Calibã e a bruxa
pela descriminalização do aborto

Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva
Silvia Federici
De R$ 60 por R$ 50 (frete grátis)

——–

O livro Calibã e a bruxa está ajudando a embasar o debate sobre a descriminalização do aborto no Brasil. O tema passa por consulta pública no Supremo Tribunal Federal desde sexta-feira, 3 de agosto, em processo denominado Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442-DF. A mobilização de organizações feministas, jurídicas e de direitos humanos cresce, com vigílias na Praça dos Três Poderes e intensa movimentação nas redes.

A obra de Silvia Federici está fechando fileiras ao lado de uma série de outros argumentos poderosos pela descriminalização do aborto, e chegou até a mais corte do país. A Associação Juízes para a Democracia (AJD), que participa da ação como amicus curiae, ou seja, uma das muitas entidades favoráveis e contrárias que “ajudarão” o STF a tomar uma decisão sobre a matéria, incluiu informações trazidas por Calibã e a bruxa em nota técnica publicada na semana passada.

“É bem de ver que as mulheres se encontram em condição de subalternalizadas desde o cercamento de terras (Federici, 2017) e, para sua emancipação, precisam superar o patriarcado que, partindo de uma avaliação histórica, é uma forma de organização social e familiar centrada na supremacia masculina, tomando como base o modelo da família patriarcal, entendida como aquela em que a autoridade do pai e marido é total.”

A partir dessas conclusões, a AJD defende que “carece de legitimidade social a norma jurídica proibitiva que, ao criminalizar o aborto, viola os direitos fundamentais das mulheres à autodeterminação, à decisão sobre seu planejamento familiar, à sua escolha de projeto individual de vida, à informação, à saúde e até à vida, o que é ainda mais profundo em se tratando das mulheres oriundas das classes menos favorecidas economicamente. Ao criminalizar o aborto, o ordenamento jurídico a um só tempo rompe com a igualdade entre homens e mulheres e aprofunda o abismo social entre as mulheres integrantes das classes dominantes e aquelas descapitalizadas.”

A cartunistas Helô D’Angelo também bebeu nas palavras de Silvia Federici para produzir uma pequena história em quadrinhos em favor da descriminalização. “A proibição do aborto não tem a ver com a preservação da vida. Tem a ver com a necessidade capitalista de ter sempre mais e mais trabalhadores à disposição do sistema”, contextualizou, em sua página no Instagram. “Fiz um breve resumo de um livro incrível, Calibã e a bruxa, que mostra como a caça às bruxas foi essencial para o surgimento do capitalismo: antes desse extermínio em massa, as mulheres tinham certo domínio sobre seus corpos e inclusive praticavam aborto sem punição nem julgamentos do Estado e da Igreja.”

Estamos tremendamente felizes e orgulhosos com o alcance e a importância que o livro vem tendo no país, e com a influência que vem causando sobre o pensamento e a atitude das mulheres brasileiras. Apenas podemos agradecer mais uma vez ao Coletivo Sycorax e à Fundação Rosa Luxemburgo pela parceria que firmamos para a publicação de Calibã e a bruxa. E dizer a vocês que muito em breve teremos o próximo livro de Silvia Federici em português. Aguardem…

Silvia Federici se inspira na resistência das mulheres africanas e latino-americanas

Por George Souvlis & Ankica Čakardić
Tradução de Oleg Savitskii & Anna Savitskaia
Em Lavra Palavra

 

Em entrevista concedida em outubro de 2016, a historiadora feminista italiana Silvia Federici, autora de Calibã e a bruxa, fala sobre sua formação política na Itália do pós-guerra e na efervescência dos Estados Unidos nos anos 1960 — sem esquecer de suas passagens pela Nigéria e pela América Latina, onde pôde observar na prática a resistência dos povos contra o avanço do capitalismo sobre a vida comunitária e os recursos naturais.

“A despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela ‘guerra às drogas’, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos”, diz Silvia Federici.

Na conversa, a feminista italiana criticou as interpretações marxistas que não consideram o papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou no desenvolvimento do capitalismo. “[Os marxistas] Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho.”

Confira alguns trechos da entrevista:

Quais foram suas experiências formativas política e pessoalmente?

A primeira experiência mais formativa da minha vida foi a Segunda Guerra Mundial. Cresci no período do pós-guerra imediato quando as lembranças de uma guerra, que durara anos, somadas às dos anos do fascismo na Itália, ainda estavam vivas. Desde jovem, eu estava ciente de que nascera em um mundo profundamente dividido e facinoroso, que o Estado, longe de nos proteger, poderia ser inimigo, que a vida é extremamente precária, mas, como cantaria mais tarde Joan Baez em uma música, “aqui, a não ser pelo destino, estamos nós”. Era difícil crescer na Itália do pós-guerra e não se politizar. Mesmo ainda pequena, não pude deixar de ser antifascista ao ouvir todas as histórias que meus pais nos contavam.

Além disso, cresci em uma cidade comunista, onde, no Dia do Trabalho, os trabalhadores ostentavam cravos vermelhos nas lapelas e nós acordávamos ao som de “Bella Ciao”, e onde a luta entre comunistas e fascistas prosseguia, com os fascistas tentando periodicamente explodir o monumento aos guerrilheiros e os comunistas atacando em retaliação a sede do Movimento Social Italiano, que todos sabiam ser a continuação do então banido partido fascista. Ao completar 18 anos, me via como radical, visto que à época o modelo da luta era ainda o dos operários de fábrica ou a luta antifascista.

Minha vinda aos Estados Unidos também foi um grande momento decisivo e de formação política. Cheguei no verão de 1967. A universidade de Buffalo, onde eu deveria estudar pelos próximos três anos, era um campus muito ativo, situado na fronteira com o Canadá e o local de passagem para muitos ativistas antiguerra que tentavam escapar do recrutamento. Cheguei em meio a várias mobilizações em apoio ao grupo Buffalo 9, que havia sido preso ao tentar cruzar a fronteira ao lutar contra a armação do FBI contra Martin Sostre, ativista portorriquenho muito respeitado pela comunidade negra.

Logo me juntei aos protestos estudantis e antiguerra. Comecei a trabalhar com Telos e um jornal undergound chamado The Town Crier. Nos Estados Unidos, aprendi sobre o legado da escravidão, do racismo, do imperialismo. Também conheci a “nova esquerda” italiana, o Operaísmo, e os grupos extraparlamentares que se formaram como resultado do movimento de maio de 1968 na França e do Outono Quente na Itália. Eu estava particularmente inspirada pela leitura de Marx feita por Fronti, que afirmava que primeiro vinha a classe operária e depois o capital, querendo com isso dizer que o capital não se desenvolve a partir de sua lógica autônoma, mas em resposta à luta da classe operária, que é o motor primordial da mudança social. Aquilo foi uma grande lição para mim, me ensinou a procurar a luta sempre, as contradições sociais como chaves para compreender a realidade social.

Além disso, o Operaísmo fez uma crítica do materialismo histórico e das políticas dos partidos comunistas. Mas, evidentemente, foi importante conhecer o novo pensamento político italiano nos Estados Unidos, porque, ali, nunca poderia esquecer a história do colonialismo e da escravidão, a história dos não assalariados. Essa história – e, é claro, a minha experiência de ter crescido em uma Itália ainda patriarcal do pós-guerra – moldou a minha abordagem do feminismo que foi mais um momento verdadeiramente revolucionário da minha vida.

Não vou falar disso porque meu trabalho fala por si. Em vez disso, falarei sobre o que significou para mim, no início da década de 1980, ter podido passar um tempo lecionando na Nigéria, meu primeiro encontro com a África subsaariana. À época, eu já lera muito sobre o colonialismo, assim como sobre as políticas de desenvolvimento e subdesenvolvimento, mas a Nigéria foi mais um momento de transformação política subjetiva, não porque tenha mudado a minha visão das relações sociais, mas porque revelou toda uma realidade que era imensamente diferente daquela que tinha vivido com base no meu conhecimento adquirido através de livros. Na Nigéria, aprendi sobre relações comunais, sobre a importância contínua da terra, aprendi sobre a maldição que é o petróleo para os países em que é descoberto, e sobre a grande criatividade do povo africano. As aulas que eu conseguira ministrar ali chegaram ao fim com a escalada da “crise da dívida” e das repressões políticas.

Porém, ao voltar aos Estados Unidos, comecei a passar cada vez mais tempo no México, e mais recentemente em outros países da América Latina, também devido à publicação do livro Calibã e a bruxa no México, na Argentina e no Equador, e agora no Brasil. Menciono a América Latina porque, a despeito das dificuldades que as pessoas, e as mulheres em particular, enfrentam por causa das políticas extrativistas, da violência sempre presente, praticada por exércitos, paramilitares, narcotraficantes e pela “guerra às drogas”, as lutas que as pessoas travam para manter sua autonomia, recriar as formas autônomas e coletivas de reprodução e de autogoverno, nascidas muitas vezes de situações de expropriação total, representam não um modelo, mas uma inspiração que afeta de maneira positiva meu próprio pensamento e prática políticos.

Seu trabalho tem muitas semelhanças com o de Paddy Quick, Maria Mies e Wally Seccombe. Todos esses escritores sustentam que, para analisar a opressão às mulheres no capitalismo, vários pontos devem ser levados em consideração: divisão sexual do trabalho; reprodução social; o controle dos corpos das mulheres e do poder reprodutivo; e a influência dinâmica das formas de família. Nesse sentido, você situa explicitamente o seu trabalho dentro da herança teórica do debate sobre o trabalho doméstico, valendo-se do argumento de Dalla Costa e James de que a divisão sexual do trabalho e do trabalho não remunerado desempenha uma função central no processo da acumulação capitalista. Você poderia falar-nos um pouco mais sobre as diferenças entre seus trabalhos? E o que vê como distinção entre os sistemas capitalista e feudal?

Embora todos os autores aos quais vocês se referiram tenham assentado a posição das mulheres na sociedade capitalista no processo de reprodução, há diferenças significativas entre nós. Uma diferença (por exemplo, entre a minha análise de salários para o trabalho doméstico e a de Maria Mies) reside no fato de que nós sempre definimos o trabalho doméstico como uma construção capitalista e, especificamente, como trabalho cujo objetivo social é a reprodução da força laboral.

Salientei muitas vezes que, na realidade, o trabalho doméstico/reprodutivo possui dupla natureza: reproduz a nossa vida e, ao mesmo tempo, espera-se que reproduza a força de trabalho — e, por causa disso, sujeite-se a restrições específicas. Na obra de Mies, você nem sempre encontrará essa distinção. Em sua análise, existe uma continuidade entre trabalho doméstico e reprodução orientada para a subsistência nos assim chamados países “subdesenvolvidos”. Isso é parcialmente verdadeiro. Mas há uma diferença entre trabalho reprodutivo/doméstico em condições nas quais as mulheres têm acesso à terra ou a outras formas de reprodução, como, por exemplo, em muitas comunidades indígenas, e trabalho doméstico que não é remunerado e depende de um salário (principalmente o do homem). No entanto, concordo largamente com Mies e admiro a maneira como ela expandiu o conceito de reprodução para incluir o trabalho agrícola na maior parte do assim chamado terceiro mundo.

A distinção entre o sistema feudal e o sistema capitalista origina-se da expropriação radical a que os trabalhadores estão sujeitos no capitalismo, e de sua separação dos meios de reprodução. Este é o motor do desenvolvimento capitalista, assim como da exploração intensa do trabalho. Como salientei em Calibã e a bruxa, o capitalismo é o primeiro sistema de exploração que vê antes o trabalho do que a terra como a principal forma de riqueza. Por essa razão, desenvolveu toda uma nova política relativa ao disciplinamento do corpo, especialmente do corpo das mulheres, e à gestão da reprodução, começando com a procriação. O capitalismo deve controlar o trabalho de reprodução, visto que ele é um aspecto central do processo de acumulação, de modo que o trabalho reprodutivo funciona antes como a reprodução da força de trabalho, ou seja, nossa capacidade de trabalhar, do que como a reprodução de nossa luta.

Em Calibã e a bruxa você se refere ao artigo de Robert Brenner “As raízes agrárias do capitalismo europeu”. O que você acha do trabalho de Brenner e do trabalho de outros “marxistas políticos”?

Não me lembro agora de todos os argumentos de Brenner e da escola do Marxismo Político. Concordei com seu foco na transformação das relações agrárias na Europa como crucial para o desenvolvimento capitalista, embora a formação de um mercado agrário/fundiário também tenha sido possibilitada pelo fluxo abundante da prata para a Europa após a conquista de vastas regiões da América do Sul. Porém, a crítica que tenho a essa escola é a mesma que tenho à abordagem de Marx: seu desconhecimento do papel que a reconstrução do trabalho reprodutivo desempenhou na “decolagem” capitalista.

Perceberam corretamente a separação do campesinato da terra como condição essencial para a existência das relações capitalistas, mas ignoraram a separação entre produção e reprodução, a desvalorização do trabalho reprodutivo, seu confinamento a uma esfera aparentemente não econômica e a consequente desvalorização da posição das mulheres, as quais, com a transição para o capitalismo, estariam destinadas a se tornarem os sujeitos principais desse trabalho. Tal como Marx, Brenner e a escola do Marxismo Político ignoram a caça às bruxas dos séculos XVI e XVII em sua análise do impacto do desenvolvimento capitalista sobre as relações agrárias, o que eu acho ser um grande erro.

Você acha possível que o capitalismo pudesse existir sem a apropriação do trabalho doméstico não remunerado das mulheres?

Não acho que isso seja possível, porque o trabalho não remunerado das mulheres, que continua até os dias de hoje, é a condição para a desvalorização da força de trabalho. Sem esse trabalho, a classe capitalista teria de fazer um grande investimento em todas as infraestruturas necessárias para reproduzir a força de trabalho e a sua taxa de acumulação seria seriamente afetada. Há também o lado político da desvalorização e da conseqüente naturalização do trabalho reprodutivo. Ele tem sido a base material para uma hierarquia laboral que divide mulheres e homens, o que permite ao capital controlar a exploração do trabalho feminino de forma mais eficiente por meio do casamento e das relações matrimoniais, inclusive a ideologia do amor romântico, e pacificar os homens dando-lhes uma serviçal sobre quem exercitar o seu poder.

Os últimos anos viram tanto o aumento da imigração para a Europa como o aumento dos partidos de extrema direita. Como nós, de esquerda, podemos enfrentar essa situação terrível?

É impossível expressar, em poucas palavras, a dor e a indignação que sinto ao ver o que os governos e tantas pessoas na Europa estão fazendo com os refugiados das guerras que esses mesmos governos financiam. É assustador ver que, ano após ano, quase toda semana, naufragam no Mediterrâneo os barcos que transportam refugiados, provocando a morte de centenas e centenas de pessoas, de tal forma que o Mediterrâneo agora é um grande cemitério, e isso está acontecendo diante dos olhos de todo o mundo, não em campos de concentração escondidos – isso sem falar dos “centros de hospitalidade”, que são cadeias onde essas pessoas são mantidas por tempo indeterminado em condições ignóbeis.

É evidentemente deplorável que a resposta de muitas pessoas, inclusive operários, não seja solidariedade, mas rejeição, perseguição e posturas nacionalistas. É particularmente preocupante, pois, muitas vezes, é uma guerra entre os pobres, visto que aqueles que querem erguer barreiras são as próprias pessoas que lutam para sobreviver, que pensam que podem se proteger não por meio da solidariedade com refugiados, mas mediante a política de exclusão. Eu gostaria, porém, de acrescentar que precisamos saber mais sobre neonazistas que atacam refugiados na Alemanha, por exemplo, já que há evidências de cumplicidade por parte das autoridades e da polícia, a ponto de pensarmos que os neonazistas surgem como instrumentos de controle dos refugiados que podem ser úteis como força de trabalho barata, mas desde que aceitem permanecer no degrau mais baixo da escada social.

Houve, nos últimos anos, um crescimento das formações de esquerda – de Corbyn e Sandres ao Podemos. Você vê alguma esperança nessa evolução, no sentido de transformação social significativa? Como você acha que a esquerda deve se relacionar com o Estado?

Essa não é uma pergunta fácil de responder. […] Vemos que os governos inclinados à esquerda e toda a política progressista tanto na Europa como na América Latina estão em crise. Poucos se mobilizaram no Brasil para exigir a reintegração de Dilma Rousseff no cargo, embora muitos tenham condenado seu impeachment como um movimento fraudulento, quase um golpe. O registro dos governos progressistas é que, na melhor das hipóteses, eles aliviaram algumas formas de pobreza extrema, mas não mudaram os modos de produção, não implementaram as reformas que os movimentos sociais que os levaram ao poder exigiam, não refrearam a violência do exército e da polícia.

Talvez uma narrativa diferente pudesse ser feita a favor do chavismo, visto que era mais respeitoso com o poder do povo, mas ele também se baseou nas políticas extrativistas, fazendo com que o país ficasse dependente dos altos e baixos do mercado global. E o que dizer de Bernie Sanders, que, depois de passar meses explicando por que seus seguidores não deveriam votar em Clinton, depois afirmou que essa seria a única alternativa? Que lição de cinismo!

Não chamo a política dos comuns de “espontaneísta”. Atualmente existem no mundo muitos regimes comunitários que têm centenas de anos de história. E não há muita espontaneidade na defesa dos bens comuns em muitas partes do mundo quando se deve enfrentar a violência de grupos paramilitares, exércitos e guardas de empresas de segurança. Claramente, não deveríamos ser dogmáticos nesses assuntos. Em níveis locais, muitas vezes é possível exercer alguma influência sobre os governos. Mas o que estamos vendo é que os centros, em que decisões são tomadas, se afastam cada vez mais do alcance das pessoas. Também estamos vendo a formação de uma estrutura de poder internacional que substitui de forma constante o poder do Estado-nação, como é o caso da União Europeia.

Por causa da constante interferência do FMI e do Banco Mundial nas políticas públicas, especialmente, mas não exclusivamente, nas do “terceiro mundo”, estamos vendo a proliferação de Acordos de Livre Comércio como o TTP ou TTIP (felizmente ainda não assinados) – que estabelecem o controle direto da economia global pelo capital, de modo que nenhuma decisão pode ser tomada em nível econômico sem ser antes aprovada pelas grandes corporações e eliminar totalmente a soberania nacional. Sob essas condições, como ser otimista em relação à instalação de governos de esquerda/radicais?

Uma onda de mudanças varreu a América Latina na virada do século XXI, derrubando os governos neoliberais. Cruciais nisso foram os novos movimentos sociais que emergiram exigindo tanto direitos sócio-políticos como econômicos. Isso, no entanto, provocou tensões entre partidos dominantes e movimentos sociais. Você acredita que essas tensões podem ser resolvidas de forma que possam promover os interesses das classes trabalhadoras da América Latina?

Eu visitei o Equador em abril de 2016 e tive muitos encontros com grupos ambientalistas e de mulheres e seus relatos foram unânimes. As pessoas estão indagando: por que a esquerda europeia e americana fala de Rafael Correa como se ele fosse um radical quando suas políticas estão em conformidade com o neoliberalismo? Dado que Correa, mais do que seus antecessores, está promovendo agora ataques contra as terras indígenas e demonstra, em suas políticas do dia a dia, um completo desprezo pelas mulheres? Levado ao poder por um movimento dos povos indígenas, Correa introduziu na constituição do país o princípio de que a natureza também tem direitos e, de início, parecia determinado a não explorar seus recursos petrolíferos, mas acabou mudando de ideia e atualmente está promovendo investimentos estrangeiros e a perfuração de poços de petróleo no parque de Yasuni.

Não admira que, repetidamente, ele entra em confronto com as mesmas populações indígenas que uma vez o apoiaram, e o seu governo é amplamente condenado como desdenhoso dos movimentos desde baixo, autoritário e apoiador do poder corporativo. Evo Morales também fala de Pachamama quando viaja para o exterior, mas segue uma política extrativista semelhante, a qual, além de destruir terras, florestas, rios, cria uma forma interna de colonialismo. Isso não quer dizer que não há grupos de trabalhadores que possam apoiar suas políticas, já que o extrativismo significa salários para alguns, ainda que ao preço da destruição dos meios de subsistência de muitos, da mesma forma que, em muitas comunidades dos Estados Unidos, trabalhadores jovens apoiam o fracking.

Com um olho e só

Por Antonio Mammi
Parágrafo Primeiro

 

Sérgio Silva não fazia mais que a obrigação quando foi à rua da Consolação em 13 de junho de 2013: fotojornalista freelancer, não podia negar serviço em terreno tão adubado. No dia mais violento das manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, o ponto de inflexão na série de protestos que vieram a ser conhecidos como as Jornadas de Junho, Silva teve que se ver com a mais grave sequela carregada pelos cerca de 150 feridos naquela noite. Vítima do que se repercutiu amplamente como uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar, perdeu o olho esquerdo.

A comoção, contudo, não foi reforçada por tintas oficiais. Em duas instâncias, o Judiciário paulista lhe negou indenização de R$ 1,2 milhão por danos estéticos, morais e materiais, bem como uma pensão mensal de R$ 2,3 mil a ser paga pela Fazenda Pública.

Do périplo judicial de Silva, resultou a segunda edição de Memória ocular: cenas de um Estado que cega, escrito com o jornalista Tadeu Breda e concebido após o último insucesso do fotógrafo nas cortes.

“Não estou inventando essa história nem usando uma prótese falsa no lugar do meu globo ocular”, diz Silva à Parágrafo Primeiro. “Todo mundo sabe o que aconteceu. Eles mesmos sabem”.

Narrado por Breda — que também cobria o protesto do dia 13 — e ilustrado pelas fotos de Silva, o livro também inclui relatos de outras vítimas de violência policial ao longo de junho e foi lançado na data do quinto aniversário do disparo. “Eu estava na mesma esquina que o Sérgio quando ele foi atingido, mas só fui saber no dia seguinte. Fiquei bastante espantado”, conta o co-autor.

No primeiro grau, o juiz Olavo Zampol Jr. dispensou as testemunhas. O Estado não deveria ressarcir Silva nem que se provasse que ele havia sido ferido por bala disparada pela polícia, sentenciou. A culpa era exclusiva da vítima, por ter permanecido “em linha de tiro para fotografar, colocando-se em situação de risco, assumindo, com isso, as possíveis consequências do que pudesse acontecer”.

Argumentação que se aplica a coberturas de guerra, é verdade, embora a reprovação à postura belicista da polícia tenha encorpado as manifestações subsequentes e posto em xeque a defesa do uso de força excepcional. A julgar pelas primeiras imagens do livro (“as últimas fotos que Sérgio produziu quando ainda tinha dois olhos”, nas palavras dos autores), nem a alegação da linha de tiro parece prosperar —nelas, ele busca abrigo atrás de uma tropa posicionada no cruzamento da Consolação com a rua Caio Prado.

“Eu queria saber o nome disso que ele fez, porque não consigo nem definir”, afirma Silva. “Já que sou leigo em Direito, vou chamar de ato violento. E no meu caso é o segundo: o primeiro veio do tiro do policial, o segundo da caneta do juiz”.

Em novembro último, a 9ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo dirimiu Silva de culpa, mas nem por isso decidiu que fosse reparado pela órbita vazia. Paramentado com um tapa-olho, ele assistiu ao desembargador relator Rebouças de Carvalho fundamentar seu voto com base em um laudo médico, segundo o qual o fotógrafo pode ter sido atingido por “pau, pedra, mão, cabeça, bolas de gude, bola de futebol, bola de borracha, projéteis de paintball, coronhadas de armas de fogo”.

No momento, o processo está nos escaninhos da corte paulista, enquanto não se decide se ele será remetido para os tribunais superiores.

Silva, por sua vez, teve que se adaptar à nova condição — hoje, a maior parte da sua renda provém da produção e edição de vídeos, algo mais estático do que a correria dashard news. Diz que não vai desistir do processo. “O que importa é que o Estado reconheça o erro que cometeu em 2013 e o repare de alguma forma, qualquer que seja”.

Por enquanto, morrem com ele os R$ 3.894 gastos em hospital privado à época dos fatos.

Rússia 2018 e o espetáculo
das ruínas construtivistas

A geógrafa Rachel Pach esteve na capital russa em 2017, durante o Centenário da Revolução de Outubro, e observou o futuro a que chegou o futurismo soviético às vésperas da Copa do Mundo. O resultado é o instigante ensaio Guia Rússia para turismo do colapso, ou: o espetáculo das ruínas construtivistas na Moscou especulada, que chega aos leitores brasileiros exatamente quando o torneio da FIFA invade o país pela televisão.

Rachel Pach volta seus olhares ao construtivismo russo, sobretudo, e, como o próprio título diz, ao que restou dessa importante escola artístico-política-arquitetônica que floresceu nos primeiros anos da Revolução de 1917. Mas, antes de começar a analisar o que aconteceu com uma das mais simbólicas heranças soviéticas na paisagem de Moscou, o livro expõe algumas teses.

“O que se capta aqui é a implosão-explosão monumental de uma cidade convertida em megamercadoria imagética e imobiliária após o colapso da utopia socialista científica do urbanismo e da economia planificada”, escreve Rachel, apontando que seu Guia Rússia para turismo do colapso demonstra “o vetor de destruição-construção empreendido pelo capital fictício — além da eficiência do feitiço turístico em transformar a arquitetura em simulacro da própria história”.

Na primeira parte do livro, a autora prevê situações que os telespectadores encaram todos os dias ao ligarem seus televisores: “a cada vez que se realiza, o mundial da FIFA replica em cada nova cidade-sede sua concepção de produção e comercialização do espaço urbano, que não é só a da especulação imobiliária, já ordinária em nossa época, mas uma outra especulação, mais específica, que tem a ver com o evento extraordinário: a da cidade vendida como imagem.”

Na segunda parte de Guia Rússia para turismo do colapso, quatro notas declaram que o construtivismo não era um “estilo”, e sim uma máquina; versa sobre a “Profecia Das Kapital”, em que defende que “a derrocada da URSS não significou a vitória do Capitalismo sobre o Socialismo, nem da economia de Mercado sobre a economia de Estado, nem da burguesia sobre o proletariado, muito menos do ‘bloco democrático’ sobre o ‘totalitário'”; e reafirma o caráter revolucionário do construtivismo e a máxima de que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, de Karl Marx.

A terceira e principal parte do Guia Rússia para turismo do colapso é a análise de campo das “ruínas construtivistas que persistem na — ou foram demolidas pela — Moscou especulada. Seguem-se capítulos sobre os edifícios das fábricas automáticas de pão nº 5 e nº 9, da Gazeta Pravda, do Conjunto Habitacional da Fábrica de Borracha, do Narkomfin Dom-Komuna, das jamais construídas Torres de Tatlin e do Estádio Dínamo, que sediaria — mas acabou não sediando — a Copa.

Guia Rússia para turismo do colapso é fartamente ilustrado com figuras, fotografias, croquis e plantas arquitetônicas de época, além de imagens produzidas pela autora em 2017 e serigrafias assinadas pela Revista Comando, coletivo paulistano formado por Frederico Herr e Guilherme Boso. O projeto gráfico é de Bianca Oliveira. Um livro como existem poucos no Brasil.

 


LANÇAMENTO

POST SOVIET FESTUM
Dia 20 de junho, quarta-feira, às 19h
Estúdio Lâmina
Avenida São João, 108, Centrão
São Paulo-SP

+
Evento no Facebook
+
Filme: Que tal a vida, Camaradas?, de Luis Felipe Labaki
+
Exposição de cartazes da Revista Comando
+
Shows com Lanche (róque) e Fantasma (nóise)
+
Discotecagem post-punk-soviet, com Rafael Florêncio
+
ENTRADA FRANCA!

‘Um caso alarmante para a
liberdade de expressão no Brasil’

Por Camila Marques
ONG Artigo 19

 

O caso de Sérgio Silva é alarmante para a luta pela liberdade de expressão no Brasil. Primeiramente, porque a violência sofrida por Sérgio é um forte atestado do uso abusivo de armamento menos letal pela polícia em protestos, prática que teve em junho de 2013 um expoente.

Na ocasião, e nos anos que passaram desde então, comunicadores foram atingidos pelo uso indiscriminado deste tipo de instrumento e, em certos casos, foram alvos diretos da violência policial, com o objetivo de coibir a cobertura de protestos e a disseminação da informação para a sociedade.

Os desdobramentos do caso, da mesma forma, são muito emblemáticos, pois demonstram uma segunda faceta da restrição ao direito de protesto e ao trabalho dos comunicadores — a falta de responsabilização. Ao negar qualquer tipo de reparação a Sérgio pelos graves danos sofridos devido à atuação abusiva do Estado, o caso revela a omissão das instâncias de controle da atividade policial, que contribui diretamente para a continuidade deste ciclo de violações.

Por fim, o caso também aponta uma tendência preocupante de culpabilização explícita das vítimas, responsabilizando os comunicadores pelos eventuais prejuízos (físicos ou de outra natureza) que possam sofrer ao realizar seu trabalho na cobertura de manifestações.

A fundamentação da sentença que negou a indenização a Sérgio é direta ao afirmar que o fotógrafo ”assumiu a responsabilidade” de se ferir ao se colocar ”na linha do tiro”, o que, a um só tempo, demonstra a naturalização do cenário de violência em protestos sociais e contribui para a criminalização da atividade do comunicador, colocando a própria democracia em cheque.

 

LANÇAMENTO
==============

 

Na rua!
13 de junho de 2018, às 18h
Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia
São Paulo-SP
Evento no Facebook

Sarau com
Roberta Estrela D’Alva, Emerson Alcalde, Patrícia Meira, Deusa Poetisa, Natasha Felix, Cleyton Mendes, Caetano Romão, Felipe Marinho, Victor Rodrigues, Luiza Romão & Daniel Minchoni

Microfone aberto com
Conselho Nacional de Direitos Humanos, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Repórteres sem fronteiras, Anistia Internacional Brasil, Instituto Vladimir Herzog &tc.

13 de junho,
cinco anos de injustiça

Em 13 de junho de 2013, enquanto cobria um protesto pela redução da tarifa do transporte público no centro de São Paulo, o fotógrafo Sérgio Silva foi alvejado no olho esquerdo por uma das mais de quinhentas balas de borracha disparadas pela Polícia Militar naquela noite. Perdeu a visão na mesma hora. No hospital, passaria por uma cirurgia para extração do órgão. Algumas semanas mais tarde, outra operação: desta vez, para implantar uma prótese.

Cinco anos depois, Sérgio coleciona momentos de superação e depressão. Reinventou-se profissionalmente como cinegrafista, e segue a vida, mas o pedido de indenização que moveu na justiça já foi negado em primeira e segunda instâncias. Além disso, as bombas e os projéteis da PM alcançaram a vista de pelo menos mais cinco pessoas durante manifestações nas ruas da cidade. Uma das vítimas foi uma criança de apenas 12 anos.

Em edição revista, ampliada e atualizada, Memória ocular: cenas de um Estado que cega acompanha a trajetória do fotógrafo em cinco textos, escritos a cada ano de sua recuperação, e aborda também o drama de outros cidadãos cegados — ou quase — pela polícia paulista, como Vitor Araújo e Deborah Fabri, que perderam a visão graças a estilhaços de bomba.

O livro traz ainda fotos inéditas de Sérgio Silva — inclusive as últimas imagens que produziu antes de perder a capacidade de enxergar com os dois olhos, e que comprovam onde estava quando foi atingido pelo tiro da PM, contrariando as decisões altamente politizadas de juízes e desembargadores.

Trata-se de uma tentativa de entender em profundidade como a violência se expressa e se multiplica na vida de quem foi atingido pelas armas oficiais, abrindo cicatrizes psicológicas que aumentam ainda mais a dor das marcas que permanecem no corpo. Afinal, o que significa ser uma vítima do Estado hoje, depois de mais de trinta anos de “redemocratização”?

 

LANÇAMENTO
==============

 

Na rua!
13 de junho de 2018, às 18h
Esquina da Rua da Consolação com Rua Maria Antonia
São Paulo-SP
Evento no Facebook

Sarau com
Roberta Estrela D’Alva, Emerson Alcalde, Patrícia Meira, Deusa Poetisa, Natasha Felix, Cleyton Mendes, Caetano Romão, Felipe Marinho, Victor Rodrigues, Luiza Romão & Daniel Minchoni

Microfone aberto com
Conselho Nacional de Direitos Humanos, Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Repórteres sem fronteiras, Anistia Internacional Brasil, Instituto Vladimir Herzog &tc.

Apocalipse canavial

Por Samuel Barbosa
Professor do Departamento de Filosofia e Teoria do Geral do Direito da USP e pesquisador do Cebrap

 

“Deixei o acampamento ainda atordoado pela cena do rapaz me estendendo o osso. Suas palavras ecoavam em mim: ‘Eu queria ir lá em Brasília me esclarecer: por que a gente passa massacre?’, ‘Será que o osso do meu irmão não presta?’”. O antropólogo e advogado Bruno Martins Morais ficou sem reação diante do jovem índio em um dos acampamentos no Mato Grosso do Sul.

A resposta veio no livro Do corpo ao pó, no qual autor apresenta os resultados de sua pesquisa entre os guarani kaiowá, que recebeu o prêmio de melhor dissertação de mestrado em ciências sociais de 2016 pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs). Em uma edição primorosa, com várias fotografias impactantes, o livro apresenta a percepção dos índios sobre a violência nos conflitos fundiários e suas formas de resistência.

Acossados por verdadeiras milícias que agem impunemente à luz do dia, sabemos desses povos pelos números de homicídio e suicídio, por uma ou outra reportagem jornalística que desperta nossa atenção à distância.

O livro, no entanto, é uma oportunidade única para ganharmos proximidade e nos surpreendermos com a perspectiva dos guarani kaiowá. Em meio à extrema vulnerabilidade, eles cantam, rezam e narram a associação entre a ocupação da terra e seu sentido sagrado, as noções de pessoa e corpo, os ritos funerários e as concepções cosmológicas sobre o começo e o fim do mundo. Para eles, o mundo não acaba em fogo ou água, mas em cana.

Muito além de denúncia e protesto, o livro nos oferece a tradução dessa fina e densa interpretação indígena que nos dá o que pensar e fazer.

Como chegamos até aqui?

Por Fabio Luis Barbosa dos Santos
Autor de Além do PTCuba no século XXI

 

O que aconteceu? Como chegamos até aqui?

Esta indagação, presente no livro O eclipse do progressismo, mais precisamente na abertura do capítulo sobre a Bolívia, ronda a militância da Nossa América. É preciso enfrentá-la para que a história avance, em lugar de repetir-se como farsa. O primeiro passo é informar-se, para refletir. Pois, como dizia José Martí, “conhecer é resolver”.

Este livro é uma excelente contribuição nesta direção. Primeiro, porque recolhe textos de intelectuais que são militantes, e vice-versa. Portanto, é gente que tem uma vivência orgânica sobre o que fala. Os processos são analisados desde dentro, sem lugar para abstrações sobre o imperialismo ou para o discurso vitimizador da “reação da direita”, encobrindo corresponsabilidades. Embora alguns autores tenham servido em altos postos nestes governos, predomina o espírito crítico, mas nunca o rancor.

O resultado de O eclipse do progressismo é um conjunto de artigos reveladores sobre o progressismo, particularmente onde este subsiste: Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua. Aos familiarizados com a crítica pela esquerda, o livro a atualiza. Por exemplo, Edgardo Lander elenca dados e fatos aterradores sobre a Venezuela de Nicolás Maduro. Sabendo que não há saída pela esquerda à vista, o autor deixa que as informações falem por si. É leitura obrigatória para quem deseja informar-se, como premissa para tomar uma posição.

Aos que ainda veem a onda progressista com lentes cor-de-rosa, o livro é um colírio necessário. Só a análise da realidade concreta nos salvará, ao mesmo tempo, da histeria da Rede Globo e de delírios à la Emir Sader ou García Linera.

Pablo Solón explicita, por meio de um ensaio franco e informado, como “a lógica do poder capturou o processo de mudança” na Bolívia. Alberto Acosta e John Cajas Guijarro apresentam, com riqueza de elementos, o processo por meio do qual o governo Correa forjou “um Estado que criminaliza e impõe sua ordem” no Equador.

O eclipse do progressismo inclui um excelente capítulo sobre a Nicarágua, uma situação menos conhecida entre os sul-americanos. Alejandro Bendaña apresenta uma análise devastadora sobre o sandinismo, travestido em orteguismo, imprescindível para entender os conflitos que explodiram recentemente no país.

Como toda coletânea, o livro é heterogêneo: há textos de diferentes tamanhos e enfoques. Emilio Taddei apresenta um panorama abrangente do governo Macri na Argentina, descrito como uma “virada neoliberal”. Entretanto, o kirchnerismo não é analisado, e ficamos sem entender porque a maioria dos senadores que apoiou o seu candidato, votou em seguida com Macri a favor dos fundos abutres.

Já a jovem Giovanna Roa revela, inclusive nas entrelinhas, os impasses da esquerda chilena: ao culpar os aliados pelo imobilismo do governo Bachelet, evidencia-se que, para que a esquerda possa renascer, ainda há contas a acertar com o Partido Socialista. Mas este é o único episódio de vitimização no livro.

O multifacetado texto de José Correa Leite abordando o Brasil faz uma avaliação destemida sobre “o PT e a construção de uma sociedade neoliberal”. Ao resgatar a trajetória do partido, para depois explorar seus governos à luz de temáticas como meio ambiente e gênero, o texto me parece particularmente instrutivo aos jovens. Importante, a reflexão reconhece a farsa do golpe, sem comprar o discurso de que era necessário para impor o projeto da direita — como se o PT fosse o oposto e não o complemento do vice golpista.

Finalmente, O eclipse do progressismo traz uma reflexão da uruguaia Lilian Celiberti sob a ótica do feminismo.

Da leitura de conjunto dos artigos, sobressaem alguns elementos. Todos os governos se apoiaram na exportação de matérias-primas, enfrentando necessariamente quem a isso se opôs. Crescimento e assistencialismo andaram de mãos dadas com cooptação e alienação, enquanto o vento das commodities soprou à favor.

Na economia política do progressismo, o poder converteu-se em um fim, derivando em práticas antidemocráticas onde ainda subsiste. No conjunto evidenciam-se, pela esquerda, os nexos entre o conteúdo cíclico da economia dependente e as formas repressivas da política que lhe corresponde, sustentando desigualdades e privilégios desde a Colônia.

Será preciso fazer muito e tudo diferente para que as coisas mudem. Não por gosto, mas por necessidade. Esperamos que o eclipse do progressismo seja, enfim, um ocaso. E, quando o movimento da história gravitar para a esquerda, tanto faz a revolução dos astros, desde que ilumine novamente a revolução na Terra.

Frei Henri continua vivo
na luta pela reforma agrária

Por Carolina Motoki

 

No acampamento Frei Henri des Roziers havia uma enorme castanheira. Aos seus pés, o frade dominicano que empresta nome à comunidade comemorou seu último aniversário no Brasil. Ali gostaria de ser enterrado. Um dia depois que as famílias acampadas receberam a notícia de que Henri havia morrido na França, no final de novembro passado, aos 87 anos, a castanheira tombou. Sobrevivente do desmatamento que transformou a floresta em capim, no sul-sudeste paraense, a árvore de tronco comprido e copa alta não sabe viver só.

Uma outra árvore frondosa Henri avistava pela janela do seu quarto no convento de Saint-Jacques, em Paris, onde passou seus últimos anos, cabeça sã, corpo quase imóvel. A árvore lhe indicava as estações do ano, tão marcadas na França. Seu amigo Didier Laurent escreveu que ela “era natureza viva, feito relógio de sol na parede da igreja, marcando o tempo longo e lento”. Dizia que a árvore cuidava dele.

Memorial em homenagem a Frei Henri construído em assentamento que leva seu nome, em Curionópolis (Foto: Idelma Santiago)

Estou no carro com Didier. De Marabá a Xinguara, onde Henri viveu mais da metade dos quase quarenta anos que passou no Brasil, quase não há mais castanheiras. Somos conduzidos por Frei Xavier Plassat, companheiro de Henri de origem, de fé e de batalhas travadas. Percorremos a estrada da região banhada de luta, conhecida pelos assentamentos e acampamentos de trabalhadores sem-terra, mas também pelos latifúndios sem fim.

Paramos onde houve banho de sangue: na curva do S, a juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se reunia para estudar, em memória ao massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido 22 anos antes. Paramos também no “acampamento de Henri” em Curionópolis, onde um mutirão terminava de construir a capela: no sábado, 14 de abril, as cinzas de Frei Henri seriam depositadas ali, atendendo a um pedido dele mesmo.

“Apaixonado por justiça”: o título do livro lançado em seu funeral resume bem a história desse frade dominicano, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), defensor de camponeses, trabalhadores sem-terra e daqueles que foram escravizados em busca de vida digna. Frei Henri era um obstáculo aos fazendeiros que pretendem se fazer donos do mundo e reis do gado a qualquer custo. E assim era, pois caminhava ao lado do povo.

Por conta disso, recebeu a homenagem do MST ainda vivo: o acampamento Frei Henri existe há oito anos. Marcada pela transitoriedade e pela incerteza, a vida das famílias acampadas é feita de respirar diariamente o conflito concreto, ora pelos tiros dos pistoleiros, ora pela dificuldade de se resistir de sol a sol. Nas mãos que secam o suor, a esperança é sedimento de superação da condição de pobreza, de superação da escravidão reiterada. É a transformação da fome em alimento. É a construção de uma nova possibilidade de vida, das plantações e paredes da escola à árdua tarefa de reaprender a conviver em comunidade.

Da castanheira que caiu após a morte de Henri, as famílias acampadas fizeram uma ponte, que hoje é caminho entre as moradias e as roças, antes separadas por um igarapé.

Sepultar ali, em um símbolo de eternidade, quem esteve boa parte da vida jurado de morte por fazendeiros e grileiros é como ocupar novamente o território, fincar a bandeira da reforma agrária, quando esta parece tremular cada vez menos no debate nacional. No ano passado, nem uma só família foi assentada no Brasil. Pelo menos 65 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo.

Violência contínua

Na região, a disputa territorial não dá trégua. Os constantes ataques ao acampamento Frei Henri são marca disso. A terra, pertencente à União, foi retomada de um grileiro pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas as famílias ainda não foram assentadas e continuam sofrendo ameaças e violências.

Os casos se multiplicam e compõem uma estatística doída, colocando o estado do Pará entre os campeões de mortes no campo. Em sua vida, Henri se empenhou pessoalmente no combate à impunidade dos mandantes de muitos desses assassinatos.

No ano passado, quando já estava de volta a Paris, doente, Henri soube do maior massacre dos últimos anos, ocorrido bem na região onde vivia: dez pessoas foram assassinadas por policiais militares e civis na fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco. Mais uma morreu dias depois, aumentando o número para onze mortos.

Frei Xavier Plassat e o livro Apaixonado por justiça, sobre Frei Henri, traduzido por ele (Foto: Thomas Bauer)

Na semana das cerimônias do sepultamento de Henri, entre os dias 12 e 16 de abril de 2018, o cheiro de violência ainda pairava no ar: policiais civis envolvidos no massacre declararam, em audiências de instrução e julgamento, que foram coagidos por PMs a apertar o gatilho. Um policial descreveu como atirou em trabalhadores sem-terra já rendidos: um deles pediu para morrer em pé. Como as árvores.

Reunião de ódio

Os policiais civis também disseram no depoimento que pecuaristas fizeram uma “vaquinha” para pagar os envolvidos. Revestidos dos símbolos da modernidade de um agronegócio pujante e “pop”, os crimes perenes ao longo dos anos — além de assassinatos, grilagem de terras, degradação ambiental e trabalho escravo — mostram que são muitos os fazendeiros que não abrem mão da violência. Ainda assim, organizados, com ampla representação no Congresso e com força de incidir na disputa eleitoral, tentam mudar o estatuto do desarmamento para enfrentar, armados, a violência da qual se dizem vítimas.

Como narrado pelos policiais e denunciado por entidades ligadas aos trabalhadores rurais e à defesa dos direitos humanos, os fazendeiros da região são conhecidos pela ação em conjunto, os chamados “consórcios”. Teria sido tomada em “consórcio” a resolução de matar lideranças conhecidas, entre elas duas pessoas que trabalharam ao lado de Henri: o padre Josimo, morto nos anos 1980 por sua atuação no norte do estado do Tocantins, e a missionária Dorothy Stang, executada em 2005, no Pará.

O ódio que Josimo e Dorothy ainda suscitam entre grileiros e latifundiários não se esconde. Seus rostos estampavam o convite de um evento que aconteceria no Maranhão, na mesma semana do funeral de Henri, intitulado “Os falsos mártires da teologia da libertação”. Quando Dorothy foi executada, fogos de artifício foram ouvidos em Anapu, onde sofreu o atentado.

Fogos de artifício também foram ouvidos na mesma cidade para comemorar outro feito, neste ano: a prisão de padre Amaro, também da CPT, e apontado como um dos sucessores de Dorothy no apoio às famílias que lutam por um pedaço de chão. Em nota divulgada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), a entidade patronal descreve as inúmeras denúncias protocoladas desde 2015 contra padre Amaro, assim como as “provas” apresentadas, sem receio de atacar de forma raivosa o religioso, a CPT, a própria irmã Dorothy e até o ex-ouvidor agrário nacional, Gercino da Silva Filho, classificados como incitadores das “invasões no campo”. Exemplo de expressões atribuídas a padre Amaro são “diatribes”, “embusteiro” e “subversivo”, reveladoras do ódio que fazendeiros manifestam contra os que denunciam seus crimes.

A assessoria jurídica da CPT produziu um documento que contesta as acusações contra Amaro que, dia após dia, denunciava irregularidades constatadas pelo Ministério Público Federal em visita recente a Anapu. Padre Amaro continua no presídio de Altamira. Por enquanto, os fazendeiros seguem vitoriosos.

O sonho possível

De quantas vidas é construída a memória de um lugar? De quantas mortes? Em que territórios se assentam sonhos em roças? Em quais deles se alongam as clareiras de gente, expulsas pelas cercas dos pastos sem fim, adubados pelo sangue derramado e pelo suor de quem foi explorado?

Fogos de artifício também foram ouvidos diversas vezes em Xinguara, quando fazendeiros achavam — erroneamente — que Henri havia morrido. Diz-se que um churrasco foi feito para comemorar sua morte, quando efetivamente ocorreu, na França. No acampamento, no dia em que as suas cinzas ocuparam a capelinha, não houve uma cerimônia de morte. Não se tratou de um enterro. Ao contrário, presenciamos uma celebração da vida.

“Frei Henri está presente, e a gente até sente o pulsar de seu coração”. Foi essa frase, repetida inúmeras vezes por quem estava no acampamento, que acompanhou as cinzas de Henri do palco onde aconteceu a celebração até o lugar onde hoje repousa, em “seu” acampamento.

Henri está presente, como nunca, na luta que segue, ainda necessária. Ali, mesmo pequenino, transformado em pó, ele reuniu muita gente em torno de um só sonho. Sob o céu do sul-sudeste paraense, encontraram-se muitas pessoas — vindas de diversos lugares — que acreditam que o campo deve ser um lugar onde é possível retomar a esperança e construir pontes a partir das árvores tombadas. Porque, definitivamente, elas não vivem sozinhas.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

Página 1 de 612345...Última »