Recesso de fim de ano

Prezad@s leitor@s,

Os elefantes também precisam descansar: ainda mais depois de um ano como 2016. Foram seis novos títulos, quatro apenas no segundo semestre. Estamos felizes com o que fizemos, mas exaustos…

Entraremos em recesso a partir de 20 de dezembro. Voltamos em 15 de janeiro. Nesse meio tempo, as compras pelo saite continuam funcionando. Os livros, porém, demorarão um pouco mais pra chegar.

Começaremos 2017 com novidades. Aguardem…

Boa passagem de ano pra tod@s vocês!

Obrigado pela companhia em 2016

Querid@s leitor@s,

Que ano está sendo este, meodeos!? Cada um e cada uma de vocês terá uma interpretação pessoal sobre 2016: bom, ruim, louco, catastrófico, eterno, maravilhoso, rápido, vá-de-retro, que saudades… Não temos nenhuma intenção de interferir nesse balanço. Mas queremos, e muito, agradecê-l@s. O ciclo que dentro de alguns dias se acabará (será?) foi bastante proveitoso para a Editora Elefante. E vocês são parte disso — uma parte fundamental.

Afinal, não é qualquer um que, diante dos infinitos atrativos da internet, investe alguns minutos em nosso saite, oferece endereço, dados bancários e pessoais e encomenda livros de uma editora pequena e desconhecida, confiando nas equipe do lado de lá e na efetividade dos Correios. Ao comprar diretamente conosco, vocês nos ajudam a driblar o “pedágio” das livrarias, que costumam ser abusivos, inviabilizando iniciativas independentes, como a nossa. Por isso, toda a nossa gratidão seria insuficiente para compensar tal gesto de nobreza. Podemos retribuir, porém, com um bom trabalho. E temos nos desdobrado dias e noites para entregar livros cada vez melhores a preços justos. O que conseguimos fazer nos últimos doze meses foi publicar seis novos títulos, aumentando nosso catálogo de quatro para dez livros. Urrú!

Tudo começou em janeiro, quando lançamos O Bem Viver: Uma oportunidade para imaginar outros mundos, do pensador equatoriano Alberto Acosta. Estivemos com o autor em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Mariana (MG). O Bem Viver foi nossa primeira tradução, e também inaugurou uma excelente parceria com a Editora Autonomia Literária e com a Fundação Rosa Luxemburgo. A união fez a força: em agosto, lançamos conjuntamente o livro de artigos Descolonizar o imaginário: Debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento, que dá continuidade às discussões sobre o Bem Viver; e, em outubro, Elefante e Rosalux colocaram no mundo a história em quadrinhos Xondaro, de Vitor Flynn Paciornik, sobre a luta dos Guarani Mbya pela demarcação de suas terras ancestrais na cidade de São Paulo.

Em junho, vivemos momentos marcantes com o lançamento de Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta uma parte da trajetória de Sérgio Silva, fotógrafo que perdeu o olho esquerdo ao ser atingido por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de São Paulo enquanto cobria as manifestações de 13 de junho de 2013. Voltar à esquina em que tudo aconteceu, três anos depois, na companhia de dezenas de amigos e amigas e de uma nova vítima do artefato policial — Douglas Santana, de apenas doze anos —, e assistir a imagens daquela jornada repressiva projetadas num dos prédios do centro foi… foi… ai, até agora arrepia.

Em 26 de outubro, colocamos para rodar o ônibus amarelo da Rizoma, distribuidora de livros independentes que estamos tirando do papel junto com a Editora Autonomia Literária e a N-1 Edições. A inauguração ocorreu na Biblioteca Mario de Andrade, no centro de São Paulo. Estacionamos o Rizomamóvel em frente ao edifício enquanto lá dentro o equatoriano Alberto Acosta e o italiano Antonio Negri debatiam alternativas para a crise que caiu sobre as esquerdas em todo o mundo. O busão amarelo ainda ficou alguns dias estacionado na biblioteca — e participou do encerramento da Balada Literária 2016, no Centro Cultural B_arco, em Pinheiros. Em quatro rodas, levando livros pra lá e pra cá, pretendemos acelerar algumas mudanças no sistema de distribuição de livros independentes. O ano que vem promete!

Em novembro, lançamos Além do PT: A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, de Fabio Luis Barbosa dos Santos, ensaio que acreditamos ser essencial para começar a construir um novo caminho para sair da encalacrada política em que estamos nos metendo. Por fim, também em novembro, colocamos um pouco de lirismo nessa conjuntura nefasta com a publicação de O livro das diferenças, de Paulo de Tarso L. Brandão. O recital de lançamento foi tão bonito, mas tão bonito, que só estando lá para entender a satisfação que sentimos em encerrar com música e versos um ano tão, tão, tão… tão 2016.

Ah, e no meio de todos esses lançamentos e debates e ônibus e tantas outras coisas, ainda recebemos a notícia de que Corumbiara, caso enterrado, de João Peres e Gerardo Lazzari, que lançamos em julho de 2015, foi indicado como finalista da 58ª edição do famoso Prêmio Jabuti. O livro sobre o massacre de Corumbiara — ocorrido em 1995, em Rondônia, e que deixou ao menos doze mortes — ficou entre as dez melhores publicações do ano na categoria Reportagem e Documentário, ao lado de várias feras e monstros sagrados do jornalismo (ô loco, bicho!). Nada mais que merecido para um trabalho que rodou o estado ex-amazônico de sul a norte, e foi recebido com entusiasmo por milhares de rondonienses.

Enfim, estamos muito contentes porque, em 2016, e graças a muito trabalho contra a maré, chegamos ao fim do ano vendo nossa manada crescer. Cresceu demais! Para além de prêmios e vendas, é isso o que realmente importa — é isso que queremos. Vocês podem imaginar que não é nada fácil levar uma editora microminúscula em um país que lê muito pouco e passa tempo demais diante da televisão e das redes sociais. Mas ninguém aqui está reclamando — até porque temos vocês. Seguimos em frente, caminhando devagar e nunca sozinhos. Igual aos elefantes.

Tomara possamos continuar contando com sua companhia em 2017.

Uma ótima passagem pra tod@s vocês!

E nosso muitíssimo obrigad@!

Dos paquidermes,

Bianca Oliveira,
Leonardo Amaral,
João Peres &
Tadeu Breda

Chegamos a nosso décimo título
cheios de lirismo, meodeos!

Foi certamente o lançamento mais bonito que já tivemos. O livro das diferenças, de Paulo de Tarso L. Brandão, veio ao mundo em 21 de novembro, em São Paulo, em um dia frio de um verão que teima em não chegar. Muita gente se dirigiu ao casarão do Bixiga — e não se arrependeu. Começou um pouco mais tarde do que deveria, mas a espera valeu muito a pena. As fotos falam por si mesmas. O livro das diferenças foi nosso décimo título. Só alegrias =) Se não pode comparecer, peça o seu pela internet aqui. E venha pra nossa manada! (Fotos: Alécio Cezar)

Conheça as principais teses do
livro Além do PT

No último dia 27 de outubro, Fabio Luis Barbosa dos Santos apresentou as principais teses de seu livro Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema, no interior de São Paulo. Eis uma síntese:

1) O PT é corresponsável pela própria decadência: apassivou os movimentos populares (que, por sua vez, aceitaram submeter-se às benesses da proximidade com o poder) enquanto pactuou com os setores políticos e econômicos (agronegócio, PMDB, mídia) que mais tarde viriam a guindá-lo do poder;

2) O golpe contra Dilma não significa uma mudança no sentido da história brasileira, mas a imposição de um ritmo mais acelerado e truculento em um mesmo sentido, que é conservador: um exemplo disso é que o ministro da Fazenda de Temer foi presidente do Banco Central com Lula.

3) O PT caiu não porque representava um projeto popular para o país, mas porque perdeu sua funcionalidade política às elites: deixou de garantir pequenos ganhos aos mais pobres, freando o descontentamento popular: o PT passou a ser desnecessário para o avanço do neoliberalismo, ao qual jamais se opôs durante os treze anos em que ocupou o Planalto.

4) As gestões petistas não funcionaram como alavanca, mas como freio da chamada “onda progressista” sul-americana: o projeto brasileiro das “campeãs nacionais” e da expansão do capital nacional sobre a região viu no bolivarianismo um concorrente — e não um aliado — para suas pretensões subimperialistas, subordinadas, por sua vez, aos Estados Unidos;

5) De maneira geral, a chamada “onda progressista” sul-americana não questionou o neoliberalismo: quando o fez, como no caso da Venezuela, o fez baseando-se no extractivismo — que historicamente é o maior produtor de dependência e desigualdade em toda a América Latina;

6) A grande lição deixada pelos governos petistas, no Brasil, e pelos governos progressistas, na América do Sul, em perspectiva histórica, é que não é possível implementar mudanças políticas e sociais dentro da ordem.

Conclusão: É preciso “matar” simbolicamente o PT, além de reelaborar um horizonte político baseado no combate à dependência e à desigualdade, ou seja, no combate aos imperativos do crescimento econômico, da superexploração do trabalho e da degradação da natureza, mirando a uma política contra-hegemônica: caso contrário, se estará fazendo nada mais que um reformismo conservador.

Ideias para superar o PT
e recuperar a autonomia da esquerda

A manobra parlamentar que derrubou Dilma Rousseff em 31 de agosto não se tratou de um impeachment, como dizem seus articuladores dentro e fora do Congresso. Foi um golpe — que, no entanto, não representou uma mudança significativa no sentido do governo e da história brasileira. A ascensão de Michel Temer apenas acelerou e radicalizou políticas conservadoras que já vinham sendo adotadas pelo petismo.

Eis uma das principais ideias defendidas por Fabio Luis Barbosa dos Santos em seu ensaio Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana, que será lançado pela Editora Elefante no início de novembro. “Michel Temer é muito mais destrutivo do ponto de vista social, mas não podemos dizer que ele impôs uma mudança qualitativa aos rumos do Planalto”, argumenta o autor, que é professor de relações internacionais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Osasco.

ENCOMENDE SEU EXEMPLAR!

Fabio Luis cita o exemplo da Proposta de Emenda à Constituição 241, conhecida como PEC do Teto, que está sendo patrocinada pelo governo Temer no Congresso Nacional. “A PEC 241 é apavorante, porque congela os investimentos sociais por vinte anos, mas tem como antecedente o Projeto de Lei Complementar 257, apresentado por Dilma em março, que já previa gatilhos para conter os gastos com a população”, compara o autor. “O sentido das políticas, portanto, é o mesmo: disciplinar as despesas públicas em função de imperativos financeiros. A diferença é a velocidade e a truculência.”

Diante do discurso petista, que interpreta o golpe como uma mudança forçada de projeto político para o Brasil, Fabio Luis oferece outra interpretação: “O golpe ocorreu porque o PT perdeu o comando da política palaciana. E isso foi consequência do esvaziamento da sua utilidade política e social para as elites do país”, diz. “Para as classes dominantes, o PT perdeu funcionalidade na manutenção da ordem. Seu papel era manter o povo sob controle. Em junho de 2013, ficou claro que o petismo já não era capaz de conter o descontentamento popular. Revelou-se, então, desnecessário para os donos no poder.”

O autor explica que, instalado em Brasília, o partido exerceu um papel fundamental em “apassivar” sindicatos, organizações e movimentos populares, neutralizando sua autonomia. “O PT se transformou no braço esquerdo do partido da ordem”, atesta o professor da Unifesp. Para isso, contou com a colaboração de parte das lideranças sociais, que aceitaram sujeitar-se a uma relação passiva com o Estado.

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“Não foi exatamente cooptação”, pontua Fabio Luis, criticando análises que eximem movimentos e sindicatos de responsabilidade pela própria submissão. “As gestões petistas colocaram em prática políticas que integraram as organizações populares à gestão pública, mas em papéis subordinados. Criaram espaços de participação inócuos, envolvendo as lideranças em questões burocráticas, como a elaboração de projetos e a execução de programas. Assim, muitos bons quadros sociais acabaram assumindo cargos no governo e negligenciaram o trabalho de base.”

Nesse sentido, explica Fabio Luis, o PT é corresponsável pela crise que o engole. “Não é o único culpado, mas tampouco é uma vítima”, sublinha. “Além de colaborar para o apassivamento das forças populares, o partido tornou-se cúmplice dos setores que, mais tarde, viriam a protagonizar o golpe: a mídia corporativa, que recebeu bilhões de reais em publicidade estatal; os setores financeiros, que experimentaram lucros recordes nas gestões petistas; e o PMDB de Temer, Jucá, Renan e Cunha, que fizeram parte do governo até às vésperas do impeachment.”

Um dos grandes diferenciais do ensaio Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana é justamente recorrer à experiência histórica do pensamento político transformador na América Latina para oferecer uma chave interpretativa para o que aconteceu — e ainda está acontecendo — no país. “Os governos petistas e os presidentes da chamada ‘onda progressista’ latino-americana demonstram a impossibilidade de mudança dentro da ordem”, conclui Fabio Luis.

O professor da Unifesp argumenta que, durante as gestões do PT, o Brasil atuou geopoliticamente para conter a mudança em curso na região — e não para acelerá-la. “O PT foi um freio, e não um indutor, da ‘onda progressista’, porque quis implementar na América do Sul a mesma ‘mágica’ que estava tentando conduzir dentro do país”, explica. “No Brasil, o partido trabalhou para conciliar capital e trabalho. No continente, quis conciliar soberania e imperialismo — contradições em termos.”

Segundo Fabio Luis, os avanços sociais no país sempre estiveram limitados pelos interesses financeiros. “A preocupação do PT era a seguinte: o que é possível fazer pelo povo brasileiro sem mexer com os interesses dos bancos, do agronegócio e da mídia corporativa?”, analisa. “Regionalmente, a pergunta era parecida: como podemos ter mais voz e influência internacional sem nos indispormos com os Estados Unidos?”

O autor compara as situações, começando pelo Brasil. “Aqui, os avanços sociais se expressaram, por exemplo, pelo Bolsa Família, uma política de renda básica recomendada pelo Banco Mundial, e pelos aumentos do salário mínimo atrelados ao crescimento do PIB, submetendo o direito dos trabalhadores a uma espécie de participação nos lucros da economia”, argumenta. “Lembremos que, sim, se criaram novas universidades públicas, mas a inclusão dos jovens no ensino superior se deu sobretudo em instituições privadas com subsídio do Estado.”

A ação dos governos petistas na geopolítica regional também foi marcada pelo pragmatismo extremo, que, de acordo com o autor, restringiu a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) à condição de um fórum de concertação política. “Foi um avanço, mas também foi uma contraposição à Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), uma iniciativa de potencial mais radical que reunia Venezuela e Cuba. Ao conciliar governos opostos, como a Venezuela chavista e a Colômbia de Álvaro Uribe, a eficácia transformadora da Unasul foi mais simbólica do que material — até porque seu esteio material é a IIRSA”, avalia, fazendo referência à Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana. “É um projeto que aprofunda o papel do continente como exportador de matéria-prima. Aliás, o denominador comum de todos os governos da região, progressistas ou não, é o extrativismo.”

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Fabio Luis aponta que as iniciativas regionais realmente pensadas “fora da caixa”, contrariando os grandes interesses internacionais e das elites nacionais — como a rede de televisão continental Telesur, o Banco do Sul, a Alba e as tentativas de criar uma moeda única regional —, foram sistematicamente esvaziadas pelo Brasil. “O papel do país foi puxar o freio em políticas de orientação contra-hegemônica.”

A grande conclusão do autor é que, depois de treze anos de governos petistas, a esquerda brasileira encontra-se em uma “encalacrada”: sua constante identificação com o PT acabou por deslegitimá-la, enquanto as forças conservadoras passaram a gozar de grande influência política e cultural sobre a opinião pública. Por isso, Fabio Luis condena propostas emanadas da própria esquerda que pregam como alternativa a volta de Lula à presidência da República ou uma suposta refundação do PT.

“O partido ainda tem ótimos quadros, é verdade, mas acreditar que eles podem recuperar o PT é como pensar que os padres progressistas podem mudar a Igreja”, compara. “O poder da Igreja está nas estruturas do Vaticano, e o vaticano petista tem seus cardeais e seu papa, que não estão interessados em fazer uma política popular. A relação do PT com os movimentos populares é meramente instrumental, e quem pretende implementar mudanças reais deve deixar de ser instrumento do PT.”

Fabio Luis afirma que é preciso, portanto, libertar a esquerda da aura petista. “É necessário exorcizar o espírito petista que aprisionou a esquerda na última década e, simbolicamente, ‘matar o PT’, assim como na psicanálise o sujeito precisa ‘matar o pai’ para desenvolver sua autonomia”, comenta. “Temos que entender que o futuro da esquerda não passa pelo PT.”

O autor de Além do PT — A crise da esquerda brasileira em perspectiva latino-americana sugere, portanto, que os movimentos populares restabeleçam como horizonte político o combate à articulação entre dependência e desigualdade que marca a história e o presente do país.

“Quem não questiona essa articulação e prefere posicionar-se no campo do mito do crescimento econômico, como fizeram as gestões petistas, não está interessado na mudança”, adverte, dialogando com as teses do Bem Viver que, inspirado nas tradições indígenas, ganha espaço entre organizações sociais em países como Bolívia e Equador. “O crescimento econômico e o progresso na América Latina estão — e sempre estiveram — assentados sobre a dependência internacional, sobre a superexploração do trabalho e sobre a degradação do meio ambiente. Um projeto de esquerda precisa necessariamente atacar essa realidade.”

Do ponto de vista organizativo, Fabio Luis acredita que as forças de esquerda devem combinar as novas formas de organização e convocação popular, ligadas ao mundo digital; a radicalidade e a criatividade das novas formas de protesto social, com destaque para as estratégias que surgiram em junho de 2013 e também para as táticas adotadas pelos estudantes secundaristas nas ocupações das escolas, em 2015; e as formas clássicas de expressão de poder dos trabalhadores, como o partido e o sindicato.

“Os partidos, porém, não podem ser nem um ponto de partida nem um fim em si mesmo”, avalia. “O partido tem que nascer da luta social. A tarefa do momento, portanto, é fortalecer movimentos e organizações que combinem a luta dentro da ordem com a luta contra a ordem. Haverá repressão? Sem dúvida. Mas a principal lição dos governos petistas é que dentro da ordem não haverá transformação.”

Corumbiara, caso enterrado está entre os finalistas do Prêmio Jabuti

Na noite de 24 de novembro, nosso Elefante vai descer a Brigadeiro, pomposo que só, no seu passo lento e folgado, como bem entender, para chegar à cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti no Auditório do Ibirapuera. Avisa o novo prefeito João Trabalhador que, até lá, é melhor não privatizar o parque, porque a gente vai passar sem pagar pedágio. Bem, isso se tivermos um pouquinho mais de sorte.

Sim, amigas e amigos! Corumbiara, caso enterrado, livro-reportagem de João Peres e Gerardo Lazzari, está entre os dez finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem e Documentário. A premiação já vai na sua 58ª edição e é, sem dúvida, uma das mais importantes do cenário literário brasileiro. Os vencedores serão conhecidos em 11 de novembro. No ano passado, nosso Elefantinho cruzou os pampas para receber o segundo lugar do Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo, promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil seção Rio Grande do Sul e pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos.

Nenhum dos nossos livros é lançado pensando nos prêmios. Mas, quando eles vêm, a gente não se queixa, não. Vamos em frente. Ainda mais neste ano-treta. Não é qualquer nota falar sobre latifúndio, ditadura e violação de direitos humanos no Brasil do presidente Fora Temer Golpista. A propósito, ao lançar o livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, em julho de 2015, fomos chatos ao ressaltar a importância do episódio ocorrido na localidade de Corumbiara, há vinte anos, como uma mostra de que não temos uma democracia consolidada.

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É claro que não imaginávamos que a desgraceira política pudesse chegar tão longe. Mas aí está ela, a cada dia, mostrando que estamos muito longe do horizonte que queremos. E isso só faz reforçar o sentido de trabalhos como o da Editora Elefante. Neste ano, chegaremos a onze títulos. É bastante para quem conta apenas com os trocados do bolso para fazer virar a bagaça. E temos orgulho de ver que nossos livros, por mais diferentes que sejam nas temáticas, têm uma linha em comum: remar contra a corrente, fazer da teimosia uma regra, trazer à tona os assuntos mais cabeludos.

Vamos torcer para que o Elefante ganhe um amigo Jabuti, claro. Mas o verdadeiro prêmio recebido por Corumbiara, caso enterrado foi a acolhida que tivemos em Vilhena, na casa do Newton Pandolpho e de sua família; em Colorado do Oeste, onde o Marcel Eméric Araújo lotou o auditório do IFRO (que, por sinal, foi ocupado pelos secundaristas em luta) pra receber nossa publicação; em Rolim de Moura, onde Carlos Trubiliano nos abriu as portas da UNIR; em Ji-Paraná e Ariquemes, graças às articulações das irmãs Renata e Juliana Nóbrega; e em Porto Velho, e aí é quando faltam palavras para agradecer a todo o apoio que tivemos da Laura Massunari.

João Peres, Gerardo Lazzari e Corumbiara, caso enterrado ganharam seu maior troféu quando sensibilizaram e moveram uma maré de solidariedade que envolveu todas essas pessoas — e muitas mais — em torno da necessidade de fazer memória das vítimas, das histórias e das injustiças brasileiras. Com certeza, os maiores louros que poderíamos colher com este trabalho, os colhemos durante o périplo rondoniense. Depois disso, o que mais vier é lucro. E tomara que venha. E se não vier, tubo bem. Seguiremos buscando novos incômodos.

Pré-lançamento de Xondaro
na aldeia Tenondé Porã

A HQ Xondaro foi apresentada a seus protagonistas na última terça-feira, 13 de setembro, durante uma assembleia da Comissão Guarani Yvyrupa que reuniu mais de duzentas lideranças guarani do Sul e Sudeste do Brasil na Terra Indígena Tenondé Porã, em Parelheiros, zona sul da cidade.

O dia foi marcado por uma longa reunião com um representante da Fundação Nacional do Índio (Funai). Na ocasião, os caciques exigiram a demarcação de suas terras espalhadas por vários pontos da região mais industrializada do país: algumas sequer começaram a ser estudadas pelo poder público, colocando seus ocupantes sob permanente risco de reintegração de posse.

Quando caiu a noite, Jaxy, brilhando no céu, ofuscava as estrelas. E algumas cadeiras se perfilaram para um rápido debate com os Guarani e os juruá que se envolveram na produção do livro. Depois da prosa, uma imensa fila se estendeu, curiosa, em busca de exemplares.

Escrita e desenhada por Vitor Flynn Paciornik, com patrocínio da Fundação Rosa Luxemburgo e o apoio da Comissão Guarani Yvyrupa, Xondaro é uma história em quadrinhos sobre a luta recente dos Guarani Mbya pela demarcação de suas terras na cidade de São Paulo.

As aquarelas passeiam pelas manifestações realizadas pelos indígenas em 2013 e 2014, desde o fechamento da Rodovia dos Bandeirantes até a ocupação do Monumento às Bandeiras, culminando com a intervenção de um jovem xondaro, Werá Jeguaká Mirim, que, convidado para representar o mito das três raças durante a cerimônia de abertura da Copa do Mundo, no estádio do Itaquerão, arrancou da cueca uma faixa pedindo “Demarcação” e mostrou à imprensa internacional uma das muitas faces da opressão brasileira aos povos indígenas.

Durante a apresentação da HQ na aldeia Tenondé Porã, Werá lembrou junto com parentes, amigos e lideranças como ocorreu a preparação para aquela tarde de protesto que lhe rendeu o apelido de “Werá Fifa” — e também lhe possibilitou um encontro com Mano Brown, do Racionais MCs, seu ídolo. Além de xondaro, Werá é rapper.

Lançaremos Xondaro em São Paulo na primeira quinzena de outubro, com debate sobre a luta dos povos indígenas e a violência de que sistematicamente são vítimas. Enquanto isso, ficamos com as imagens da calorosa recepção à HQ no lugar onde mais queríamos que fosse acolhida.

Aguyjevete pra quem luta!

Novo livro, Descolonizar o imaginário
aprofunda debate sobre Bem Viver

Vocês estão vendo: 2016 está sendo um ano muito movimentado para estes pequenos elefantes. A caminhada está dura e o trabalho, intenso. Mas não temos nada do que reclamar. Na próxima segunda-feira, 22 de agosto, lançaremos nosso sétimo título. Urrú! E a alegria é ainda maior porque Descolonizar o imaginário virá ao mundo graças a mais uma parceria entre Editora Elefante, Autonomia Literária e Fundação Rosa Luxemburgo – instituição que viabilizou o projeto.

Descolonizar o imaginário traz treze artigos que discutem pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento em perspectiva ampla e transversal, passando por temas aparentemente díspares, mas complementares, como direito à cidade, feminismo, colonialidade, Estado, Direitos da Natureza, movimentos indígenas, economia… É uma continuação do debate que trouxemos aos leitores brasileiros com a publicação de O Bem Viver, em janeiro.

Descolonizar_teaser_9Com a crise dos governos progressistas – marcada até agora pela derrota do kirchnerismo, pelo impeachment de Dilma Rousseff e pela decadência do chavismo –, Descolonizar o imaginário procura resgatar as tradições, as histórias e os saberes latino-americanos para discutir alternativas. É uma discussão importantíssima para uma região que assiste, atônita, ao ressurgimento de governos escancaradamente identificados com projetos conservadores e neoliberais, como as administrações de Mauricio Macri, na Argentina, e de Michel Temer, no Brasil.

Os textos lançam hipóteses sobre como e por quê, apesar de resultados inéditos na redução da pobreza e da desigualdade, os presidentes da chamada “esquerda latino-americana” não conseguiram eliminar a miséria ou promover mudanças estruturais em seus países. Segundo os autores, a resposta passa justamente pela promessa falida do desenvolvimento, que aprofundou ainda mais nossa dependência de exportações primárias à medida que patrocinou a espoliação territorial e cultural de povos e comunidades tradicionais nas últimas fronteiras da devastação. Conquistou-se o Estado, mas não o poder. E os governos progressistas, assim como os as ditaduras e as gestões neoliberais a quem tanto haviam criticado em suas trajetórias de ascensão, continuaram erroneamente pela trilha enganosa do progresso.

Descolonizar o imaginário conta com artigos de expoentes do novo pensamento latino-americano, como o equatoriano Alberto Acosta, o uruguaio Eduardo Gudynas, o venezuelano Edgardo Lander e a argentina Maristella Svampa, que há anos se dedicam a teorizar sobre alternativas políticas, econômicas e sociais baseadas em uma relação harmônica entre Humanidade e Natureza. A crítica em relação à instrumentalização da Natureza pelo ser humano também dá o tom dos textos assinados por Camila Moreno, Verena Glass, Felício de Araújo Pontes Júnior e Lucivaldo Vasconcelos Barros, que problematizam, em diferentes abordagens, os impactos negativos da inserção subordinada no mercado internacional, da financeirização das questões ambientais e das violações decorrentes de megaempreendimentos.

Maristella Svampa e Eduardo Gudynas enfatizam a necessidade de construções que extrapolem a noção de desenvolvimento, tão cara a determinados governos da região, inclusive aos progressistas, seja partindo das novas gramáticas de lutas sociais da América Latina, seja relacionando algumas propostas para a transição ao pós-extrativismo a partir do Bem Viver. Esse também é o caso do texto escrito por Margarita Aguinaga, Miriam Lang, Dunia Mokrani e Alejandra Santillana, que assinalam como o feminismo pode contribuir com essa discussão, articulando processos de descolonização e despatriacalização. Mario Rodríguez, por sua vez, situa esse debate no ambiente urbano, propondo a reconfiguração das cidades a partir de outros modelos de viver e conviver.

Klaus Meschkat, Ulrich Brand e Edgardo Lander enfatizam o papel do Estado nos processos de transformação, com especial atenção para os desafios e limites relacionados aos governos progressistas. Nesse sentido, o texto de Alexandra Martínez, Sandra Rátiva, Belén Cevallos e Dunia Mokrani aprofunda a discussão sobre as dificuldades de se transformar as instituições, refletindo em particular sobre as experiências na Bolívia, na Colômbia, no Equador e na Venezuela. Por fim, Horacio Machado Aráoz encerra a coletânea atualizando o debate sobre as alternativas ao desenvolvimento com o recente refluxo das forças políticas progressistas que hegemonizaram o continente na última década.

Descolonizar o imaginário pretende, assim, contribuir com o desafio de construir horizontes emancipadores para nosso continente, a partir das necessidades expressas por nossos povos. Os tempos são de urgência: afloram os sinais de falência das propostas políticas que, embora tenham canalizado a esperança da região por algum tempo, resignaram-se a exaurir essa potência caminhando pela linha da menor resistência e pactuando com o poder oligárquico. Pensar “fora da caixa”, reagrupar a energia social do continente, aprofundar nosso horizonte democrático e romper com o modelo primário exportador que nos é imposto desde o sistema colonial certamente são aspectos que constarão de qualquer proposta transformadora para a América Latina — e que está presente no livro.

 


Debate de lançamento
Dia 22 de agosto, às 19h
Debatedoras: Camila Moreno, Dunia Mokrani, Guilherme Mello, Karin Gabbert, Isabel Loureiro e Verena Glass
Mediação: Gerhard Dilger e Jorge Pereira Filho
Auditório da Fundação Rosa Luxemburgo
Rua Ferreira de Araújo, 36, Pinheiros, São Paulo-SP

Memória Ocular em debate
sobre fotografia e política

Quando recebemos o convite da Fundação Rosa Luxemburgo, pestanejamos. Eles estavam organizando o lançamento do livro Cidade em jogo, com belíssimas fotografias das remoções forçadas, da violência do Estado e da resistência popular à gentrificação provocada no Rio de Janeiro durante a preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Cada clique uma denúncia poderosa.

As imagens foram produzidas por fotógrafos populares, que desenvolvem outro tipo de relação com as pessoas, as realidades e as comunidades que se propõem a retratar. Esse foi o tema central do debate “A fotografia como olhar político”, realizado na noite do dia 21 de julho para apresentar o livro na cidade de São Paulo.

O que a Editora Elefante tem a ver com isso? Há pouco mais de um mês, publicamos Memória Ocular, de Tadeu Breda, que conta a história de Sérgio Silva, fotógrafo dedicado à cobertura de movimentos sociais e autônomos que, devido ao seu trabalho nas ruas, foi atingido por uma bala de borracha da Polícia Militar e perdeu o olho esquerdo. Isso ocorreu em 13 de junho de 2013, dia da grande repressão às jornadas de junho em São Paulo.

Memória Ocular aborda a vida de Sérgio Silva e a violência policial contra manifestações a partir de sua perspectiva — a perspectiva de alguém que, ao mesmo tempo, é uma vítima do Estado e registra fotograficamente o drama de pessoas que, como ele, também são vítimas do Estado.

A Fundação Rosa Luxemburgo incluiu Sérgio Silva e Tadeu Breda na conversa com Luiz Baltar, um dos fotógrafos cariocas responsáveis por Cidade em jogo. O resultado foi o bate-papo que vai abaixo, na íntegra, com mediação de Verena Glass. A gravação é obra da Rádio Popular.

 

Há um ano, lançávamos ‘Corumbiara, caso enterrado’


Foi bom demais. Vieram novos e velhos amigos, gente que conhecíamos e gente que desconhecíamos, pessoas que confirmaram presença e pessoas que apareceram de surpresa. Há um ano, lançávamos Corumbiara, caso enterrado. O frio na pança logo deu lugar a uma grande alegria por reunir tantas e tantos interessad@s em trocar ideias.

Depois do evento em São Paulo, tivemos lançamentos em Osasco, em Brasília e em várias cidades de Rondônia – várias mesmo, um montão. Quando mandamos para a gráfica o primeiro livro-reportagem sobre o massacre de Corumbiara, ocorrido exatamente vinte anos antes, não imaginávamos mobilizar tanta gente.

Um ano depois, quase todos os mil exemplares do trabalho de João Peres e Gerardo Lazzari já estão circulando por aí. Parece pouco, mas é muito para o mercado editorial brasileiro e, mais ainda, para uma editora independente que recém retomava suas atividades, após quase quatro anos de intervalo desde O Equador é verde, título que marcou nossa estreia.

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Retomamos fôlego e, felizes com o potencial de um trampo assim, de lá para cá colocamos no mundo mais três filhotes: Cabuloso Suco Gástrico, de Breno Ferreira, uma HQ ácida que só; O Bem Viver, do equatoriano Alberto Acosta, concebido em parceria com a Autonomia Literária; e Memória Ocular, um livro-manifesto de Tadeu Breda sobre Sérgio Silva, o fotógrafo atingido no olho por uma bala de borracha durante as jornadas de junho de 2013.

Na época de lançamento de Corumbiara, caso enterrado, a fervura já andava alta nas rodas políticas e sociais da República. E a gente insistia com o velho lugar comum de que não conhecer a história nos leva a repetir nossos erros. Só não imaginávamos que o bagulho ficaria tão louco. Alguém conseguiria lembrar de 10% de tudo que rolou nestes doze meses? Impossível. Só sabemos que andamos vários passos para trás.

E sabemos também que o desaniversário de vinte anos de outro massacre, o de Eldorado do Carajás, no Pará, passou tão batido quanto as duas décadas do massacre de Corumbiara. Pudera: 17 de abril foi a data em que a Câmara dos Deputados realizou a bizonha sessão que culminou na abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nesse cenário fervilhante, fica difícil olhar para o passado e tentar refletir sobre as zoeiras erradas de nosso mundo. Mas insistimos que essa é uma necessidade muito, muito básica para ser deixada de lado. E continuamos a lançar títulos que tentem, do alto de sua limitação numérica e espacial, contribuir para este propósito. Vem aí Xondaro, uma HQ de autoria de Vitor Flynn, lançada em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, que retrata a luta dos guarani mbya de São Paulo pela demarcação de suas terras.

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