2019, te amo e te odeio

Queridos leitores e leitoras,

Este foi definitivamente o melhor ano da história da Editora Elefante, e lamentamos muito que meses tão bons para nossos livros, com tanto trabalho e tantos lançamentos, tenham sido, simultaneamente, tão ruins para os trabalhadores brasileiros. Por isso, não sabemos se amamos ou odiamos 2019. Talvez nutramos ambos os sentimentos pelo ano que passou. Ou nenhum.

O que estamos vivendo na política, na cultura, na economia — enfim, em nossa sociedade como um todo — é tão brutal, violento, insólito e entristecedor que vamos nos abster de tecer comentários mais demorados sobre a realidade que atravessa o país. A internet está cheia de boas e péssimas análises. Diante da barbárie que se alastra, fizemos uma escolha decidida pelos livros. E publicá-los foi basicamente a que nos dedicamos em 2019. Com força e como nunca.

O ano começou com a notícia de que um trecho de Calibã e a bruxa virou questão da Fuvest, vestibular da USP. No finalzinho de 2019, mais duas provas de seleção universitária citariam nossos livros: o Enem, que escolhe os novos estudantes das federais, trouxe um parágrafo de O Bem Viver, e a Vunesp, da Unesp, destacou o ensaio No espelho do terror.

Não que gostemos de vestibulares — sempre acreditamos se tratar de um funil injusto —, mas o fato de avaliadores estarem incluindo nossos livros nessas provas significa que há professores atentos ao que estamos publicando, o que acaba fazendo com que muitos estudantes também despertem para os temas que queremos difundir. E isso nos enche de orgulho e esperança.

Nem bem voltamos do recesso, em janeiro, uma barragem de rejeitos da mineradora Vale rompeu em Brumadinho, matando cerca de trezentas pessoas. Mais de duzentos corpos foram encontrados, mas outros noventa simplesmente desapareceram. Os danos humanos e ambientais são irreparáveis, e aconteceram na esteira da tragédia de Mariana, ocorrida em 2015.

É um absurdo, um acinte, um ecocídio. Relembramos naquele então, e relembraremos sempre, que nossa coleção de livros sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento explica em detalhes por que tais episódios não podem ser considerados meros acidentes: são, isso sim, consequência óbvia da mineração industrial em grande escalada destinada à exportação.

Em 2019, lançamos novos títulos com essa temática: Alternativas sistêmicas, de Pablo Solón, Qual o valor da natureza?, de Daniel Braga Lourenço, Direitos da Natureza, de Eduardo Gudynas — cujo lançamento teve a participação de Aílton Krenak —, As fronteiras do neoextrativismo na América Latina, de Maristella Svampa, e Amazônia: por uma economia do conhecimento da natureza, de Ricardo Abramovay.

Mas o primeiro livro lançado pelos elefantes em 2019 foi Instruções para um futuro imaterial, de Stefano Quintarelli, que deu continuidade à nossa linha de publicações sobre os desafios políticos, econômicos e sociais trazidos pelas novas tecnologias, e que começou há dois anos com Uberização — livro que, em 2019, ganhou uma nova edição, com novo prefácio do autor.

Depois, veio Olhares negros: raça e representação, de bell hooks. A recepção foi incrível, demonstrando o desejo dos leitores e leitoras brasileiras pela obra da escritora negra estadunidense. O lançamento atraiu muita gente, e o livro foi parar em um videoclipe da cantora Gabz com a participação de Baco Exu do Blues e no musical Pretoperitamar, sobre esse grande artista que foi Itamar Assumpção.

Continuamos lançando bell hooks, com Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra e Anseios: raça, gênero e políticas culturais. Cada livro contou com um prefácio assinado, respectivamente, por Rosane Borges, Mariléa de Almeida e Luciane Ramos-Silva. Elas também promoveram debates e conversas sobre a obra de bell hooks ao longo do ano, em parceria conosco. Trazer esses títulos e essas pessoas para perto da Elefante foi uma das nossas grandes alegrias em 2019.

Contudo, se tivéssemos que eleger o “grande momento” dos últimos doze meses, certamente escolheríamos o lançamento de O ponto zero da revolução no Memorial da América Latina, em São Paulo, em 24 de setembro. Gente, o que foi aquilo? Cerca de 1.200 pessoas lotando o imenso auditório Simón Bolívar para ver e ouvir Silvia Federici. Que coisa mais incrível…

Muita gente também foi atrás de Marion Nestle durante a turnê de lançamento do livro Uma verdade indigesta por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, para escutar sobre como a indústria alimentícia manipula a ciência do que comemos. Foi uma grande honra para nós lançar o livro de uma das vozes mais importantes da nutrição e da alimentação saudável em todo o mundo.

Em maio, descobrimos que a Amazon estava vendendo livros nossos a preços mais baixos do que nós mesmos conseguimos praticar, e escrevemos um texto sobre isso em nossas redes sociais. A postagem circulou bastante, produzindo um debate enriquecedor sobre as práticas da gigante estadunidense em tempos de crise nas grandes redes de livraria do país.

No “dia dos namorados”, abrimos a pré-venda de Ética do amor livre: guia prático para poliamor, relacionamentos abertos e outras liberdades afetivas, de Dossie Easton e Janet W. Hardy, que lançaríamos apenas em novembro. Apesar do atraso, pelo qual nos desculpamos, o livro, além de muito bom, ficou incrível, graças às ilustrações de Ariádine Menezes.

Em julho, mais uma vez, somamos esforços no barco da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei), em Paraty. No convés, lançamos dois livros: Sertão, sertões, em diálogo com o autor homenageado pela Flip, Euclides da Cunha; e Makunaimã, uma peça em dois atos sobre a obra de Mário de Andrade, os direitos indígenas e a cultura brasileira.

Makunaimã foi publicado graças a um prêmio do Ministério da Cultura recebido em 31 de dezembro de 2018. Sabendo que a pasta seria extinta pelo novo governo, os servidores correram para garantir que o benefício fosse liberado. Falando em premiações, Raul, de Alexandre De Maio, ficou entre as cinco melhores HQs do ano segundo os jurados do Prêmio Jabuti.

Mulheres Livres veio em agosto, com uma pequena turnê de lançamento em São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro com a presença da autora, Martha A. Ackelsberg, quem debateu sobre a organização que lutou pela emancipação feminina na revolução social que precedeu a Guerra Civil Espanhola, nos anos 1930, e sobre os ensinamentos que elas deixaram para as mulheres de hoje.

Em meio ao avanço do conservadorismo e da extrema direita na América Latina, lançamos uma segunda edição revista e ampliada de Uma história da onda progressista sul-americana (1998-2016), de Fabio Luis Barbosa dos Santos, livro essencial para compreender o momento que vivemos. Também lançamos México e os desafios do progressismo tardio, sobre o país que, na contramão dos vizinhos, foi para a esquerda.

Não imaginávamos que, em outubro, o continente entraria em ebulição, com grandes protestos no Equador, no Chile e na Colômbia, e um golpe de Estado na Bolívia. Como por aqui a mobilização popular contestadora sempre acarreta repressão violenta, assistimos com muito pesar à ação de policiais e membros das forças armadas contra nossos hermanos nas ruas e nos campos.

Muita gente morreu. No Chile, mais de duzentas pessoas foram atingidas por balas de borracha nos olhos, perdendo a visão. Em solidariedade, decidimos distribuir gratuitamente Memória ocular, lançado em 2018. Ainda sobre o tema, publicamos Corpos que sofrem, com artigos que tratam dos efeitos psicossociais da violência — sobretudo quando impingida pelo Estado.

Mas também foi um ano de poesia. Gargalhando vitória nos trouxe vozes e cenas do fluxo da Cracolândia, região do centro de São Paulo que concentra usuários de crack. Em dezembro, com Poemas, do surrealista francês Robert Desnos, nosso último lançamento do ano, chegamos ao quinquagésimo título da história da Elefante. Urrú! Em 2019, no total, foram vinte novos livros.

Por fim, aumentamos nossa coleção Fundo & Forma, de antropologia, com O retorno da terra, sobre a luta dos Tupinambá da Serra do Padeiro, no sul da Bahia, com lançamentos em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Seguro e — claro — na aldeia cujo povo inspirou o livro de Daniela Fernandes Alarcon.

Em 2019 nós aqui na Elefante trabalhamos como se houvesse amanhã: porque haverá, e será melhor. Nem sabemos direito como conseguimos fazer tanta coisa com uma equipe tão minúscula. Mas sabemos por que conseguimos: porque vocês estão conosco. Nossa independência editorial só é possível com a interdependência que temos de vocês, nossos leitores e leitoras.

Cada pré-venda que vocês apoiam, cada foto de nossos livros que vocês compartilham, cada vez que recomendam nossos títulos aos amigos, enfim, cada gesto de cada um de vocês possibilita que continuemos caminhando.

E assim pretendemos seguir 2020 adentro: lado a lado com vocês, contra a barbárie que se instala no país e no mundo, publicando livros que ajudem a pensar e a construir alternativas que possibilitem vivermos em paz e igualdade.

Bom descanso para todos e todas vocês. Ano que vem tem mais.

Vamos juntos, em manada.

Dos elefantes,

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