Um livro feito jogo bonito
Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, e diante do eterno debate sobre símbolos e identidades que o jogo nos oferece, a Elefante lança Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol, livro de Fabio Luis Barbosa dos Santos. Trata-se de um ensaio que vai pensar sobre como o futebol dialoga com os sentimentos e imaginários da nação brasileira, desde a ideia de representação da seleção até a apropriação da camisa amarela por grupos políticos. Fabio tem vasta produção aqui na casa, principalmente de olho na política latino-americana (conheça aqui). Segue abaixo a orelha do livro, em pré-venda no nosso site:
“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”, escreveu Nelson Rodrigues. Não podia haver melhor epígrafe para Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol. Em um ensaio instigante sobre o esporte mais amado do país, Fabio Luis Barbosa dos Santos olha bastante para a bola, claro, mas não se distrai daquilo que acontece em torno do jogo. O livro é dividido em cinco partes.
Na primeira, “Futebol de poesia”, o autor se dedica ao saudoso futebol-arte, relembrando a Seleção de 1982, treinada por Telê Santana e liderada por Sócrates. De acordo com Fabio Luis, a derrota daquele time encantador para a Itália na Copa da Espanha foi o começo do fim do futebol ofensivo jogado pelo Brasil desde os tempos de Pelé e Garrincha — um estilo que, mais do que produzir jogadas bonitas, era uma promessa civilizatória. No lugar dele, inclusive por pressão da própria torcida, sedenta de títulos, passamos a priorizar a retranca e o resultado.
Na segunda parte, “Futebol espetáculo”, Fabio Luis problematiza o papel da Fifa e a europeização do futebol mundial, que assim entrou em sua fase mais mercadológica. As regras instituídas para deixar o futebol menos moleque e mais objetivo são duramente criticadas pelo autor. Aqui, o VAR é visto não como solução tecnológica para conferir mais justiça aos resultados, e sim como signo maior da atualidade futebolística, cujos jogos se resolvem cada vez mais na bola parada e no apito — quando não nos tribunais desportivos.
“Futebol ajustado”, a terceira parte, discute os últimos suspiros da hegemonia brasileira no futebol, relembrando as derradeiras Copas vencidas pela Seleção, em 1994 e 2022, antes de entrar em queda livre. Nesta seção, Fabio Luis aborda também o futebol de clubes, e analisa as razões que levaram os times sul-americanos a se tornarem tão inferiores quando comparados aos europeus. Por que se tornou impossível, hoje, levantarmos a taça de um mundial interclubes?
Na quarta parte, “Futebol frustrado”, o autor comenta o fundo do poço do futebol canarinho: a eliminação diante da Alemanha por 7 a 1 na semifinal da Copa de 2014, realizada no Brasil — episódio que, em suas palavras, promoveu uma “aceleração do tempo histórico”. De maneira instigante, Fabio Luis aponta ainda as diferenças entre as derrotas de 2014, no Mineirão, e 1950, no Maracanã.
Finalmente, em “Futebol como aposta”, Fabio Luis estabelece paralelos entre a realidade do futebol no Brasil e na Argentina (onde a decadência dos clubes até agora não foi acompanhada pela derrocada da seleção nacional) e com as características sociais do rugby da África do Sul, além de encarar o fenômeno das bets — outro sinal dos tempos, quando a financeirização do futebol transbordou times, marcas e patrocinadores e entrou na rotina dos torcedores.
Ao contrário do que recomenda o dito popular, Saudades do que nunca fomos foi escrito justamente para misturar e discutir política e futebol. De acordo com Fabio Luis, as mudanças pelas quais passou o esporte estão intimamente relacionadas às transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que atravessaram o país e o mundo desde que o foot-ball foi introduzido pelos ingleses que vieram trabalhar nas ferrovias. Da mesma forma, a recuperação de um estilo próprio ao futebol brasileiro, capaz de encantar os torcedores e oferecer uma alternativa à lógica do dinheiro e do resultado, só será possível se a realidade mudar também fora de campo.
Enquanto isso, estaremos condenados a ver nossos craques deixando o país cada vez mais cedo, feito commodities em busca de aprimoramento e valorização, e jogadores muito mais interessados em alavancar a própria carreira do que em se consagrar pela Seleção. Em um mundo futebolístico marcado por cabelos muito bem cortados, roupas finas, carrões, fé cristã e picanhas folheadas a ouro, a leitura de Saudades do que nunca fomos se assemelha a um raro jogo bonito: ao abrirmos o livro, a nossa atenção é totalmente absorvida, não vemos o tempo passar, e, quando acaba, fica um gostinho de quero mais.











