Livro aponta opressão da mulher como sustentáculo do capitalismo

Feminista italiana Silvia Federici, que em julho lança pela Editora Elefante o livro Calibã e a bruxa em São Paulo e no Rio de Janeiro, argumenta que a perseguição, o assassinato e a submissão das mulheres durante a “caça às bruxas” dos séculos XVI e XVII foi tão importante para o desenvolvimento capitalista quanto a escravidão e a colonização

A feminista e historiadora italiana Silvia Federici estará no Brasil para as atividades de lançamento do livro Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva, traduzido colaborativamente pelo Coletivo Sycorax e publicado pela Editora Elefante com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo. A autora, que atualmente leciona na Universidade de Hofstra, em Nova York, participará de bate-papos e palestras no centro e nas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro entre os dias 16 e 23 de julho, com entrada franca.

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Silvia é uma das mais importantes teóricas do feminismo na atualidade, e em sua extensa pesquisa analisa, entre outros aspectos, o trabalho assalariado a partir de uma perspectiva de gênero. Nascida em Parma, na Itália, em 1942, vive nos Estados Unidos desde os anos 1960, onde participou ativamente do movimento contra a guerra e ajudou a fundar o Coletivo Feminista Internacional, que impulsionou a Campanha por um Salário para o Trabalho Doméstico. Nos anos 1980, Silvia passou uma temporada na Nigéria, onde lecionou na universidade de Port Harcourt, acompanhou o movimento de mulheres nigeriano e, ao ver de perto os resultados do ajuste estrutural patrocinado pelo Banco Mundial e pelo FMI sobre os estilos de vida comunitários do país, percebeu a atualidade das teses que expõe em Calibã e a bruxa.

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O livro discorre sobre a violência brutal empreendida contra as mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo na Europa, e sustenta que a “caça às bruxas” relacionou-se diretamente com criação de um novo sistema econômico, forjado na escravidão, na colonização e na exploração e dominação do corpo e dos saberes femininos. O título da obra faz referência a duas personagens shakespearianas — Calibã e sua mãe, Sycorax, uma bruxa — para simbolizar a dimensão sexista e racista que o capital impõe a quem resiste à sua ordem.

Baseada em uma exaustiva pesquisa documental e iconográfica, e em farta bibliografia, Silvia Federici argumenta que o assassinato de centenas de milhares de bruxas foi, juntamente com a submissão dos povos africanos e americanos, um aspecto fundacional do sistema capitalista, uma vez que designou às mulheres o papel de “produtoras de mão de obra”, obrigando-as, pelo terror, a exercer gratuitamente os serviços domésticos necessários para sustentar os maridos e os filhos homens que seriam usados como força de trabalho do sistema nascente.

Nesse sentido, Calibã e a bruxa apresenta um contraponto ao pensamento de Karl Marx sobre a acumulação, afirmando que, em vez de se tratar de um aspecto precursor do capitalismo, a acumulação seria inerente a ele. O livro dialoga ainda com de Michel Foucault, a quem critica duramente por não haver levado em conta em sua História da sexualidade a campanha contra o corpo feminino e o extermínio de centenas de milhares de mulheres na fogueira.

Além de reconhecida produção teórica, Silvia Federici segue vinculada com as lutas feministas contemporâneas e com os desafios impostos pelo capitalismo, que, como podemos atestar diariamente na violência de gênero e nos crescentes índices de encarceramento feminino, por exemplo, continua oprimindo e matando as mulheres, sobretudo na África e na América Latina. A construção de um novo paradigma de sociedade, com base nos “bens comuns” (commons), também integra os temas discutidos por Silvia.

“É preciso criar um tecido social mais forte, capaz de resistir ao que está acontecendo, e também começar a construir novas relações. Começar a implementar novas formas de autogovernar-nos, ter o controle de nossa vida, não apenas nos opormos, mas sim definirmos que tipo de sociedade queremos, como iremos construí-la, o que precisamos de imediato e quais são os objetivos de futuro”, disse Silvia Federici em recente entrevista.

Nesta que será sua segunda visita no Brasil, Silvia Federici irá discutir os principais pontos de seu livro e o protagonismo das mulheres nas lutas sociais, e terá a oportunidade de conhecer e dialogar com as experiências e ações de coletivos e movimentos de mulheres que estão na linha de frente em alguns dos territórios periféricos de São Paulo e Rio de Janeiro.
Confira abaixo a agenda:

RIO DE JANEIRO

Dia 16 de julho – a partir das 11h
Pré-lançamento do livro Calibã e a bruxa e Urgências!
Sede da Cia de Mystérios e Novidades – Rua Pedro Ernesto, 21 – Gamboa

Dia 18 de julho – a partir das 15h
Roda de Conversa e Sarau
Museu da Maré – Av. Guilherme Maxwel, 26 – Maré
SÃO PAULO

Dia 20 de julho – a partir das 18h
Lançamento do libro Calibã e a bruxa
Galeria Olido – Avenida São João, 473 – Centro

Dia 22 de julho – a partir das 14h
Roda de conversa e sarau
Teatro Ventre de Lona – Centro Cultural Arte em Construção
Avenida dos Metalúrgicos, 2.100 – Cidade Tiradentes

Iniciativa
Fundação Rosa Luxemburgo, Goethe Institut, Coletivo Sycorax e Editora Elefante

Parceria RJ
Museu da Maré, CEASM, Instituto PACS

Parceria SP
Pombas Urbanas e Biblioteca Solano Trindade

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