Movimentos tentam inviabilizar debates sobre Corumbiara, caso enterrado em Porto Velho

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Um setor reduzido do movimento estudantil rondoniense tentou inviabilizar os dois debates sobre Corumbiara, caso enterrado realizados na segunda-feira, 21 de setembro, nos campi do Instituto Federal de Rondônia (Ifro), na zona norte de Porto Velho, e da Universidade Federal de Rondônia (Unir), no centro da capital.

Com bandeiras, gritos de guerra e um arsenal bem ensaiado de certezas, os militantes – munidos da crença dogmática de que o livro-reportagem fora encomendado pelo PT para atacar uma organização que apoiam, a Liga dos Camponeses Pobres – interditaram qualquer discussão séria e aprofundada sobre o conteúdo da obra e passaram para o ataque direto contra seu autor, João Peres, tido como marionete do governo federal.

A estratégia dos jovens do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) contou com a conivência e participação de alguns professores do Ifro e da Unir, que ou ajudaram a entoar os vários mantras ideológicos que constrageram a plateia ou os aprovavam, quando não diretamente, com desbragados sorrisos e fotografias.

Os momentos mais embaraçosos puderam ser observados na Unir Centro. No Ifro, pouco antes, uma mesa de debates mais plural, com um repesentante do Ministério do Desenvolvimento Agrário e um professor de Geografia Agrária, além de uma tropa de choque estudantil reduzida, diluiu a algazarra. Na Unir, porém, o que deveria ter sido mais um lançamento de Corumbiara, caso enterrado promovido pela seção rondoniense da Associação Nacional de História (ANPUH) se transformou num ato de desagravo à Liga dos Camponeses Pobres.

Os exemplares ficaram esmagados num cantinho do auditório tomado por jornais e bandeiras da organização — cujos membros, movidos por sabe-se lá quais interesses, se veem alucinadamente como personagens centrais do livro e vítimas de uma campanha de criminalização conduzida por seu autor. Durante o evento, foram distribuídas cópias de um panfleto intitulado Crítica ao livro “Corumbiara caso enterrado” de João Peres/PT, que merecerá resposta específica da Editora Elefante.

Além de João Peres, a mesa de debates foi formada apenas por ativistas da organização, que fizeram uma tabelinha com a claque estudantil ao longo de três horas na tentativa de deslegitimar o livro não pelo seu conteúdo – uma vez que alguns confessaram sequer tê-lo lido – mas pelo que acreditam que ele representa: um delírio.

As perguntas repetitivas, que desconsideravam totalmente as respostas do autor, emulam uma desgastada tática do movimento estudantil bastante comum em assembleias universitárias: quando uma organização política toma a palavra e martela uma certeza até convencer a plateia – pelo grito e pelo cansaço, não pelos argumentos – com o objetivo de vencer a votação no final. É um roteiro bastante conhecido.

Não houve, porém, contabilização de votos. E a oportunidade de discutir com profundidade e pluralidade política a história e os desdobramentos do caso Corumbiara, a violência no campo, as relações promíscuas entre os poderes político e econômico e a transição incompleta do Brasil à democracia perdeu-se numa falsa, barulhenta, desgastante, inútil e pouco racional dicotomia entre mocinhos e bandidos que o livro tanto condena.

Autor de Corumbiara, caso enterrado
é recebido pelo bispo emérito de Ji-Paraná

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Um dos pontos altos de nossa passagem por Porto Velho foi o breve — porém intenso — encontro que tivemos na manhã de segunda-feira, 21 de setembro, com o bispo emérito de Ji-Paraná, Dom Antonio Possamai, de 86 anos, reconhecido defensor dos direitos humanos e apoiador dos trabalhadores na luta pela terra na região central de Rondônia.

Dom Antonio nos recebeu com carinho e interesse numa arejada residência no centro da capital, onde vive desde que se aposentou como líder da igreja ji-paranaense. Em agradecimento pela prosa, o autor de Corumbiara, caso enterrado, João Peres, presenteou o religioso com um exemplar do livro-reportagem que conta a história e os desdobramentos do conflito que deixou ao menos doze mortes no sul do estado em 1995.

É um tema que Dom Antonio conhece desde seus antecedentes. “Quando vim pra Rondônia, predominava a floresta. Chegavam caminhões carregados de migrantes. O Incra prometia muito, mas cumpria pouco. O povo teve necessidade de se organizar, mas o latifúndio avançou. Virou tudo pasto e o gado se instalou.”

À frente da diocese de Ji-Paraná entre 1983 e 2007, Dom Antonio se lembra claramente de quando as tensões sociais que predominavam no campo rondoniense desembocaram nas mortes de Corumbiara. “Condenamos o massacre dentro e fora da Igreja. Houve comunhão e apoio em toda a comunidade”, relatou. “Muita gente se dirigiu até lá para prestar sua solidariedade às vítimas.”

O bispo lamentou, porém, a lentidão do Estado em prestar assistência aos sobreviventes. “Até hoje o povo está na pior. Muitos dos que foram assentados em Theobroma, que faz parte da diocese de Ji-Paraná, precisavam de tratamento psicológico.”

Vinte anos depois do ocorrido, Dom Antonio analisa que a realidade rural rondoniense continua violenta. Para além dos números da Comissão Pastoral da Terra, que colocam Rondônia entre os estados com mais mortes no campo, atrás apenas do Pará, o religioso não nutre ilusões.

“Essa violência toda não parou e não vai parar, porque o povo não se conforma com tanta injustiça na distribuição de terras e os fazendeiros estão prontos para o conflito, com seus pistoleiros”, pontua. “O capital brasileiro é selvagem — e conta com a proteção do poder político. À medida que o povo cria a consciência de que tem direito à vida e à terra, passa a não aceitar que alguns poucos tenham tanta terra enquanto tantas pessoas não têm nada.”

Parte da responsabilidade pelo fortalecimento dos movimentos camponeses em Rondônia se deve ao trabalho pastoral de Dom Antonio, que desembarcou em Ji-Paraná depois de servir em Santa Catarina e no Recife. “Não tínhamos nenhuma orientação prévia da Igreja. Fomos aprendendo com o povo, cujo sofrimento nos fez criativos. Passamos a apoiar suas reivindicações”, recordou. “Não adianta ter fé se você não combate a injustiça e a violência, se você não se posiciona a favor da luta dos sem-terra.”

Estudantes e professores de Jornalismo sabatinam autor de Corumbiara, caso enterrado em Porto Velho

Os constantes blecautes de Porto Velho e uma sexta-feira de calor não conseguiram espantar os alunos do curso de Jornalismo da União das Escolas Superiores de Rondônia (Uniron), que na sexta-feira, 19 de setembro, compareceram em peso ao auditório localizado no campus Shopping para debater Corumbiara, caso enterradomesmo em meio a mais um corte de fornecimento de energia elétrica na capital que sedia duas das maiores hidrelétricas do Brasil — Jirau e Santo Antônio.

O livro-reportagem da Editora Elefante está manjado: circula pelos corredores da universidade desde que foi lançado, no último 20 de julho, o que fez com que alunos e professores estivessem afiados nas reflexões a respeito do chamado “massacre de Corumbiara”, fato central do trabalho do jornalista João Peres. O formato de mesa-redonda privilegiou, num primeiro momento, intervenções dos docentes, e em seguida os estudantes puderam fazer comentários e perguntas, numa proposta feita pela professora Cristiane Paião, uma das organizadoras do evento, para priorizar a troca de ideias.

As questões foram variadas. Muitos quiseram saber sobre os bastidores da apuração, especialmente a respeito de ameaças e intimidações. Outros abordaram as dificuldades de levar adiante iniciativas de jornalismo independente no Brasil, particularmente em Rondônia. Como em outras ocasiões, surgiram perguntas sobre como um profissional de São Paulo se interessou por um caso tão distante geograficamente.

Em nota publicada na página da Uniron, a professora Marcela Ximenes ressaltou que o evento é necessário para que os alunos de Jornalismo conheçam, durante a formação acadêmica, o ambiente da grande reportagem. “Os alunos vão ter contato com um escritor que se aprofundou no caso, muito mais que os próprios veículos de comunicação da época. Poderão entender que uma história não tem só um ou dois lados, e sim vários”, comenta.

Ouro Preto do Oeste e Ariquemes debatem Corumbiara, caso enterrado

Dois debates com alunos e integrantes de movimentos sociais fecharam o tour de Corumbiara, caso enterrado pelo interior de Rondônia. Em Ouro Preto do Oeste, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais foi o espaço escolhido para a conversa da última quarta-feira, 16 de setembro. Em Ariquemes, o encontro foi realizado no Núcleo de Desenvolvimento Territorial do Vale do Jamari.

Ouro Preto esteve na rota da Editora Elefante por ter sido um dos eixos de formação de movimentos sociais de reforma agrária em Rondônia. A cidade, localizada no centro do estado, foi uma das primeiras a receber projetos de distribuição de terras pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (Incra) durante a ditadura.

No sindicato, o autor do livro, João Peres, expôs o processo de produção do trabalho e respondeu a perguntas sobre dificuldades na apuração. O público ressaltou entraves na questão agrária em Rondônia, em especial na relação com o Poder Judiciário, e cobrou a necessidade de mudanças para que a terra deixe de ser apenas um espaço de especulação por grandes proprietários.

Na quinta-feira, 17 de setembro, a Editora Elefante desembarcou em Ariquemes para uma conversa com alunos de escolas estaduais e do Instituto Federal de Rondônia (Ifro). O debate abordou as relações entre o caso de Corumbiara, ocorrido em 1995, e a situação atual do estado, que figura sempre entre os “campeões” de mortes violentas no campo.

Corumbiara é debatido com universitários e professores indígenas em Ji-Paraná

Corumbiara, caso enterrado passou pela segunda maior cidade de Rondônia com dois eventos marcantes. Na terça-feira, 15 de setembro, o livro-reportagem foi debatido no auditório da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) em Ji-Paraná, que recebeu cerca de 250 pessoas. No dia seguinte, os indígenas matriculados no curso de licenciatura intercultural da Universidade Federal de Rondônia (Unir) receberam o autor do trabalho, João Peres, e o coordenador editorial da Editora Elefante, Tadeu Breda, para um bate-papo.

Na Ulbra, João Peres abordou algumas passagens do chamado “massacre de Corumbiara” que evidenciam a subordinação do poder público aos interesses econômicos dos grandes fazendeiros de Rondônia. O ponto central são as pressões do latifundiário paulista Antenor Duarte do Valle sobre o Judiciário e o Executivo rondonienses para que dessem rápido cumprimento à ordem de reintegração de posse da fazenda Santa Elina, no Cone Sul do estado, ocupada em julho de 1995 por famílias sem-terra.

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Depois, o microfone ficou aberto para intervenção livre da plateia. Dirigentes sindicais, integrantes de movimentos sociais, universitários, funcionários do Incra, advogados e indígenas fizeram uso da palavra e enriqueceram o debate com suas experiências e pontos de vista sobre a violência no campo. Vários deles recordaram outros episódios que evidenciam a submissão de atores do Estado ao poder financeiro.

Na Unir, na quarta-feira, 16 de setembro, os alunos da licenciatura intercultural se reuniram para uma conversa com o autor sobre as relações entre a violência contra sem-terra e indígenas. O curso reúne representantes de mais de vinte nações indígenas de Rondônia, Mato Grosso e Amazonas, e tem como objetivo a formação de professores habilitados a atender às demandas educacionais de seus povos.

O autor recordou que, no mesmo local em que em 1995 morreram doze pessoas durante reintegração de posse pela Polícia Militar, cerca de dez anos antes foram assassinados indígenas dos povos Kanoé e Akuntsun, num caso que começou a ser desvendado apenas depois do episódio envolvendo a ocupação de posseiros na fazenda Santa Elina. Ninguém foi punido pelas mortes, que chegaram a ser contestadas pela bancada ruralista no Congresso Nacional.

“Às vezes a gente fala e parece que está tudo bem. Mas não está”, disse Celso, do povo Caxarari que mora em Extrema, distrito de Porto Velho próximo da divisa com o Acre. Ele disse que a população local tornou mais intenso um processo de hostilidade depois que os indígenas decidiram promover a retomada de suas terras tradicionais. “Vai no mercado, a gente ouve o povo falando que tem que matar indígena. Vai no posto, é igual. Acontecem brigas que vão evoluindo. A gente não vai ouvir mentira e aceitar como se fosse verdade.”

A pesquisadora Renata Nóbrega, mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), afirmou que é preciso romper com a visão de que as questões indígena e sem-terra não têm semelhanças. “Infelizmente, não é uma excepcionalidade. A linguagem da violência é a maneira como o Estado se relaciona com quem ele considera menos gente, ou não gente.”

Alguns dos alunos mostraram timidez em fazer relatos públicos sobre as histórias de seus povos, mas outros fizeram questão de registrar episódios de violência ignorados pelos órgãos públicos. Anderson Uraan, do povo Suruí de Cacoal, no centro de Rondônia, recordou que o estado teve um processo de ocupação acelerado que ignorou a existência dos povos originários. “Em algumas situações colocam que a gente e os sem-terra são grupos diferentes. Não são. A gente precisa unir os movimentos.”

Corumbiara, caso enterrado inaugura curso da Federal de Rondônia em Rolim de Moura

Corumbiara, caso enterrado é novinho, mas já está metido a besta. O livro-reportagem foi mote da aula inaugural da licenciatura em Educação no Campo da Universidade Federal de Rondônia (Unir) em Rolim de Moura, na região central do estado. O auditório do campus ficou cheio que só na noite da última segunda-feira, 14 de setembro, quando os estudantes da nova graduação se encontraram pela primeira vez.

Integrantes de movimentos sociais destacaram a importância do curso, fruto de mobilização de professores de Educação e História da Unir de Rolim de Moura, atendendo a uma antiga reivindicação dos próprios movimentos. O propósito é a formação de professores e professoras entre assentados e acampados da reforma agrária, ribeirinhos, pequenos agricultores, remanescentes de quilombolas, indígenas, seringueiros e pescadores.

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O autor de Corumbiara, caso enterrado fechou a noite ao lado do professor de História da Unir, Carlos Trubiliano. A turma estava tão animada que ignorou o horário avançado da prosa, que foi até quase chegada a madrugada. João Peres destacou o caso de Corumbiara como um exemplo bem acabado de subordinação do Estado ao poder econômico. E relatou várias passagens do episódio que mostram como Judiciário e Executivo foram pressionados a atender rapidamente ao pedido de fazendeiros.

Em julho de 1995, famílias sem-terra do sul de Rondônia ocuparam a fazenda Santa Elina, em Corumbiara. De imediato, o juiz determinou a reintegração de posse da área, sem conhecer a posição dos posseiros. No intervalo entre a expedição do mandado e o efetivo cumprimento pela Polícia Militar, líderes dos latifundiários locais cobraram o governador Valdir Raupp (PMDB), o magistrado Glodner Pauletto e o comandante da Polícia Militar, o então major José Ventura Pereira.

A operação de reintegração, levada a cabo em 9 de agosto de 1995, resultou em doze mortes – nove sem-terra, dois policiais e um rapaz não identificado. Cinco anos mais tarde, três policiais e dois líderes da ocupação foram condenados, num desfecho até hoje contestado por advogados das duas partes. Um fazendeiro vizinho à Santa Elina, Antenor Duarte do Valle, chegou a ser acusado de contratar um exército de pistoleiros que matou o sem-terra Sérgio Rodrigues Gomes, mas não foi levado a julgamento.

Se Corumbiara é um episódio-chave para a sociedade rondoniense em geral, tem um papel ainda mais importante para os futuros graduandos da licenciatura em Educação no Campo, que terá a incumbência de levar informações para um público que até hoje sofre consequências da falta de diálogo sobre a questão agrária. Durante o evento, muitos dos presentes destacaram a necessidade de conhecer a história para que se evite a repetição de episódios violentos e lembraram que continuam surgindo exemplos de subordinação do Estado ao poder econômico.

A primeira turma do novo curso tem 120 alunos, selecionados entre 450 que prestaram exame vestibular. Ao longo dos próximos quatro anos, eles revezarão o tempo entre as comunidades de origem e as aulas presenciais da Unir. Os professores devem se deslocar até assentamentos, comunidades ribeirinhas e outros espaços do interior de Rondônia para conversar com os alunos e conhecer o contexto em que vivem.

Em Cacoal, estudantes se reúnem para conhecer Corumbiara, caso enterrado

Estudantes da Escola Estadual Josino Brito e do Instituto Federal de Rondônia (Ifro), em Cacoal, se reuniram para conhecer Corumbiara, caso enterrado. Cerca de duzentos alunos e professores das duas instituições conversaram na manhã de segunda-feira (14) com o autor do livro-reportagem, João Peres, para relembrar o conflito agrário mais grave já ocorrido no estado — e um dos mais importantes já vistos no Brasil.

Para a grande maioria dos presentes, foi a primeira oportunidade de tomar contato com o chamado “massacre de Corumbiara”, ocorrido há vinte anos no Cone Sul de Rondônia durante tentativa de reintegração de posse, com doze mortes. A conversa abordou as conexões entre o caso e situações do presente, tanto diretamente, com cenas de violência em zonas rurais, como indiretamente, com o alto índice de homicídios registrado todos os anos no país.

Os alunos levantaram uma série de questões relativas ao livro e à questão agrária. Durante cerca de duas horas, a conversa passou pela discussão sobre a legalidade da ocupação de terras, a aceitação da violência como instrumento de mediação social e os motivos de se fazer um trabalho aprofundado a respeito do caso de Corumbiara.

Sobre as tentativas de deslegitimar Corumbiara, caso enterrado

Ao menos três veículos de imprensa de Rondônia publicaram em 9 e 10 de setembro texto que traz informações inverídicas sobre mim e sobre meu livro Corumbiara, caso enterrado. A suposta análise, trazida em nota apócrifa pelo Rondônia Atualidades, com reproduções na Folha de Vilhena e no News Rondônia, busca associar-me ao PT e à Central Única dos Trabalhadores (CUT) na tentativa de desmerecer algumas passagens do livro-reportagem sobre a história e os desdobramentos do conflito agrário ocorrido no Cone Sul de Rondônia em 9 de agosto de 1995. É estarrecedor que o jornalismo ainda seja utilizado (até quando?) como instrumento para tentar proteger determinados interesses (quais?) mediante ataques a reputações.

Tenta-se jogar por terra um trabalho produzido ao longo de três anos, e que busca refletir as várias versões em torno do chamado “massacre de Corumbiara”. Curioso notar que repórteres de vários veículos rondonienses — inclusive da Folha de Vilhena — estiveram presentes em dois eventos realizados em 12 de setembro, em Vilhena, a respeito do livro: uma palestra durante o 1º Encontro dos Comunicadores do Cone Sul, na Câmara dos Vereadores, e um debate com alunos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Rondônia. Nos dois momentos, Osias Labajos Garate, responsável pela Folha de Vilhena, fez questão de tomar o microfone e elogiar publicamente meu trabalho e minha “coragem” em realizá-lo. Em nenhum momento me procurou para conversar sobre minha suposta vinculação à CUT e ao PT.

Para evitar mal-entendidos que já começam a circular por conta do texto, reproduzo e questiono, abaixo, as ilações publicadas por estes veículos.

O que diz o texto:

Jornalista da CUT-SP vem a Rondônia lançar livro sobre o Massacre de Corumbiara

O que digo:

De onde se extraiu a informação “jornalista da CUT”? A julgar pelo texto, a informação inverídica vem de meu antigo emprego como editor-chefe da Rede Brasil Atual, saite mantido com recursos de sindicatos filiados à CUT. Não tenho nem nunca tive qualquer conexão com a CUT. Não pertenço nem nunca pertenci aos quadros da CUT. O leitor teria sido poupado da desinformação se os jornalistas de Rondônia Atualidades, News Rondônia ou Folha de Vilhena tivessem se dado ao trabalho de conversar comigo. Desafio os três saites a comprovar minha relação com a central sindical.

O que diz o texto:

O livro já foi lançado em São Paulo, em Osasco, na Igreja N. S. Aparecida, no dia 1º de maio deste ano. O evento, segundo a Editora Elefante, contou com a presença de autoridades e lideranças políticas do PT e da CUT/SP, Douglas Izzo, o deputado federal Valmir Prascidelli (PT-SP), a vereadora de Osasco, Mazé Favarão (PT) e o secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy.

O que digo:

Corumbiara, caso enterrado foi oficialmente lançado em 20 de julho, na cidade de São Paulo, num espaço cultural conhecido como Ateliê do Gervásio. Antes, havia sido convidado para participar de um debate sobre os vinte anos do caso Corumbiara organizado pela CUT, familiares de vítimas e setores da Igreja católica no salão paroquial da Igreja de Nossa Senhora Aparecida. Aceitei o convite com o maior prazer. O evento ocorreu em 1º de agosto — e não em 1º de maio, como diz o texto. Na ocasião, além de apresentar o livro aos presentes, debati a questão com parlamentares petistas e líderes sindicais da CUT. A mesa redonda contou ainda com a presença de Gilmar Mauro, membro da coordenação nacional do MST. Infelizmente, o secretário de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, Eduardo Suplicy, não pôde comparecer.

O que diz o texto:

O jornalista João Peres ironiza os rondonienses, sobretudo os jornalistas e historiadores, ao afirmar na introdução do livro que ‘Rondônia tem pouca historiografia, e menos ainda jornalismo aprofundado’.

O que digo:

Trata-se de constatação, e não de ironia. Quantos são os livros publicados sobre a história de Rondônia? Quais os veículos de comunicação de Rondônia que praticam jornalismo aprofundado? Durante todas as 304 páginas de Corumbiara, caso enterrado, os rondonienses são tratados com extremo respeito. A frase foi pinçada do livro e retirada totalmente de contexto. O texto sequer se dá ao trabalho de citar que meu trabalho e o livro foram saudados por jornalistas e radialistas de Vilhena — inclusive pelo próprio diretor da Folha de Vilhena, Osías Labajos Garate, um dos veículos que reproduziu o texto apócrifo do Rondônia Atualidades — em duas oportunidades: no 1º Encontro dos Comunicadores do Cone Sul de Rondônia e na Universidade Federal de Rondônia.

O que diz o texto:

O autor acaba por isentar o PT pela sua relação com os órgãos oficiais de imprensa para qual trabalho: a CUT/SP através da Editora Gráfica Atitude. A Editora, de propriedade de Sindicatos Cutistas, recentemente foi denunciada por receber recursos de Vaccari Neto em desvio de recursos da Petrobrás.

O que digo:

Novamente, afirmo que não tenho qualquer relação com a CUT. Novamente, afirmo que trabalhei na Rede Brasil Atual, veículo de comunicação mantido pela Editora Gráfica Atitude e financiado por sindicatos filiados à CUT, por cinco anos e meio: três anos como repórter e dois anos e meio como editor-chefe. Durante esse período, realizei um trabalho crítico — e do qual muito me orgulho. Talvez o autor do texto apócrifo não saiba, porque tampouco se deu ao trabalho de querer saber, que fui sumariamente demitido da Rede Brasil Atual em 18 de novembro de 2014 precisamente porque me opus a uma virada editorial que passou a proibir críticas ao PT ou ao governo federal. Três colegas de redação, que igualmente resistiram aos desmandos da CUT, sofreram a mesma punição. Em novembro de 2014 publicamos uma carta aberta em que relatamos a questão: https://passaralhopolitico.wordpress.com/2014/12/01/o-passaralho-politico-da-rede-brasil-atual/

O autor do texto tem todo o direito de achar que eu “isentei” o PT de responsabilidade pela reparação as vitimas do caso Corumbiara. Mas não tem direito de afirmar que esse meu comportamento — que não passa de infundada suposição — se deve à minha inexistente “relação com orgãos oficiais de imprensa para qual trabalho” (sic). A Folha de Vilhena, o Rondônia Atualidades e o News Rondônia ainda se esmeram em ligar meu nome às denúncias de corrupção imputadas à Editora Gráfica Atitude e a João Vaccari Neto. Terão de provar tal “relação”.
Críticas ao livro Corumbiara, caso enterrado são mais que bem-vindas. Mentiras sobre mim, porém, serão permanentemente refutadas. Numa época de crise profunda do sistema de representação política brasileiro, o texto apócrifo tenta reduzir a uma rasteira disputa partidária os anos de trabalho, viagens, pesquisas documentais e mais de 70 entrevistas que realizei com a intenção de contar essa “história enterrada” da maneira mais completa possível — como nunca antes havia acontecido, nem dentro, nem fora de Rondônia. É extremamente injusto comigo, com todos os que colaboraram com o livro e com a memória camponesa do estado — além de ser uma tremenda perda de tempo — tentar desmerecer Corumbiara, caso enterrado não pelo que ele é, pelas informações que traz e pela narrativa que constrói, mas por minha fictícia vinculação com uma central sindical e um partido investigados por desvios de verbas públicas. A pergunta que se faz ao Rondônia Atualidades, à Folha de Vilhena e ao News Rondônia é: por que fazer isso?, em nome de quê?, de quem?

Jornalistas de Vilhena aplaudem
Corumbiara, caso enterrado

A turnê rondoniense de Corumbiara, caso enterrado realizou em Vilhena dois debates sobre o conflito agrário ocorrido há vinte anos no sul do estado e suas relações com a imprensa regional. Nesta sexta-feira, 11 de setembro, o autor João Peres palestrou no 1º Encontro dos Comunicadores do Cone Sul de Rondônia, realizado na Câmara dos Vereadores de Vilhena, e participou de debate no campus vilhenense da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

“Vamos fechar nosso encontro com chave de ouro – ou melhor, de diamante – com a presença do jornalista João Peres”, anunciou o mestre de cerimônias do parlamento municipal antes de passar a palavra ao autor de Corumbiara, caso enterrado. Cerca de 40 jornalistas e radialistas rondonienses assistiram à conferência.

O autor explicou por que se deslocou de São Paulo para investigar e escrever sobre o episódio, que deixou ao menos doze pessoas mortas aoós operação de reintegração de posse na fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara, em 9 de agosto de 1995. João Peres agradeceu a “recepção calorosa” que o livro vem recebendo dos rondonienses. Foram mais de três anos de trabalho na tentativa de juntar as “pontas soltas” de um dos capítulos mais tristes da redemocratização brasileira.

De acordo com o autor, porém, ainda existem muitos buracos a serem preenchidos para que se possa elucidar a história e os desdobramentos do caso Corumbiara. “Espero que algumas pessoas envolvidas no episódio, principalmente policiais militares e o então governador de Rondônia, Valdir Raupp, hoje senador, resolvam falar”, manifestou. “Eles possuem informações que ainda não são conhecidas – e que são necessárias para preencher lacunas.”

João Peres comparou a atenção que a grande imprensa brasileira dedicou ao caso em 1995 — com extensas reportagens publicadas na revista Veja e nos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo — ao imenso descaso dos veículos de comunicação do país vinte anos depois. “É um dos sinais da decadência do jornalismo no país”, avalia, lembrando que nenhum veículo de comunicação de alcance nacional recordou o vigésimo aniversário do episódio.

Mais tarde, no auditório da Unir, João Peres participou de debate com o jornalista de Vilhena Sandro Vieira, egresso da instituição, e mais dois sobreviventes do conflito. Um deles, seu Natalino, lavrador que carrega no rosto as sequelas da violência física e psicológica que sofreu nas mãos de policiais e jagunços, emocionou a plateia. “Tou vivendo de uma aposentadoria que fizeram pra mim, mental. As pessoas cuidam de mim feito bebê.”

Assim que pegou o microfone, seu Natalino começou a relatar o que viu naquela madrugada de pavor. Não poupou ninguém. Disse que, quando a situação se agravou e a incursão policial era iminente, sentiu uma vontade imensa de fugir do acampamento. Mas foi obrigado pelos líderes dos sem-terra a permanecer na área. Sentiu medo de morrer, como muitos de seus companheiros. “Dói no coração ver o sangue dos nossos posseiros derramados na terra.”

Natalino afirmou que não tem nada contra a lei nem contra a polícia. “Mas tenho contra aqueles que tiraram a vida dos meus companheiros.” Testemunhou soldados circulando lado a lado com jagunços, execuções de sem-terra e abertura de fossas comuns. Afirmou que alguns posseiros mortos foram enterrados pelas redondezas. Prometeu que jamais participará de movimentos camponeses outra vez. E, no fim, se desculpou. “Se eu falei alguma coisa que contrariou vocês, vocês me perdoam. Mas a verdade é a verdade.”

Colorado do Oeste recebe
Corumbiara, caso enterrado com casa cheia

Corumbiara, caso enterrado começou seu giro rondoniense com casa cheia. Cheíssima. O Instituto Federal de Rondônia (Ifro) em Colorado do Oeste, no Cone Sul, acolheu de braços abertos o livro-reportagem de João Peres e Gerardo Lazzari. Alunos, professores e funcionários demonstraram grande interesse na obra, que conta as histórias e os desdobramentos do conflito agrário ocorrido na região em 1995.

O anfiteatro do campus conta com quase 500 lugares. Não foram suficientes para abrigar toda a audiência: as poltronas tiveram de receber o reforço de cadeiras e bancos de madeira para acomodar tanta gente. Além de chamar a atenção da comunidade acadêmica do Ifro, docentes da rede municipal de ensino de Corumbiara vieram de ônibus, em peso, para um bate-papo que durou o dia todo.

O evento foi coordenado pelo grupo de pesquisa do professor Marcel Emeric Araújo, que ao longo das últimas semanas batalhou recursos e braços que possibilitaram que o autor do livro, João Peres, e o coordenador editorial da Editora Elefante, Tadeu Breda, viessem a Rondônia. Os debates fizeram parte da Semana de Educação para a Vida, que contou com extensa programação no Ifro de Colorado do Oeste.

Na primeira parte do encontro, o autor conversou sobre o caso de Corumbiara, ocorrido há vinte anos durante reintegração de posse na fazenda Santa Elina, com doze mortes. O professor Márcio Martins, do Ifro de Vilhena, também no Cone Sul, apresentou informações sobre a questão agrária em Rondônia e, em particular, na região. Ele é autor da tese de mestrado “Corumbiara: massacre ou combate”, defendida em 2009 no curso de Geografia da Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Conversar com moradores da região permitiu que descobríssemos o nome do senhor cujo retrato estampa a capa de Corumbiara, caso enterrado. É o seo Manuelzão, de 102 anos, conhecido habitante de Corumbiara. Seo Manuelzão foi fotografado por Gerardo Lazzari em 2013, durante a missa que recordava os dezoito anos do episódio.

Agradecemos essa recepção na primeira parada de nossa turnê rondoniense. Os próximos eventos ocorrem em Vilhena, na sexta-feira, 11 de setembro, com participação do autor João Peres na conferência de comunicadores do Cone Sul, na Câmara Municipal, e, depois, com palestra aos estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Rondônia (Unir). No sábado, 12 de setembro, faremos um lançamento na Livraria Café & Letras.

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