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Dinheiro obscuro e a ciência da enganação

Leia um trecho da introdução de "O triunfo da dúvida", novo livro da Editora Elefante, em parceria com O Joio e o Trigo e apoio da ACT Promoção da Saúde

Por David Michaels
Trecho da introdução de O triunfo da dúvida

 

No intervalo da partida final da Conferência Americana da Liga Nacional de Futebol Americano (NFL) de 2015, o New England Patriots estava à frente do Indianapolis Colts por 17 a 7. Muita coisa estava em jogo: o vencedor avançaria para o Super Bowl. Quando os jogadores voltaram a campo para o segundo tempo, o Patriots abriu uma vantagem com touchdown sem suas primeiras quatro jogadas, dominando completamente o jogo e chegando à vitória por 45 a 7.

Em poucos dias, porém, um estranho rumor justificando o massacre do Patriots no segundo tempo se espalhou entre fãs, agitadores e a mídia. Segundo o boato, alguém no vestiário do Patriots teria manipulado as bolas durante o intervalo e depois as colocado em jogo sorrateiramente — talvez em prol do famoso quarterback Tom Brady, que dizem preferir jogar com bolas menos cheias. Teria sido esse o motivo de ele ter conseguido brilhar no segundo tempo contra o desavisado Colts? A intriga nacional que se seguiu foi imediatamente rotulada de Deflategate. O escrutínio da mídia centrou-se no jogador mais famoso do futebol americano e exigiu uma resposta vigorosa da liga, demonstrando o empenho em garantir fair play.

O contexto de competitividade da história era mais complicado do que a investigação de uma suposta trapaça. Liderado por Brady, talvez o melhor quarterback em atividade, o New England Patriots tinha dominado o futebol profissional nos treze anos anteriores, ganhando três Super Bowls e perdendo outros dois.

Em uma era de paridade na liga, esse sucesso foi sem precedentes e proporcionou ao Patriots uma base de torcedores imensa e fiel — assim como o total desprezo dos torcedores de outros times. As alegações do Deflategate se encaixam em um padrão de má conduta competitiva que, com ou sem justa causa, havia perseguido o Patriots durante anos; em 2007, o time foi julgado culpado por trapacear depois de um episódio no qual filmaram os sinais de jogada dos times adversários. Isso levou muitos responsáveis por outros times, assim como alguns fãs da liga, a acreditar que pelo menos alguns dos notáveis sucessos obtidos por seu rival não tinham sido merecidos. E agora parecia que o Patriots também estava adulterando as bolas.

De acordo com a maioria dos relatos, os outros 31 donos de times pressionaram o diretor da liga, Roger Goodell, a usar as bolas esvaziadas como justificativa para punir a famosa equipe. Mas Goodell não poderia fazer isso sem provas suficientes de que Brady e, provavelmente, um comparsa no vestiário, tinham esvaziado as bolas. Foi com isso em mente que ele fez o que muitos líderes corporativos fizeram durante décadas quando precisavam desesperadamente que a “ciência” estivesse a seu lado: recorreu a profissionais que produzem relatórios que, previsivelmente, chegam a conclusões favoráveis a seus clientes.

Este livro não é sobre o Deflategate. Nenhum dos episódios e questões que vou discutir aqui é tão trivial quanto a alegação de que um famoso quarterback pode ter trapaceado em um grande jogo de futebol americano. Os assuntos aqui são muito sérios (incluindo uma outra história da NFL: lesões cerebrais). A reação previsível da NFL no Deflategate vem ao caso apenas por ser um episódio notório que demonstra vividamente o alcance de um comportamento corporativo instintivo e sistêmico, e que, em geral, passa ao largo do radar da mídia e do público.
Raro é o CEO hoje que, diante da preocupação pública com um produto potencialmente perigoso, diz: “Vamos contratar os melhores cientistas para descobrir se o problema é real e, se for, vamos interromper a produção”. Na verdade, décadas de evidências sobre o comportamento de crise corporativa sugerem exatamente o contrário. O instinto é tomar o caminho mais curto: negar as alegações, defender o produto a todo custo e atacar, atacar e atacar a ciência que está por trás das preocupações. É claro que líderes corporativos e ideólogos anti regulamentação nunca vão dizer que põem os lucros à frente da saúde de seus funcionários ou da segurança da população. Eles nunca vão dizer que se importam menos com nossa água e nosso ar do que os ambientalistas. Mas suas ações contradizem a retórica. Os tomadores de decisões no topo das estruturas corporativas de hoje são responsáveis por proporcionar retornos financeiros a curto e longo prazo, e, na busca por esses objetivos, instaura-se certa dissonância: lucros e crescimento acima de tudo. Evitar perdas financeiras, para muitos executivos, é um álibi para praticamente qualquer decisão ruim.

É claro que as decisões no nível mais alto também não são preto no branco e nem de longe são simples. Elas são ditadas por fatores como o custo de uma possível regulamentação governamental, talvez combinada com a perda de participação de produtos menos perigosos no mercado. E, é claro, as empresas têm medo de serem processadas por pessoas afetadas por seus produtos, o que custa dinheiro e pode resultar em sérios danos à marca. Tudo isso faz parte do cálculo corporativo.

A maioria das pessoas, especialmente os estadunidenses, passaram a esperar que as corporações demonstrem comportamentos mercenários. Isso está no DNA das empresas. Não esperamos cientistas mercenários. A ciência deveria ser consistente, apolítica e acima de qualquer suspeita. Este livro é sobre os “especialistas de aluguel” e a “indústria de defesa de produtos” que os sustenta — uma conspiração de supostos especialistas, esquadrões de relações públicas e lobistas políticos que usam ciência duvidosa para produzir os resultados que seus patrocinadores desejam. É uma versão da velha piada da loja de roupas: “Acendam a luz azul porque o homem deseja um terno azul”.

Há um punhado de empresas nesse campo em expansão. No exemplo da NF e do Deflategate, o diretor Goodell contratou a Exponent, uma das companhias de defesa de produtos mais conhecidas e bem-sucedidas dos Estados Unidos. Essas firmas têm em sua folha de pagamento (ou podem acionar rapidamente) toxicologistas, epidemiologistas, bioestatísticos, avaliadores de risco e quaisquer outros especialistas profissionalmente treinados, que garantam apelo midiático e sejam considerados necessários (economistas também, especialmente para inflacionar os custos, diminuir os benefícios da regulamentação proposta e conduzir questões antimonopólio). Grande parte de seu trabalho envolve a produção de materiais científicos que pretendem mostrar que um produto fabricado ou utilizado por uma corporação, ou até mesmo despejado como poluente no ar ou na água, não é tão perigoso. Esses úteis “especialistas” produzem relatórios impressionantes e publicam os resultados de seus estudos em revistas científicas revisadas por pares (revisadas, é claro, por apoiadores dessas mesmas estratégias). Simplificando, a máquina de defesa de produtos prepara a maquiagem e, se o primeiro resultado não for o desejado, eles encomendam outro esforço e começam tudo de novo.

Descrevo essa estratégia corporativa como “fabricação de dúvida” ou “fabricação de incerteza”. Meu objetivo é identificar, caracterizar e iluminar essa estratégia para que os leitores possam ver exatamente o que cientistas mercenários e as empresas que os contratam estão fazendo. Em quase todos os cantos do mundo corporativo, conclusões que podem apoiar regulamentações são sempre contestadas. Estudos em animais serão considerados irrelevantes, dados humanos serão descartados como não representativos e dados de exposição serão tidos como não confiáveis. Sempre há muita dúvida sobre as evidências, ou poucas provas de danos, ou poucas provas de dano excessivo.

Trata-se de Relações Públicas (RP) disfarçadas de ciência. Os especialistas em RP das empresas municiam os cientistas com frases de efeito que soam bem para repórteres capturados pela armadilha de acreditar que qualquer história deve ter dois lados igualmente dignos de consideração justa. Os cientistas são contratados para influenciar agências reguladoras que protegem a população ou para defender as empresas contra ações judiciais de pessoas que acreditam terem sido prejudicadas por determinado produto. As corporações apresentam estudos e relatórios como “ciência sólida”, mas, na verdade, são informações que apenas soam como ciência. A pesquisa corporativa por encomenda é santificada, enquanto qualquer pesquisa acadêmica que possa ameaçar os interesses empresariais é vilipendiada. Há uma palavra para isso: orwelliano.

Empresas individuais e setores industriais inteiros vêm praticando e aperfeiçoando essa estratégia há décadas, exigindo de maneira desonesta a comprovação no lugar da precaução em questões de bem público. Para a indústria, não há melhor maneira de impedir os esforços governamentais para regulamentar um produto que prejudique as pessoas ou o meio ambiente; debater ciência é muito mais fácil e mais efetivo do que debater política. Em décadas anteriores, vimos isso acontecer com o tabaco, com o fumo passivo, o amianto, a poluição industrial e uma série de substâncias químicas e outros produtos. A estratégia de negação está hoje mais viva do que nunca. A prática de contratar especialistas e ocultar dados sobre os danos não se limita às questões de saúde e meio ambiente. Além dos produtos químicos tóxicos, vemos o mesmo acontecer com informações tóxicas. (Considere, por exemplo, os comportamentos corporativos problemáticos do Facebook, que servem como referência paralela pertinente à história que relato aqui.)

Não estou afirmando que toda conclusão de estudos ou relatórios produzidos por especialistas de defesa de produtos esteja necessariamente errada; certamente é legítimo que cientistas trabalhem para provar uma hipótese refutando outra. Um meio pelo qual a ciência caminha em direção à verdade real é desafiando e refutando a suposta verdade e o senso comum. Talvez haja dois lados para toda história — mas talvez não dois lados válidos, o que definitivamente não existe quando um deles foi comprado a um preço alto, produzido por empresas cujo sucesso financeiro depende da entrega de estudos e relatórios que apoiam qualquer conclusão que clientes corporativos necessitem.

A estratégia de fabricar dúvida funciona como uma ferramenta de relações públicas no atual debate sobre o uso de evidências científicas em políticas públicas. No longo prazo, campanhas de defesa de produtos raramente se sustentam; algumas não passam nem no primeiro teste. Mas, ao longo do tempo, a principal motivação tem sido apenas semear confusão e ganhar tempo, às vezes muito tempo, permitindo que indústrias inteiras prosperem ou que empresas mantenham sua participação no mercado enquanto desenvolvem um produto novo. A dúvida pode atrasar ou prejudicar a saúde pública ou a proteção do meio ambiente, ou apenas convencer o júri de que a ciência não é forte o bastante para rotular um produto como responsável por doenças terríveis.

Eventualmente, à medida que os estudos científicos sérios se tornam mais incisivos e definitivos, e à medida que os estudos corporativos se revelam pouco convincentes ou simplesmente incorretos (ficando em geral esquecidos, sem que seus autores sofram qualquer penalidade por prevaricação), os fabricantes desistem e reconhecem os danos causados por seus produtos. Então eles se submetem a uma regulamentação mais rigorosa e, no fim, acabam gastando mais dinheiro. Mas eles sabem fazer contas: também ganharam muito dinheiro ao longo de todos esses anos. Seu patrimônio se multiplica. E as pessoas que adoeceram ou pioraram de saúde no período? E o meio ambiente degradado? Ora, quanto a tudo isso, é uma pena. Sinto muito.

E o que acontece com as empresas de defesa de produtos? Sempre surge outra oportunidade de manipular as vulnerabilidades na interseção entre ciência e dinheiro. No Deflategate, o relatório oficial da Exponent permitiu que os advogados da NFL afirmassem, quatro meses depois do jogo em questão, que os especialistas não encontraram “nenhum conjunto de fatores ambientais ou físicos confiáveis” para explicar completamente a mudança na pressão das bolas do Patriots. Em combinação com outras evidências circunstanciais, “era mais provável do que não” que as bolas tivessem sido intencionalmente desinfladas. Para ser justo, a NFL também confiou em textos e outras evidências sugerindo que as bolas do jogo podem, de fato, ter sido esvaziadas. Mas a Exponent tinha feito seu trabalho, fornecendo a conclusão que foi útil à NFL para embasar a decisão sobre a culpa do quarterback. Goodell suspendeu Brady por quatro jogos na temporada seguinte a 2015, multou o Patriots em um milhão de dólares e retirou a equipe da primeira rodada de seleção de jovens jogadores. Pode-se imaginar a disputa legal que se seguiu à suspensão: o caso acabou na justiça federal, e as disputas judiciais se estenderam para a nova temporada a partir daquele outono. Consequentemente, a punição de Brady foi mantida em suspenso; ele jogou toda a temporada de dezesseis jogos e playoffs, e o Patriots foi derrotado na final da Conferência Americana da NFL. Ele cumpriu a suspensão de quatro jogos apenas na temporada seguinte. A equipe venceu três dos quatro jogos em sua ausência e, por fim, com Brady de volta ao comando, ganhou o Super Bowl mais uma vez. (Em 2019, venceram novamente o Super Bowl, com um total de seis vitórias e três derrotas — nove finais em dezessete anos, o que chega a ser ridículo.)

O relatório da Exponent aos donos de times acabou se tornando uma vergonha para a NFL. John Leonard, professor de robótica e engenharia mecânica do Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi um dos primeiros céticos em relação ao trabalho da Exponent e conduziu uma série de análises que demonstraram que os cálculos originais estavam incorretos. A palestra muito convincente de Leonard no YouTube foi vista mais de trezentas mil vezes. Como vive e trabalha em Massachusetts, Leonard pode ser suspeito de parcialidade, mas ele se revela um vira-casaca nesse caso: é um torcedor do Philadelphia Eagles. E não está sozinho em suas críticas ao relatório da Exponent. Professores da Carnegie Mellon, da Universidade de Chicago, da Universidade Rockefeller e de outros centros acadêmicos apontaram erros no relatório. Esse não foi, portanto, o melhor momento da indústria da dúvida — só um momento bastante indicativo, e que recebeu mais atenção nacional do que na maioria dos casos.

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