, notoriamente, a Uber considera seus motoristas como empregados, com quem deveriam assumir responsabilidades: eles são, em vez disso, “autônomos”.

O que todas essas estruturas artificiais significam para Uber, Airbnb e companhia é uma tentativa de burlar leis construídas ao longo de décadas precisamente para proteger inquilinos e proprietários, taxistas e passageiros. Impressionados pela popularidade e pelo poder financeiro, muitos legisladores se curvam para acomodá-los. A Califórnia aprovou uma lei especial que reconhece a Uber e seus competidores como “Companhias de Redes de Transporte”. Diante das queixas dos motoristas de táxi de Londres, a alta corte definiu no ano passado que o smartphone de um motorista da Uber — que faz a medição da quilometragem e o cálculo da tarifa através de sinais de GPS e internet — não é um taxímetro.

Isso pode parecer a alguns como uma recusa perversamente criativa para fazer valer a letra fria da lei. A definição integral de “taxímetro” na legislação londrina de 1988 é: “Nessa seção, taxímetro significa um dispositivo para calcular a tarifa a ser cobrada em razão de qualquer deslocamento, tendo como referência a distância viajada ou o tempo perdido desde o começo do deslocamento (ou uma combinação de ambos).”

Nada disso diz que lucrativas operações pseudocompartilhadas não podem ser estabelecidas em benefício de todos. A introdução em Paris de um esquema de empréstimo de bicicletas em 2007 foi um grande boom para os residentes, e agora a cidade tem o Autolib, uma operação exitosa similar para carros elétricos. Muitos de nós continuarão a usar a Uber, também. Criticá-la não é tarefa solitária de pessoas que são admiradoras pouco fundamentadas das altas tarifas de táxi de Londres.

Tom Slee defende, com razão, que seus argumentos não dependem de ele ou os leitores realmente usarem esses serviços. Em nossos tempos, fomos deseducados a acreditar que a escolha do consumidor é todo-poderosa, mas a ideia de que consumidores exercendo o direito soberano de escolha sempre levarão às melhores soluções é obviamente de interesse de corporações que buscam evitar a regulação oficial. Então, o próprio autor usa o Airbnb*, mas cobra das autoridades municipais uma regulação mais rigorosa; e não há contradição entre tomar um Uber para casa depois de uma festa e desejar que a empresa se comporte melhor. Apenas a lei pode forçar a isso.

(*) Há um pequeno erro do autor da resenha. Tom Slee deixa claro que não usa Airbnb, mas também enfatiza que a ideia do livro não é fazer o consumidor se sentir culpado por uma escolha individual.

Um olhar ‘equilibrado’ sobre Cuba

Na segunda-feira, 16 de outubro, a Editora Elefante lança seu décimo-sexto título retornando ao tema da América Latina, que marcou o início de suas publicações. Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessoti, traz 22 artigos que procuram responder a perguntas-chave sobre a vida, a política, a economia e a sociedade cubanas, motivos de intensos debates quando se trata da ilha:

Por que a Revolução Cubana não caiu depois da ruína da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu? Como a juventude se relaciona com a revolução? Cuba é uma democracia? Há censura na ilha? Os cubanos têm acesso e podem navegar livremente pela internet? Há machismo, homofobia e racismo no úncio país socialista das Américas? O empreendedorismo está crescendo em Cuba? Para onde levará as tentativas de reaproximação com os Estados Unidos? Há desemprego na ilha?

Trata-se de um livro escrito por pesquisadores que simpatizam com as conquistas do movimento liderado por Fidel Castro em 1959, mas que nem por isso fecham os olhos para os problemas do processo. “Este é o melhor texto sobre Cuba ao alcance do leitor brasileiro na virada dos anos 2017-2018”, escreve Frei Betto, no prefácio, “leitura obrigatória para quem, frente a Cuba, reage com equilíbrio, sem o reacionarismo anticomunista dos que veneram o capitalismo nem o esquerdismo infantil e dogmático de quem considera a Revolução Cubana o paraíso na Terra.”

Cuba no século XXI: dilemas da revolução é resultado de uma parceria entre Editora Elefante e o projeto de extensão “Realidade Latino-Americana” da Universidade Federal de São Paulo, que reuniu 33 investigadores de várias universidades brasileiras (Unifesp, USP, Unicamp, Unirio, UFRR e Unila) e de diferentes áreas do conhecimento (Relações Internacionais, História, Economia) em estudos coletivos, leituras e palestras, ocorridas no Memorial da América Latina, em São Paulo, ao longo de 2016. A jornada culminou com uma viagem à ilha em dezembro de 2016, para pesquisas de campo e entrevistas com pesquisadores, movimentos, dirigentes políticos e instituições especializadas.

Os autores formam um grupo politicamente diverso, mas que encontra pontos em comum na defesa do pensamento crítico, no compromisso com a transformação social e na rejeição aos dogmatismos. A partir desta perspectiva, entregam ao leitor um material de formação política e histórica, visando estimular o debate e a reflexão fraterna, em sintonia com quem encontra na experiência cubana um ponto inescapável para o estudo da América Latina. Não pretendem apresentar a Revolução Cubana como “modelo” ou “contra-modelo”, mas sim analisar as lições que sua história pode nos oferecer para o presente e o futuro.

CUBA NO SÉCULO XXI
Organização: Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém & Fabiana Dessotti
Fotos: Matheus Paschoal & Ellen Elsie
Prefácio: Frei Betto
Capa: Ana Carolina Soman
Projeto gráfico: Bianca Oliveira
Editora Elefante
Páginas: 256
Publicação: Outubro de 2017
Dimensões: 13,7 x 21​ cm

LANÇAMENTO
Dia 16/10, às 19h
Debate com Frei Betto
Memorial da América Latina
Auditório da Biblioteca
Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664
Barra Funda
São Paulo-SP
Entrada franca

Uber, Airbnb, TaskRabbit
e o lado menos cool dos apps

Uber, Airbnb e outros aplicativos da chamada Economia do Compartilhamento juram de pés juntos que as novas tecnologias estão nos levando a um mundo incrível. Vizinhos ajudando vizinhos, cidades onde todos se respeitam, sistemas de transporte eficientes, o retorno da confiança na boa-fé dos seres humanos, tudo isso possibilitado por um smartphone com conexão à internet: a “revolução” na palma da mão.

Nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer! No horizonte, um arco-íris em fim de tarde (temperatura agradável, 26 graus) e, ao pé dele, Dona Benta nos aguarda com café — ou chá, para quem não curte cafeína —, biscoitos de polvilho e um bolo de chocolate, talvez de cenoura. Atrás da bela imagem construída pelo marketing, podemos (não) ver direitos trabalhistas sonegados, empresas que não se responsabilizam pelos danos decorrentes do uso de suas tecnologias, e um movimento massivo de enfraquecimento das últimas instâncias democráticas.

“A Economia do Compartilhamento é um movimento: um movimento pela desregulação”, escreve Tom Slee, autor de nosso porretíssimo lançamento Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. “Grandes instituições financeiras e fundos influentes de capital de risco estão vislumbrando uma oportunidade para desafiar as regras formuladas pelos governos municipais democráticos ao redor do mundo. E para remodelar as cidades de acordo com seus interesses. Não se trata de construir uma alternativa à economia de mercado dirigida por corporações. Trata-se de expandir o livre mercado para novas áreas de nossas vidas.”

Tendemos a olhar para Uber e Airbnb como empresas que estão chegando para “quebrar paradigmas” e desbancar negócios caducos, elitistas e meio mafiosos, como táxis e hotéis. São cool, high tech, ajudam a galera a fazer uma grana a mais. Transformam problemas concretos em facilidades digitais. Quem não poderia gostar disso?

Depois de ler nosso lançamento de outubro, que chega ao público brasileiro com prefácio de Ricardo Abramovay, você talvez fique decepcionado. Não conosco, pô, porque demos duro para colocar mais esse livro no mundo. Mas com essas empresas tão incríveis.

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Na real, foi um sentimento de profunda traição que levou Slee a escrever a respeito. Britânico que vive no Canadá e trabalha na indústria de software, com pós-doutorados em Oxford e Waterloo, ele ficou muito puto quando viu bandeiras legítimas da sociedade sendo apropriadas pelos criadores da Economia do Compartilhamento, um conjunto de empresas do Vale do Silício bancadas pela alta grana da nata da especulação do mercado financeiro. Obcecado, transformou-se num dos grandes estudiosos do assunto, levantando dados inéditos que ajudaram a desmontar o discurso de altruísmo e baixo impacto desses negócios — e a ver que o cool é, na verdade, um cu.

“O que havia começado como um apelo ao comunitário, a conexões interpessoais, a sustentabilidade, a compartilhamento, tornou-se o playground de bilionários, de Wall Street e de capitalistas de risco, expandindo seus valores de livre mercado cada vez mais fundo em nossas vidas.” O desenrolar das atividades dessas empresas pelo mundo é autoexplicativo, e Slee traz centenas de exemplos ocorridos com Uber e Airbnb na América do Norte e na Europa para embasar seus argumentos.

O título original do livro, What’s Yours is Mine [O que é seu é meu], reflete essa decepção. Trata-se de uma resposta ao generoso slogan fundador da Economia do Compartilhamento, “o que é meu é seu”. A promessa era de que, daqui por diante, graças aos maravilhosos programadores do Vale do Silício, todos privilegiaríamos o dividir em lugar do possuir. Esses aplicativos “nos abririam” a possibilidade de estar em contato uns com os outros, com uma mediação segura garantida por uma tecnologia infalível.

Nós compartilhamos nossas forças de trabalho, nossos dados, nosso tempo, nosso dinheiro. E em troca o que recebemos até agora foi muito pouco, quase nada. Claro que nós podemos encontrar por aí a história daquele motorista que saiu do buraco financeiro dirigindo para a Uber, ou de um anfitrião que levantou uns trocos no Airbnb — e assim conseguiu pagar o aluguel. Enquanto isso, CEOs amealham bilhões de dólares, armam exércitos de lobistas e influenciam governos mundo afora.

Como ressalta Slee, precisamos nos perguntar sobre as histórias que não são mostradas por essas empresas: aquelas que não entram no marketing agressivo que nos assalta nas ruas e nas redes sociais. A Uber alavanca seu controverso modelo de negócios empurrando aos motoristas uma série de responsabilidades — seguro, manutenção, combustível, segurança — e deixando de atender às exigências e arrecadar os impostos que os táxis têm de pagar às cidades. Nos últimos meses, surgiram dezenas de casos de violência relatados no Brasil envolvendo a plataforma, vitimando passageiros e motoristas. Nessas horas, o que a empresa faz é tirar o corpo fora: chamam seus motoristas ou anfitriões de “parceiros” e alegam que são meras mediadoras do serviço.

“A promessa de um caminho mais humano para o mundo corporativo é, pelo contrário, uma forma mais agressiva de capitalismo: desregulação, novas formas de consumismo e um novo mundo de trabalho precário”, escreve Slee, para quem a receita de sucesso desses fenômenos do capitalismo tardio é simples: os riscos ficam com todos nós, as recompensas ficam todas com eles, e os ricaços de Wall Street multiplicam suas fortunas injetando toneladas de dinheiro em aplicativos que estão definindo novos modelos de trabalho que em breve serão adotados por toda e qualquer empresa para maximizar os lucros de seus proprietários.

Em um mundo que bate recordes de desigualdade, nós achamos fundamental debater aquilo que buscam nos apresentar como um futuro cool e inevitável. A recente imposição de uma desregulação trabalhista no Brasil, por sinal, não pode ser vista como desconectada de toda essa movimentação global. Assim, lançar Uberização: a nova onda do trabalho precarizado é um prazer. Mas também um sentimento de que estamos, dentro de nossas limitações sempre evidentes, cumprindo a missão de jogar luzes sobre um debate central — e propositalmente ofuscado.

 

LANÇAMENTO

24 de outubro de 2017, às 19h
Casa do Povo
Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, São Paulo-SP
Debate:
Ricardo Abramovay, USP
Eliane Lucina, procuradora do Trabalho
Ludmila Costhek Abilio, Unicamp
Mediação: João Peres

FICHA TÉCNICA

Uberização: a nova onda do trabalho precarizado
Autor: Tom Slee
Tradução: João Peres
Prefácio: Ricardo Abramovay
Capa: Isabela Sanches
Lançamento: outubro 2017
Páginas: 320
Dimensões: 13,7 x 21 cm
Preço: R$ 40,00

SOBRE O AUTOR

Tom Slee escreve cética e criticamente sobre o crescimento de novas tecnologias e plataformas globais, com atenção especial à Economia do Compartilhamento. Nos últimos anos, tornou-se um dos principais estudiosos dos problemas provocados pelas corporações do Vale do Silício, na Califórnia. Tem um phd em química teórica e pós-doutorados nas universidades de Oxford e Waterloo. Nasceu na Grã-Bretanha, em 1959, mas reside no Canadá, e tem uma longa carreira na indústria de software. Além de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, é autor de No One Makes You Shop at Wal-Mart [Ninguém te obriga a comprar no Walmart, editora Between the Lines, 2006], uma investigação sobre escolhas individuais que foi adotada em cursos universitários de economia, sociologia e filosofia. Mantém o site http://tomslee.net/.

Um eterno 7×1 para além do futebol

Se o placar de 7×1 na Copa de 2014 foi inesperado para uma partida entre Brasil e Alemanha, nas relações econômicas bilaterais essa disparidade é a regra. Historicamente, a balança comercial entre os dois países é uma goleada em favor dos alemães. E o esquema de jogo é conhecido: enquanto compramos máquinas e produtos industrializados, vendemos matérias-primas.

Os negócios começaram com Dom Pedro II, que ainda no século XIX importou as primeiras armas alemãs para o Brasil, e se intensificaram durante o “milagre econômico”, promovido pelo regime militar à base de repressão, arrocho salarial e endividamento público. Hoje, a Grande São Paulo é a região que mais concentra empresas alemãs fora da Europa.

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Contudo, esse investimento internacional — que muita gente vê como sinônimo de progresso — guarda uma face pouco conhecida, permeada por superexploração do trabalho, violações aos direitos humanos, destruição ambiental, influência política e lucros estratosféricos. É o que demonstra Christian Russau em Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia, publicado pela Fundação Rosa Luxemburgo e pela ONG medico internacional em parceria com a Editora Elefante e a Autonomia Literária.

Munido de farta documentação, o jornalista revela que empresas alemãs apoiaram a prisão e a tortura de sindicalistas durante a ditadura; faturaram com os riscos decorrentes da construção de grandes barragens na Amazônia; se beneficiaram da extração de minério de ferro nas jazidas do país; se envolveram em casos de corrupção; e colaboraram para a poluição de rios e solos, e para a intoxicação de trabalhadores brasileiros.

A investigação de Christian Russau demonstra que, se as mazelas da “relação especial” entre Brasil e Alemanha se limitassem a um jogo humilhante no estádio do Mineirão, o cenário não seria tão trágico. O problema são todas as demais partidas que os brasileiros — não os atletas, mas a população mais vulnerável e desassistida — enfrentam todos dias contra gigantes transnacionais que, com o apoio das elites locais, entram em campo sem respeitar as regras, e muitas vezes com o juiz comprado.

 

LANÇAMENTO

Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia
Christian Russau

Dia 14 setembro 2017, às 19h
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP

Debate
Christian Russau, autor
Lucio Bellentani, ex-metalúrgico da Volks
Mediação: Verena Glass, Fundação Rosa Luxemburgo

Branco vivo,
um olhar para o Brasil

Nosso décimo-quarto título é uma belezura de livro. Pra chegar até o lançamento, dia de beijos, abraços e autógrafos, tivemos que relar muito. O casamento de Branco vivo com a Editora Elefante começou há muito tempo: mais ou menos uns cinco anos, quando tomamos uma cerveja com Antonio Lino para conversar sobre assuntos de que não nos lembramos mais.

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Os tempos passaram, cada um para o seu lado, e nos reencontramos no início de 2017. Lino já tinha um livro publicado, o Encaramujado, nós já havíamos colocado o mundo uns onze títulos. Nos gostamos. Então reunimos os contos não ficcionais do autor, preparados e revisados por Tadeu Breda, aos talentos gráficos de Ana Carol Soman e Bianca Oliveira, responsáveis pelo projeto gráfico e pelo tratamento das fotografias — sim, as fotografias de Araquém Alcântara, que gentil e generosamente aderiu ao projeto com o fruto de seu olhar privilegiado sobre o Brasil, as brasilidades e os brasileiros.

Conversas, ajustes, testes: e mais um livro ganhou o mundo. Estamos felizes. Só temos a agradecer. A manada cresce, bonita, cada vez mais bonita. O caminho ensina. Vamoquevamo!

Livro descreve os brasis e os brasileiros
encontrados pelos doutores do Mais Médicos

Ao longo de um ano, o escritor Antonio Lino acompanhou o trabalho de médicos e médicas em aldeias indígenas, comunidades quilombolas, assentamentos rurais e periferias urbanas. A proposta era conhecer de perto os brasis, os brasileiros e as brasilidades encontrados por sete doutoras e cinco doutores do Programa Mais Médicos.

O resultado destas idas e vindas pelos cafundós do país é o livro Branco vivo, que será lançado pela Editora Elefante no dia 26 de agosto, em São Paulo. Além das nove histórias escritas por Lino, a publicação traz um ensaio fotográfico do renomado intérprete do Brasil Araquém Alcântara.

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Num itinerário que passou pelas cinco regiões do país, foram escolhidas nove localidades que demonstrassem a diversidade nacional: das aldeias xikrin, no Pará, até os pampas gaúchos, passando pelo sertão do Sergipe, Vale do Jequitinhonha e periferias de Manaus e São Paulo. Na maioria cubanos, os doutores e doutoras retratados no livro participaram do Mais Médicos entre 2013 e 2017.

Tomando a saúde pública como ponto de partida, Branco vivo lança um olhar panorâmico para as realidades locais, registrando histórias de vida que extrapolam os prontuários clínicos. Pelos textos de Antonio Lino e pelas fotos de Araquém Alcântara, o livro oferece um ponto de vista sensível e profundo sobre gentes e lugares que o Brasil esconde — ou revela.

 

LANÇAMENTO

Data: 26 de agosto, sábado, às 15h
Local: Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo-SP
Bate-papo com Antonio Lino e Araquém Alcântara, comes, bebes, abraços e beijos.

 

BRANCO VIVO

Autor: Antonio Lino
Fotos: Araquém Alcântara
Projeto Gráfico: Ana Carolina Soman
Editora Elefante
Páginas: 252
Publicação: Agosto de 2017
ISBN: 978-85-93115-04-2
Dimensões: 14 x 21​ cm

 

SOBRE OS AUTORES 

ANTONIO LINO é escritor. Nasceu em São Paulo, em 1978. Trabalha há 15 anos como redator independente para organizações da sociedade civil e para o governo, escrevendo sobre temas como políticas públicas de juventude, meio ambiente e cultura popular. Durante um ano e três meses, morou numa Kombi e percorreu mais de trinta mil quilômetros pelo Brasil. Em 2011, publicou Encaramujado, livro que reúne suas crônicas de viagem. Atualmente, depois de uma temporada de dez meses na África, o autor prepara um romance sobre a história da Libéria.

ARAQUÉM ALCÂNTARA nasceu em Florianópolis em 1951 e é um dos mais importantes fotógrafos em atuação no país. Desde 1970, se dedica integralmente à documentação da natureza e do povo brasileiro. É autor de mais de quarenta livros, como Terra Brasil (1997), Brasileiros (2004), Amazônia (2005), Bichos do Brasil (2008) e Sertão sem fim (2009). Premiado nacional e internacionalmente, já teve mais de setenta exposições individuais. Priorizando a fotografia como expressão plástica e instrumento de transformação social, é um dos mais combativos artistas em defesa do patrimônio natural do país.

“A caça às bruxas nunca terminou,
e as mulheres nunca deixaram de resistir”

Débora Prado
Agência Patrícia Galvão

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici esteve recentemente no Brasil, debatendo as formas particulares de discriminação e exploração das mulheres no capitalismo, as lutas feministas contemporâneas e a construção de novos paradigmas – mais coletivos – de sociedade.

A visita aconteceu entre os dias 16 e 23 de julho, motivada pelo lançamento da versão impressa de seu livro Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. Em atividades realizadas no centro e também nas periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro, Silvia Federici, de 75 anos, fala de sua obra e relaciona a pesquisa histórica que fez para a publicação com os temas atuais da condição das mulheres.

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Silvia Federici define o Calibã e a Bruxa como um livro histórico e ao mesmo tempo político. “Ele foi gerado em um contexto político específico, que tem a ver com meu ativismo nos anos 1960 e com a busca pelas causas das formas específicas de opressão que as mulheres sofrem no capitalismo”, explicou durante uma das atividades em São Paulo, que reuniu dezenas de pessoas no centro da cidade.

Na obra, Silvia se debruça sobre essas formas particulares de discriminação e exploração que atingem as mulheres, fazendo um resgate histórico dos processos que construíram a hierarquização dos trabalhos por meio do salário e a invisibilidade do trabalho reprodutivo, relegado à força como uma tarefa a ser executada exclusivamente por mulheres de forma não remunerada na transição do feudalismo para o capitalismo na Europa.

capa do livro Caliba e a bruxaO resgate da autora evidencia que esses padrões, que colocam a mulher em um lugar subordinado na sociedade, foram construídos artificialmente e com o emprego de violência em larga escala no ao longo de 500 anos de vigência do capitalismo. Por isso, encontram-se hoje em dia bastante naturalizados – de onde emerge a importância da pesquisa histórica e das críticas realizadas pela autora, não só para demonstrar que tais padrões de feminino nada têm de natural, como também para reforçar que podem ser desconstruídos e transformados.

Por isso, nas atividades de que participou, a historiadora Silvia Federici buscou retomar o caminho percorrido em seu livro para debater formas atuais de resistência, lembrando: “a caça às bruxas nunca terminou de fato, mas as as mulheres também nunca deixaram de resistir”.

Violência contra as mulheres no desenvolvimento do capitalismo

Foto da autora e feminista italiana Silvia Federici em Sao PauloA transição para o capitalismo na Europa, explica a autora, foi marcada por um processo altamente violento, que incluiu a colonização dos continentes americano e africano e a escravidão de seus povos. O emprego da violência foi a forma pela qual o novo sistema produtivo e social mudou a forma como os indivíduos se relacionavam com o mundo – desde seus próprios corpos, que deveriam agora se tonar máquinas disciplinadas para o trabalho e passíveis de exploração, até a forma como as pessoas se organizavam, impondo processos de individualização da vida.

O que poucos livros de crítica ao capitalismo contam, porém, é a centralidade da violência contra as mulheres nessa etapa histórica. Para compreender o desenvolvimento do controle do Estado sobre o corpo das mulheres e sobre os processos reprodutivos é fundamental, segundo a autora, retomar o fenômeno da caça às bruxas no século 18.

“Quando você olha quem eram essas mulheres que sofreram acusações fantasiosas, como ‘a de dormir com o diabo’, para serem condenadas a ser queimada viva e compara a posição dessas mulheres com as exigências do desenvolvimento econômico, você compreende este fenômeno”, explica Silvia, resgatando as formas como a violência foi empregada desde a Inquisição para impor a desvalorização do trabalho das mulheres e a separação entre trabalho produtivo e aquele de reprodução da vida e da capacidade das pessoas de trabalharem.

Entre as mulheres resgatadas em sua pesquisa estavam, por exemplo, aquelas que tinham poder social na comunidade – como as curandeiras –, as que exerciam sua sexualidade livremente e aquelas mais envelhecidas e pobres, que viviam de doações da comunidade justamente no momento de instauração de uma nova ética e disciplina social, em que a caridade era mal vista por supostamente minar a capacidade de as pessoas trabalharem.

“Milhares de mulheres foram presas, torturadas e queimadas vivas no exato momento em que o capitalismo está decolando, e isso não está registrado nos livros socialistas – essa é uma enorme omissão”, apontou, realizando um contraponto ao legado marxista.

Demonização das mulheres e colonização

Ao retomar essa história invisibilizada no capitalismo e apagada nas teorias críticas a ele, Silvia Federici evidencia que a perseguição às mulheres na Europa e aquela empregada nas colônias se retroalimentavam e usavam a ‘demonização’ como recurso para ‘legitimar’ as mais extremas violências, violações e formas de exploração. “Essa não é uma história do passado, mas do presente”, ressaltou a feminista italiana, citando as formas de violência contra as mulheres, as pessoas negras, indígenas e que atuam em movimentos de resistência e que estiveram presentes desde esta época aos dias atuais.

No debate sobre seu livro em São Paulo, a atualidade do violento legado colonialista no Brasil foi aprofundada pelas mulheres do Coletivo Sycorax e pela professora do Departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, Maíra Kubik Mano, convidadas a debater a obra com a autora.

O genocídio da população negra nas periferias e favelas, as violências contra as mulheres e sua expressão fatal nos feminicídios, as medidas de austeridade econômica e social, as mudanças conservadoras na legislação, o fundamentalismo religioso e a perseguição aos que são considerados divergentes são elementos que unem o contexto de transição capitalista da Europa em outros séculos, retrato por Silvia em sua pesquisa, com o momento vivido no Brasil hoje, segundo as debatedoras.

“Toda vez que o poder se vê diante de uma crise importante no capitalismo, ele tem que fortalecer suas fundações”, reagiu Silvia Federici. Apesar do reconhecimento do papel estrutural da violência para frear forças de mudança, a mensagem de resistência foi a que a feminista mais quis ressaltar: “é preciso empregar toda essa violência, porque a força de resistência é permanente e cresce”, destacou Silvia Federici.

Para a feminista italiana, as resistências passam necessariamente pela reorganização do trabalho reprodutivo e pela reconstrução do tecido social a partir de formas mais coletivas e autônomas de organização. “Não existe uma forma ‘ideal’ ou ‘pura’ de resistência. Estamos todos rodeados de estruturas capitalistas. Mas a força da comunidade é necessária para interagir com o público e para resistir”, explicou, reforçando que as mulheres seguirão protagonizando movimentos por transformações necessárias.

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