Abolir a família — podemos criar filhos de forma política?

Elefante está lançando Outra gravidez é possível: feminismo contra a família, de Sophie Lewis, em pré-venda com desconto em nosso site — ficha completa aqui. Segue um trecho inicial da parte chamada ‘Abolir a família’, presente no capítulo 5 do livro.

Hoje, a burguesia tende a fazer sua “própria” amamentação — mas o que significa mesmo a palavra “própria”? Vimos antes como a transação inaugural da estrela mundial da barriga de aluguel clínica constituiu uma missão para salvar um matrimônio tradicional fundando uma família apropriada por meio de um acordo incestuoso mediante o qual a gestante substituta deu à luz os próprios netos. Portanto, para levar a cabo uma crítica revolucionária da barriga de aluguel, temos que questionar sua relação com a noção de parentesco natural (ao mesmo tempo que criticamos essa noção). Embora os temas em questão sejam formados por partes em movimento que não podem ser consideradas realmente distintas, os casos de violação dos direitos humanos no âmbito da reprodução assistida são muito menores — em qualquer medida — que os casos registrados no âmbito da família natural.

Sem dúvida, não se pode afirmar que a mercantilização das crianças seja do domínio “tecnológico”. Em seus estudos sobre mulheres heterossexuais grávidas, Janelle Taylor descobriu que o feto se torna uma mercadoria comercial na cabeça das pessoas, independentemente de a gravidez ser comercial ou não. Certamente sob o capitalismo, ela observa, a “mercantilização está inextricavelmente ligada à personificação” (Taylor, 2004, p. 209). A recompensa que a gravidez capitalista promete é que seu fruto, segundo explica Firestone (2015, p. 232), “é um bebê todo seu para poder estragar como quiser”. Embora anteriormente fosse um conjunto de crianças, escravizados e docentes e agora seja uma microfábrica de devedores, a “família”, francamente, já é uma droga — o que não quer dizer que a mera ausência dela na vida das pessoas não acabe por ser pior no curto prazo. “Um esforço puramente negativo para destruir a família simplesmente resultará em crianças mortas de fome” (Griffiths & Gleeson, 2015).

Durante décadas, tanto no âmbito da arte quanto na burocracia, pesquisadoras da história feminista tiveram amplo acesso aos arquivos que registravam o tipo de experiência que o costume de viver em casas privadas junto a parentes naturalizados gerou para a humanidade em geral. A história sonolenta do denominado bioparentesco “não assistido” mostra estatísticas, poemas, canções, panfletos e romances que detalham desconforto, coerção, violência sexual, abuso, humilhação, depressão, violência física, assassinato, mutilação, solidão, chantagem, exaustão, psicose, imposição de camisa de força de gênero, programação racial e aburguesamento. A família privada é a sede de tudo isso. No que diz respeito à montanha de evidências disponíveis, a forma natural claramente privilegia a criação de bebês como mascotes pessoais, muletas psíquicas, herdeiros, bodes expiatórios e fetiches, além de avatares do sexo binário. As provas são bastante claras, e os fundamentos da nossa difundida “exuberância irracional por bebês” (Gabilongo, 2007) são difíceis de compreender.

O filósofo Nietzsche colocou a seguinte explicação na boca de Zaratustra, replicando a Dor: “‘Quero herdeiros’, diz tudo o que sofre. ‘Eu quero filhos, não quero a mim mesmo’” (Nietzsche, 1977, p. 434). Cada vez mais, com Friedrich Nietzsche e Rebekah Sheldon, não temos escolha a não ser entender essa compulsão para a autodestruição reprodutiva como a depressão profunda e sublinhada de um mundo em meio a uma catástrofe ecológica. Como sugere Elizabeth Freeman, “as árvores genealógicas não explicam como se deve agir como enfermeira, como visitar os enfermos ou como cuidar dos idosos” (Freeman, 2007, p. 308) — ou, nesse caso, como cuidar das pessoas queer. Entretanto, com Sheldon, temos que ir além do fato de que “não é suficiente renunciar ou condenara criança” (Sheldon, 2016). Seguindo José Esteban Muñoz (2009, p. 92), temos que dizer: “Da mesma forma como rejeito fortemente o futurismo reprodutivo, recuso-me a desistir de conceitos como política, esperança e um futuro que não seja infantil”.

Mas será que existe uma forma queer de ser pai?, pergunta Shelley Park (2009). Ou, o que quer dizer o mesmo, podemos criar filhos de forma política, com esperança, sem reprodução — apoiando-nos na camaradagem? Será que os seres humanos podem colocar em prática essa forma de “reprodução contrassocial”, um modo de “reprodução social contra a reprodução do social” (Hester, 2018, p. 64)? Para descobrir, talvez tenhamos que assumir que a resposta é “sim”. Certamente, as “técnicas de dependência e renovação” (Hester, 2018, p. 298) por meio das quais substituiremos o parentesco terão de ser radicais e implacavelmente antinaturais. O cuidado terá que assumir protagonismo, deixar de ser um ator secundário na vida social. Segundo a formulação de Helen Hester:

Xenofamília ≥ biofamília — a ideia de que as famílias abertas à alteridade e sintetizadas pelas diferenças correspondem ou excedem àquelas baseadas apenas na coincidência genética — vai na direção certa, desde que adicionemos a advertência explícita de que as chamadas “relações de sangue” podem ser xenofamiliares por meio de uma orientação contínua para a solidariedade prática. (Hester, 2018, p. 65)

 

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Foto: Aysegul Aytoren / Pexels

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